Sempre me chamou atenção como a arquitetura mais duradoura nem sempre é a mais monumental. Muitas vezes ela é pequena, repetida, quase invisível de tão integrada ao cotidiano. É esse tipo de arquitetura que molda a memória coletiva sem pedir licença. Quando penso nisso, poucos exemplos são tão claros quanto o trabalho da arquiteta e designer Chu Ming Silveira, responsável por um dos objetos mais emblemáticos da paisagem urbana brasileira: o orelhão.
Ela nasceu em Xangai, em 1941, e chegou ao Brasil ainda criança, em um país que se industrializava rapidamente e começava a construir sua identidade moderna. Formou-se arquiteta pelo Mackenzie em São Paulo, em uma época em que o debate arquitetônico era fortemente marcado pelo modernismo, pela racionalidade construtiva e pela crença no progresso técnico como motor de transformação social. Esse contexto é fundamental para entender sua trajetória, que sempre transitou entre arquitetura, design industrial e comunicação visual.
Ao contrário de muitos arquitetos de sua geração, Chu Ming não construiu uma carreira baseada em edifícios autorais ou grandes obras públicas. Sua atuação foi mais silenciosa e, ao mesmo tempo, muito mais presente na vida cotidiana. Trabalhando na então Companhia Telefônica Brasileira, ela recebeu no início da década de 1970 a tarefa de repensar o telefone público. O problema era simples apenas na aparência. Era preciso criar um objeto resistente, barato, de fácil manutenção, adequado ao clima tropical, que protegesse o usuário do ruído urbano e ainda fosse facilmente reconhecível à distância.
A arquiteta e designer Chu Ming e sua criação, o orelhão. A foto foi impressa em jornal
Acervo de Chu Ming Silveira/orelhao.arq.br
A resposta veio em forma de um gesto preciso: a concha oval, inspirada em estudos acústicos e na ergonomia do corpo humano, não era apenas uma solução formal elegante, mas uma decisão técnica extremamente racional. A curvatura ajudava a concentrar o som, reduzia interferências externas e criava uma sensação mínima de abrigo em meio ao caos das calçadas. O uso do acrílico nos modelos internos e da fibra de vidro nos externos mostrava um domínio claro dos materiais e de suas possibilidades industriais.
O orelhão não foi pensado como objeto isolado, mas como parte de um sistema urbano. Ele precisava funcionar em qualquer cidade do país, do centro de São Paulo a pequenas localidades do interior, mantendo identidade visual, eficiência e resistência. Essa capacidade de padronização é um dos grandes méritos do projeto. Poucos objetos de design conseguiram se espalhar de forma tão homogênea pelo território brasileiro.
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Com o tempo, o orelhão deixou de ser apenas infraestrutura e virou símbolo. Tornou-se ponto de encontro, referência espacial, cenário de histórias pessoais e até elemento poético. Foi apropriado pela cultura popular, pela literatura, pela fotografia e pela memória afetiva de gerações inteiras. Tudo isso sem nunca perder sua função principal, que era permitir a comunicação pública em um país marcado por desigualdades de acesso.
Ao longo de sua carreira, Chu Ming também atuou em projetos gráficos, sistemas de sinalização e design de equipamentos, sempre com a mesma lógica de clareza, economia de meios e foco no usuário. Seu trabalho demonstra que arquitetura não se limita a edifícios, mas inclui todo o conjunto de objetos e sistemas que organizam a vida urbana. Essa visão ampliada talvez seja uma de suas maiores contribuições.
Projeto original do orelhão, da arquiteta Chu Ming Silveira
Acervo de Chu Ming Silveira/orelhao.arq.br
Hoje, no entanto, vivemos um momento simbólico, os orelhões estão sendo retirados das ruas. A justificativa é compreensível. Com a disseminação dos celulares, seu uso tornou-se residual e a manutenção deixou de fazer sentido econômico. Ainda assim, não consigo deixar de ver essa retirada como o encerramento de um capítulo importante da história urbana brasileira. A cidade perde um de seus signos mais democráticos, um objeto que não exigia senha, aplicativo ou plano de dados.
Defender a retirada dos orelhões não é negar seu valor. Pelo contrário. É reconhecer que sua missão foi cumprida. Mas isso não deveria significar apagamento. Museus, espaços públicos e escolas de arquitetura deveriam olhar com mais atenção para esse legado. O orelhão é uma aula condensada de design, tecnologia, política pública e sensibilidade urbana.
