Canteiros de plantas medicinais unem ciência e saber popular nas periferias de SP

Em territórios periféricos da cidade de São Paulo, um projeto que reúne universidade, moradores e coletivos locais vem implantando canteiros de plantas medicinais como espaços de formação, cuidado e troca de saberes. As experiências entre os anos de 2022 e 2025 estão registradas no livro Canteiros Medicinais Periféricos – O Comunitarismo das Plantas (2025), publicado por Glac Edições.
A obra documenta a criação dos canteiros, a participação dos moradores e a estrutura do projeto, pautado na articulação de uma parceria entre o poder público, a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), coletivos locais de diferentes territórios da periferia de São Paulo e colaboradores independentes.
Entre política pública, universidade e território
A origem do projeto remonta uma relação construída ao longo de décadas. Por volta de 2004, Paulo Teixeira — então secretário municipal de Habitação e Desenvolvimento Urbano de São Paulo, e atual ministro do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar — conheceu as lideranças do Espaço Cultural Jardim Damasceno, na Brasilândia.
Registro do plantio e inauguração do projeto “Hortas medicinais”, no Espaço Cultural Jardim Damasceno, na Brasilândia, em São Paulo
Instagram/Canteiros Medicinais Periféricos/Reprodução
“Nesse território, um grupo de mulheres vêm se organizando em um coletivo desde 1990, que, entre outras coisas, implantou canteiros de plantas medicinais com o intuito de disponibilizá-las aos moradores locais”, explica Eliana Rodrigues, professora da Unifesp na área de Etnobotânica, e uma das coordenadoras do projeto.
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Desde então, Paulo passou a acompanhar o trabalho desenvolvido no território, voltado ao cultivo e à circulação de plantas medicinais. Em meados de 2020, essa aproximação se desdobra em uma proposta mais ampla: expandir a experiência do Jardim Damasceno para outros territórios periféricos, uma proposta viabilizada por meio de aplicação de emendas parlamentares.
A inauguração da Horta Medicinal no Espaço Cultural Jardim Damasceno contou com a presença da comunidade, Paulo Teixeira e representantes da Unifesp
Instagram/Canteiros Medicinais Periféricos/Reprodução
Nesse momento, a jornalista Gabrielle Dainezi, atuante em movimentos sociais nas periferias e assessora de Paulo Teixera, procurou a Universidade em busca de uma possível articulação, estabelecida com Eliana. A ideia era fortalecer iniciativas semelhantes e criar uma rede de produção e troca de plantas medicinais, com potencial de diálogo com políticas públicas de saúde, como as Farmácias Vivas do SUS.
A primeira fase teve início em 2022, no próprio Jardim Damasceno, com o projeto-piloto Horta Medicinal Brasilândia. Voltada à formação comunitária e ao uso seguro das plantas, a iniciativa capacitou moradores para atuar como multiplicadores e estruturou uma metodologia baseada na troca de saberes entre universidade e território.
A partir da experiência do Jardim Damasceno, a proposta foi expandir o projeto para outras regiões periféricas de São Paulo, incluindo a zona sul. Registro do canteiro na Associação Povo em Ação, no Jardim São Bento, no Capão Redondo
Instagram/Canteiros Medicinais Periféricos/Reprodução
Com os resultados, o projeto avançou em 2023 para uma segunda fase, expandindo-se para novos territórios, como Ermelino Matarazzo, Cohab Jardim São Bento e Guaianazes, sempre em parceria com coletivos locais. Os territórios foram sendo selecionados mediante vontade expressa de moradores ou de coletivos trazidas ao Paulo.
No final de 2023, o projeto entrou em sua terceira fase, quando passou a se chamar Canteiros Medicinais Periféricos. A mudança de nome acompanha a consolidação da iniciativa como uma rede articulada entre territórios. Novos grupos — como o Grupo de Agricultura Urbana (GAU), em São Miguel Paulista, e participantes do Jardim Icaraí — são incorporadorados nesse período, totalizando seis comunidades ativas até o início de 2025.
