Casal brasileiro compra lar na Islândia com vista privilegiada da aurora boreal

Ver a aurora boreal da janela de casa é um privilégio que a carioca Anna Kellen Bull, jornalista, e o paulista Pietro Pirani, fotógrafo e especialista em marketing, desfrutam agora todos os dias. Vivendo na Islândia há pouco mais de quatro anos, o casal acaba de conquistar seu primeiro imóvel próprio no país, após passar por diversas residências de aluguel.
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Pais do pequeno Kai, de 2 anos, os brasileiros transformaram o sonho de morar na terra do gelo e do fogo em realidade — e hoje dividem nas redes sociais as curiosidades e desafios de construir uma vida no extremo norte.
Um destaque da propriedade que o casal brasileiro comprou na Islândia é um parquinho no quintal, onde o pequeno Kai pode brincar livremente
Pietro Pirani/Arquivo Pessoal
Como tudo começou
A paixão pela Islândia começou cedo para Anna, ainda na adolescência. Pietro, por coincidência, já havia visitado o país e tinha o desejo de viver ali. O encontro dos dois deu início a uma trajetória marcada por viagens como nômades digitais — em uma dessas, em 2022, o pedido de casamento sob a aurora boreal selou o destino do casal. Pouco tempo depois, eles oficializaram a união no Brasil e, em menos de seis meses, já estavam instalados em Reykjavík, prontos para iniciar uma nova vida.
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A chegada trouxe um choque de realidade. O primeiro apartamento foi conquistado quase por acaso, após uma chamada de vídeo com a proprietária. Logo perceberam que o mercado imobiliário islandês é caro e altamente concorrido.
“Aqui é diferente do Brasil: é muita procura e pouca oferta. O dono do imóvel escolhe quem vai alugar, analisando se tem emprego estável. Entrávamos nos sites de anúncio pelo menos três vezes ao dia. Isso porque, se alguém posta um anúncio, em menos de uma hora já recebe cerca de 100 mensagens e acaba saindo do ar rapidamente”, conta Pietro.
A jornalista Anna Kellen Bull, o pequeno Kai e o pastor islandês Skuggi na sala de estar da casa em que moram na Islândia
Pietro Pirani/Arquivo Pessoal
Além disso, o aluguel é elevado e requer um depósito antecipado, semelhante ao caução praticado no Brasil. “Como o aluguel é muito caro, os três meses de caução pode chegar a valores altíssimos, na casa dos 60 ou 70 mil reais. Para evitar isso, existe uma empresa que funciona como seguro”, diz Anna.
Ainda segundo o casal, o alto custo de vida na Islândia não é, necessariamente, compensado pelos salários. Essa situação reflete a crise imobiliária atual, agravada pelo impacto do Airbnb — conforme aponta uma reportagem do jornal Financial Times, publicada em março de 2017, naquela época, a oferta de hotéis não acompanhava o crescimento do turismo em Reykjavik, o que levou a muitos proprietários de imóveis a priorizar aluguéis de curto prazo para viajantes, reduzindo a oferta para residentes.
Os dois pinheiros do quintal foram um dos elementos que chamou a atenção de Anna ao visitar o imóvel antes da compra
Pietro Pirani/Arquivo Pessoal
Por isso, o governo irlandês oferece um benefício de aluguel: embora não controle diretamente o preço do mercado, deposita um valor na conta do beneficiário para ajudar no pagamento. Para receber, é preciso se inscrever e passar por uma análise que considera renda, número de moradores e valor do aluguel. A partir disso, o governo define o montante a ser repassado, como forma de reduzir os impactos sem interferir no mercado. “Esse apoio foi fundamental para nós na época”, revela Anna.
Curiosidades das casas islandesas
Entre as diferenças nos imóveis, os brasileiros destacam a presença garantida de aquecedores e máquinas de lavar louça, além da escassez de banheiros e lavanderias — estas últimas, muitas vezes compartilhadas. “Mesmo em apartamentos grandes, costuma haver apenas um banheiro; encontrar dois é quase um milagre”, brinca Anna.
Ainda sobre a calefação, uma curiosidade é que na Islândia ela provém da energia geotérmica, ou seja, a água é aquecida pelo magma no centro da Terra. “Em comparação a outros países da Europa, aqui o aquecimento é muito barato. Os islandeses têm até uma piada interna: se a casa está quente demais, eles simplesmente abrem a janela”, afirma Pietro.