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Ao falar de Chu Ming Silveira, gosto de pensar que seu maior feito não foi criar um ícone, mas entender profundamente o papel do arquiteto na vida comum. Seu trabalho mostra que projetar bem é, muitas vezes, saber desaparecer na paisagem e permanecer na memória. Mesmo quando o objeto some fisicamente da cidade, a inteligência por trás dele continua ecoando, como uma ligação que marcou época e que ainda merece ser ouvida.
Ela nasceu em Xangai, em 1941, e chegou ao Brasil ainda criança, em um país que se industrializava rapidamente e começava a construir sua identidade moderna. Formou-se arquiteta pelo Mackenzie em São Paulo, em uma época em que o debate arquitetônico era fortemente marcado pelo modernismo, pela racionalidade construtiva e pela crença no progresso técnico como motor de transformação social. Esse contexto é fundamental para entender sua trajetória, que sempre transitou entre arquitetura, design industrial e comunicação visual.
Ao contrário de muitos arquitetos de sua geração, Chu Ming não construiu uma carreira baseada em edifícios autorais ou grandes obras públicas. Sua atuação foi mais silenciosa e, ao mesmo tempo, muito mais presente na vida cotidiana. Trabalhando na então Companhia Telefônica Brasileira, ela recebeu no início da década de 1970 a tarefa de repensar o telefone público. O problema era simples apenas na aparência. Era preciso criar um objeto resistente, barato, de fácil manutenção, adequado ao clima tropical, que protegesse o usuário do ruído urbano e ainda fosse facilmente reconhecível à distância.
A arquiteta e designer Chu Ming e sua criação, o orelhão. A foto foi impressa em jornal
Acervo de Chu Ming Silveira/orelhao.arq.br
A resposta veio em forma de um gesto preciso: a concha oval, inspirada em estudos acústicos e na ergonomia do corpo humano, não era apenas uma solução formal elegante, mas uma decisão técnica extremamente racional. A curvatura ajudava a concentrar o som, reduzia interferências externas e criava uma sensação mínima de abrigo em meio ao caos das calçadas. O uso do acrílico nos modelos internos e da fibra de vidro nos externos mostrava um domínio claro dos materiais e de suas possibilidades industriais.
O orelhão não foi pensado como objeto isolado, mas como parte de um sistema urbano. Ele precisava funcionar em qualquer cidade do país, do centro de São Paulo a pequenas localidades do interior, mantendo identidade visual, eficiência e resistência. Essa capacidade de padronização é um dos grandes méritos do projeto. Poucos objetos de design conseguiram se espalhar de forma tão homogênea pelo território brasileiro.
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Com o tempo, o orelhão deixou de ser apenas infraestrutura e virou símbolo. Tornou-se ponto de encontro, referência espacial, cenário de histórias pessoais e até elemento poético. Foi apropriado pela cultura popular, pela literatura, pela fotografia e pela memória afetiva de gerações inteiras. Tudo isso sem nunca perder sua função principal, que era permitir a comunicação pública em um país marcado por desigualdades de acesso.
Ao longo de sua carreira, Chu Ming também atuou em projetos gráficos, sistemas de sinalização e design de equipamentos, sempre com a mesma lógica de clareza, economia de meios e foco no usuário. Seu trabalho demonstra que arquitetura não se limita a edifícios, mas inclui todo o conjunto de objetos e sistemas que organizam a vida urbana. Essa visão ampliada talvez seja uma de suas maiores contribuições.
Projeto original do orelhão, da arquiteta Chu Ming Silveira
Acervo de Chu Ming Silveira/orelhao.arq.br
Hoje, no entanto, vivemos um momento simbólico, os orelhões estão sendo retirados das ruas. A justificativa é compreensível. Com a disseminação dos celulares, seu uso tornou-se residual e a manutenção deixou de fazer sentido econômico. Ainda assim, não consigo deixar de ver essa retirada como o encerramento de um capítulo importante da história urbana brasileira. A cidade perde um de seus signos mais democráticos, um objeto que não exigia senha, aplicativo ou plano de dados.
Defender a retirada dos orelhões não é negar seu valor. Pelo contrário. É reconhecer que sua missão foi cumprida. Mas isso não deveria significar apagamento. Museus, espaços públicos e escolas de arquitetura deveriam olhar com mais atenção para esse legado. O orelhão é uma aula condensada de design, tecnologia, política pública e sensibilidade urbana.
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Ao falar de Chu Ming Silveira, gosto de pensar que seu maior feito não foi criar um ícone, mas entender profundamente o papel do arquiteto na vida comum. Seu trabalho mostra que projetar bem é, muitas vezes, saber desaparecer na paisagem e permanecer na memória. Mesmo quando o objeto some fisicamente da cidade, a inteligência por trás dele continua ecoando, como uma ligação que marcou época e que ainda merece ser ouvida.