Ao longo dos três anos de desenvolvimento, a Unifesp deu suporte às atividades por meio dos Projetos de Extensão. O projeto também propiciou que 40 pessoas recebessem bolsas comunitárias, além do apoio e da atuação direta de lideranças, voluntários e outros moradores locais.
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A experiência dos territórios e seus coletivos
Os canteiros refletem dinâmicas próprias. “Cada canteiro tem uma proposta única desenvolvendo atividades que vão desde o plantio até oficinas e capacitações. Acho que isso é o legal do projeto: por ser flexível, consegue trazer e respeitar as especificidades de cada lugar, porque São Paulo é muito plural, principalmente, na periferia”, afirma Gabrielle.
Durante as oficinas, diversas plantas medicinais são discutidas, envolvendo pontos como a eficácia e a segurança, embasadas tanto na bibliografia acadêmica, quanto no conhecimento tradicional. Também já foram realizadas rodas de conversa e oficinais voltadas para as formas de extração de óleos essenciais das plantas dos seu canteiros, visando a produção de fitocosméticos para consumo próprio.
Além do plantio, o projeto conta com oficinas, rodas de chá, de conversa, capacitações e diferentes atividades vinculadas às demandas dos próprios territórios
Instagram/Canteiros Medicinais Periféricos/Reprodução
Em Ermelino Matarazzo, na zona leste de São Paulo, por exemplo, a experiência dos canteiros medicinais se conecta diretamente com a trajetória comunitária construída em torno da Paróquia São Francisco de Assis e das iniciativas lideradas pelo padre Ticão, como a Escola de Cidadania da Zona Leste de Formação Cidadã e a Escola de Cidadania de Saúde Preventiva, Integral e Holística.
Foi neste contexto que Deise Cassi dos Anjos se aproximou do projeto. “A cada encontro, aprendíamos um tema diferente sobre a cura pelas plantas medicinais”, conta Deise. A formação levou à implantação de uma horta na Casa da 3ª Idade Tereza Bugolim e, posteriormente, de um canteiro na comunidade Padre Cícero.
“O que mais me marcou foi a presença das pessoas da comunidade e dos idosos da Casa da 3ª Idade, que visitavam o espaço do projeto e falavam com orgulho que ali estariam plantando um pedacinho do padre Ticão, que tanto incentivou as pessoas a cuidarem da saúde através das plantas medicinais”, relembra Deise, publicitária, pedagoga e coordenadora da horta e do canteiro de plantas medicinais de Ermelino Matarazzo.
Roda de conversa “Plantas que curam” realizada em 2023 em um dos espaços dos canteiros de plantas medicinais da Brasilândia
Instagram/Canteiros Medicinais Periféricos/Reprodução
Com o tempo, o impacto passou a ser percebido também no cotidiano do bairro, conforme mais pessoas passaram a se interessar pelas plantas medicinais. “Os canteiros permitem esse resgate do conhecimento dos nossos ancestrais e do afeto das famílias sobre a cura pelas plantas medicinais, que passam de geração em geração”, ressalta Denise.
É dessa dimensão que vem a relação de Ana Sueli Ferreira da Silva, colaboradora das hortas do projeto localizadas na Brasilândia. Criada pela avó no Rio Grande do Norte, desde pequena, ela teve contato com as plantas medicinais. “Vejo nelas uma possibilidade de reconhecimento dos nossos antepassados, que utilizavam as plantas com muita sabedoria popular. Estar nos canteiros, para mim, é também uma forma de ter a minha avó perto da minha história”, diz.
No canteiro da Escola Senador Milton Campos, onde atua, Ana Sueli participa diretamente do cultivo e da manutenção de diferentes espécies medicinais, como manjericão-roxo, arruda, tansagem e ora-pro-nóbis, utilizadas tanto para chás quanto para preparos terapêuticos e de uso cotidiano. O trabalho envolve desde o plantio coletivo ao acompanhamento das plantas, além da realização de rodas de conversa com moradores.