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Outra particularidade é que a água tem cheiro de enxofre, “lembrando ovo podre”, segundo Anna. Isso varia conforme a região: em algumas, o odor é mais forte; em outras, quase imperceptível. Apesar disso, a água é extremamente pura, sem calcário, diferente de outros países europeus. “É considerada uma das mais puras do mundo, comparável à da Noruega. Vem dos glaciares e isso faz muita diferença no gosto. É realmente maravilhosa”, conta a brasileira.
Cópia de chaves? Também não é necessário. No primeiro apartamento em que moraram, os dois receberam apenas uma chave e logo descobriram que, na Islândia, praticamente ninguém tranca a porta — por isso, não há necessidade de ter unidades extras.
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Mais uma curiosidade é que Anna relata dificuldades para cuidar de plantas: “Aqui, quase não há sol. No verão, por dois meses, elas ficam felizes; depois, já ficam tristes, sem luz suficiente. Sei que tem gente que dá conta, mas eu não estou conseguindo”.
A hora da casa própria
Cansados da instabilidade imobiliária e, após viver em cinco lares diferentes no país, o casal decidiu comprar uma casa. O processo foi surpreendentemente simples: tudo digital. O banco, conectado ao sistema nacional, já sabia quanto a dupla ganhava e gastava, e calculou automaticamente o valor possível de financiamento.
“Para quem está comprando a primeira casa, é preciso dar 15% de entrada. Na minha opinião, é bastante. Aqui, quanto maior a entrada, menor fica a parcela, e o banco faz um cálculo baseado nesse valor para indicar até quanto podemos procurar. Esse processo é uma pré-aplicação: depois que encontramos a casa, é necessário aplicar novamente, já com o imóvel definido, para que o banco faça o valuation e confirme se está tudo certo”, revela Pietro.
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O mercado, no entanto, é restrito, dizem os brasileiros. Há basicamente poucos sites para procurar imóveis, mas todos mostram praticamente as mesmas opções. Residências novas raramente aparecem, o que torna a busca mais demorada.
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Além disso, é preciso agir rápido ao fazer um lance, visto que, em um mercado tão limitado, o imóvel pode ser perdido facilmente — o que aconteceu com Anna e Pietro. “Quando o comprador aceita, o lance passa a ser uma oferta formal. Ou seja, se você faz a proposta e o dono aceita, você é obrigado a cumprir”, diz o brasileiro.
A casa tem 187 m², quatro dormitórios, dois banheiros, lavanderia e parquinho no jardim, elementos considerados essenciais pelo casal de brasileiros
Pietro Pirani/Arquivo Pessoal
Após uma frustração, porém, não demorou para que os dois encontrassem o lar dos sonhos: uma casa isolada de 187 m² no interior do país, acessada por uma estrada de terra e situada em um terreno tomado por vegetação, onde ovelhas e cavalos circulam livremente, com um jardim repleto de pedras vulcânicas e vista privilegiada para a aurora boreal.
A residência, segundo eles, parecia feita sob medida. “Tinha tudo que a gente queria: quatro dormitórios, dois banheiros e um parquinho no quintal para o Kai”, celebra Anna.
Fotografia noturna mostra a casa da família Bull-Pirani durante um espetáculo da aurora boreal na Islândia
Pietro Pirani/Arquivo Pessoal
De acordo com o casal, o preço pago pela propriedade foi considerado baixo para os padrões islandeses. Eles também explicam que o financiamento funciona de forma semelhante ao do Brasil: é possível parcelar em até 40 anos e antecipar pagamentos quando desejado. A principal diferença está na agilidade — sem a necessidade de ir em cartórios, todo o processo é automatizado, desde a assinatura do contrato até a transferência das contas de água, luz e demais serviços, que passaram para o nome dos brasileiros quase imediatamente.
Outra particularidade de morar na Islândia é a obrigatoriedade de contratar um seguro contra desastres naturais, o que inclui erupções vulcânicas.
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A geografia local, aliás, é a inspiração para decorar o novo lar da família: no quarto, eles pintaram a parede atrás da cama de um verde mais escuro, remetendo ao musgo que cresce sobre a lava vulcânica, e escolheram uma cabeceira que lembra o solo formado por rochas derretidas.
Cozinha da residência de Anna Kellen Bull e Pietro Pirani na Islândia
Pietro Pirani/Arquivo Pessoal
Além disso, Pietro planeja transformar um pedaço de lava recém‑petrificada em uma escultura para pendurar na parede. Enquanto o casal vai ornamentando os ambientes aos poucos, a rotina ganhou alegria com a chegada de Skuggi, um pastor islandês cujo nome, no idioma local, significa “sombra” — mais um elemento que completa a vida na terra do gelo e do fogo.

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