No espaço do Jardim Damasceno, foram feitos canteiros de bioconstrução, entrevistas para seleção das espécies mais representativas, obtenção e plantio de mudas matrizes com pesquisa científica, bem como aulas e oficinas sobre temas diversos
Instagram/Canteiros Medicinais Periféricos/Reprodução
Já no Coletivo GAU (Grupo de Agricultura Urbana), no Jardim Nova União, zona leste de São Paulo, a experiência dos canteiros medicinais se articula em um território historicamente marcado pela violência e pelo isolamento urbano, que vem sendo ressignificado pela ação comunitária.
O trabalho das mulheres do coletivo ganha força, unindo agricultura urbana, acolhimento e geração de renda. “Elas têm uma horta ali que é super consolidada na questão alimentar, inclusive, é um projeto que empodera mulheres vítimas de violência. A incorporação dos canteiros medicinais amplia esse trabalho ao integrar saberes tradicionais e conhecimento técnico, possibilitando não apenas o uso seguro das plantas, mas também a produção de fitoterápicos e a geração de renda”, destaca Gabrielle.
Um projeto de livro coletivo
A publicação reflete os próprios pilares do projeto do fazer coletivo e colaborativo. O livro está organizado em duas partes ao longo de nove capítulos. Nos seis primeiros, os territórios apresentam suas histórias, trajetórias e experiências com os canteiros comunitários.
Um dos capítulos da obra é dedicado às chamadas “plantas de afeto”, que aprofunda as conexões entre moradores e espécies cultivadas. A construção desse conteúdo partiu da escolha participativa de plantas consideradas importantes pelos próprios integrantes das comunidades.
O livro Canteiros Medicinais Periféricos – O comunitarismo das Plantas traz informações científicas sobre as espécies e também aspectos afetivos, além das histórias dos territórios onde os canteiros foram estabelecidos
Instagram/Canteiros Medicinais Periféricos/Reprodução
Nesse processo, os moradores compartilharam não apenas o nome das plantas, mas relatos carregados de memória e afeto, revelando como essas espécies atravessam o cuidado cotidiano, as histórias familiares e as práticas culturais dos territórios. O capítulo também se desdobra em uma dimensão audiovisual, em que cada relato foi registrado em vídeo.
As plantas foram identificadas cientificamente por especialistas da equipe, e suas informações organizadas com base em fontes como a Farmacopeia Brasileira, a Anvisa e estudos científicos, reunindo dados sobre origem, propriedades e cuidados no uso. “É uma parte importante para que se faça o uso seguro dessas plantas medicinais”, ressalta Gabrielle.
Além do cuidado com a identificação e a qualidade das informações, nota-se a preocupação com a elaboração de um material bem feito esteticamente. Para as ilustrações, por exemplo, foi contratada uma ilustradora especializada em botânica.
As ilustrações do livro Canteiros Medicinais Periféricos – O comunitarismo das Plantas foram feitas pela ilustradora Priscila Cardoso
GLAC Edições/Divulgação
Mais do que participantes, os moradores assumiram também o papel de autores — um aspecto central da proposta editorial. “Ao assinarem seus próprios capítulos, os integrantes dos territórios se reconhecem como produtores de conhecimento, rompendo com a lógica tradicional de apenas pessoas dentro da universidade e da academia, conectando a universidade com a sociedade de fato”, comenta Gabrielle.
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Perspectivas futuras e expansão do projeto
Para a próxima edição, a proposta é que o projeto conte com treze territórios participantes. Diante da grande procura e da recepção do livro, os territórios já participantes e os integrantes do projeto já pensam em uma nova edição para incluir os novos canteiros e comunidades.
Porém, mais do que ampliar o número de participantes, a proposta é seguir garantindo que haja uma divulgação de informações de qualidade e seguras sobre as plantas medicinais.
Os canteiros também têm se expandido para além do projeto em si, com a consolidação das redes criadas enquanto coletivo e o fortalecimento da autonomia dos territórios. “Pessoas que já não moram nos bairros continuam participando dessa grande rede que o projeto construiu”, complementa Gabrielle.
O livro digital Canteiros Medicinais Periféricos – O Comunitarismo das Plantas pode ser acessado gratuitamente no site da editora.

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