Como a cenografia de ‘O Agente Secreto’ ajuda a contar a história do filme

A arte de construir cenários é um dos trabalhos mais minuciosos do universo cinematográfico. Em O Agente Secreto, que concorre a quatro indicações ao Oscar neste domingo (12), a equipe de produção conseguiu transportar o espectador para o Brasil dos anos 1970. A partir de pesquisas em fotografias, arquivos, exposições e filmes da época, foi possível reconstruir ambientes capazes de traduzir visualmente o contexto histórico e cultural daquele período.
Detalhes da cozinha do apartamento de Alexandre, personagem vivido por Carlos Francisco
Divulgação/O Agente Secreto
Mais do que contar a história de uma época, o trabalho de cenografia do longa-metragem também contribui para revelar a personalidade e o contexto de cada personagem. Para entender como essas escolhas ajudam a construir a narrativa protagonizada por Marcelo, interpretado por Wagner Moura, a Casa Vogue conversou com Thales Junqueira e Mariana Kinker, integrantes da equipe de O Agente Secrete.
Como tudo começa
A sala do apartamento de Geisa, ocupado por Marcelo – vivido por Wagner Moura
Thales Junqueira
Um dos pontos de partida da pesquisa realizada pelo time de direção de arte foi a própria filmografia do diretor do longa-metragem, Kleber Mendonça Filho – o documentário Retratos Fantasmas (2023) foi essencial para visualizar o centro do Recife e os cinemas de rua da época, por exemplo. Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia (1977) e Pixote, a Lei do Mais Fraco (1980), do diretor Héctor Babenco, assim como Iracema: Uma Transa Amazônica (1974), de Jorge Bodanzky e Orlando Senna, foram outros filmes utilizados como referência.
LEIA MAIS
🏡 Casa Vogue agora está no WhatsApp! Clique aqui e siga nosso canal
Uma ampla pesquisa em álbuns de fotografia, coordenada pela figurinista Rita Azevedo, também foi essencial para reconstruir a época. “Essas fotos – de casas e festas, por exemplo – deram para a gente um olhar mais doméstico, mais íntimo da época”, conta Thales Junqueira, diretor de arte de O Agente Secreto. Algumas fotos, inclusive, mostravam apartamentos do Edifício Ofir – que deu vida às residências de Dona Sebastiana (Tânia Maria), de sua sobrinha Geisa e de Claudia (Hermila Guedes).
“Nelas, encontramos o caminho para muitos elementos e texturas da decoração. Uma das fotos era numa varanda do Edifício Ofir, onde tinham as mesmas cadeiras de ferro aramado que escolhemos usar na casa de Sebastiana. Outra, tinha um vaso de pau d’água que levamos para o apartamento de Geisa. Cada referência traz uma ideia, uma provocação que usamos para traduzir a sensação que elas nos dão em seu conjunto”, revela Mariana Kinker, decoradora de cena e produtora de objetos de O Agente Secreto.
Outro ângulo do apartamento de Geisa, sobrinha de Dona Sebastiada, interpretada por Tânia Maria
Divulgação/O Agente Secreto
Visitas a museus e arquivos públicos também ajudaram a entender o imaginário da época. Um exemplo foi a visita de Thales e Kleber à exposição de Jorge Bodanzky, no IMS, em São Paulo. “Eram fotos inscritas no período da ditadura militar, entre 1964 e 1985. Eu não conhecia a maior parte delas e fiquei bem impressionado, porque tinham muito de um tipo de paisagem humana e urbana que a gente buscava para o filme”, completa.
A criação dos ambientes
Um dos cenários que mais chamam a atenção no filme são as casas de Dona Sebastiana e Geisa, onde Marcelo — interpretado por Wagner Moura — passa a morar. Para criar esses ambientes, os apartamentos originais do Edifício Ofir precisaram passar por uma repaginação completa. Apesar da fachada remeter aos anos 1970, os interiores já apresentavam intervenções contemporâneas.
Os interiores do apartamento de Dona Sebastiana
Mariana Kinker
Nesse processo, explica a cenógrafa Mariana Kinker, foram fundamentais os móveis e objetos vindos de pessoas e instituições parceiras no Recife: “Produzimos alguns móveis do zero e também compramos e reformamos muita coisa”. A mesa de jantar redonda da casa de Geisa, por exemplo, foi construída a partir de um modelo vendido na Mesbla, uma das maiores redes de lojas de departamentos do Brasil, dominante nas décadas de 1970 e 1980.
Revistas Newsletter
“Instalamos um piso cenográfico de madeira na área social, no corredor e no quarto. Também alteramos completamente a cozinha: fiz um levantamento em cemitérios de azulejo no Recife e encontramos alguns modelos interessantes. A partir deles, produzimos um azulejo para revestir a cozinha”, comenta Thales Junqueira sobre algumas alterações no apartamento que abriga Marcelo.
Mais do que transportar o espectador para outra época, os espaços ajudam a revelar a personalidade dos personagens. A casa de Dona Sebastiana, por exemplo, carrega toda a sua história, algo que ela própria organiza em um altar de lembranças. Seus móveis são mais pesados e antigos que os vistos em outros cenários, mas a diversidade de estampas e objetos na decoração traz uma irreverência que dialoga com a personagem”, completa Mariana.
Mais detalhes do apartamento de Alexandre
Mariana Kinker
Também é possível conhecer um pouco de Geisa — personagem que sequer aparece em cena — por meio da decoração de seu apartamento. A equipe buscou “contar um pouco dela pelos objetos”, como explica Mariana. “A forma como as coisas se misturavam em sua própria organização: os quadros, livros, discos, artesanatos e as fotos de família, a escrivaninha de trabalho no quarto…”, continua a produtora.
Ao mesmo tempo, alguns elementos ajudam a trazer a essência do Recife para dentro dos cenários. Entre eles estão peças escolhidas justamente por seu valor simbólico para a cultura pernambucana, como obras dos artistas Euclides Francisco Amâncio (1912 – 1996), mais conhecido como Bajado, e Wellington Virgolino (1929 – 1988), as cadeiras pernambucanas da mesa de jantar de Dona Sebastiana e a cristaleira da casa de Alexandre, marcada pelo vidro desenhado e pelas pequenas “asinhas” laterais.
Os interiores do escritório de Henrique Ghirotti, interpretado por Luciano Chirolli
Mariana Kinker
Para completar, os cenários também exploram contrastes que ajudam a contar a história. Em alguns ambientes, a decoração é cuidadosa e sentimental — um quadro com a foto da filha, paninhos sob objetos na estante —, detalhes que revelam afeto e memória no cotidiano dos personagens. Em outros espaços, porém, a atmosfera é completamente diferente. No escritório de Henrique Ghirotti (Luciano Chirolli), por exemplo, os móveis são mais modernos e de linhas retas, feitos de jacarandá, couro preto, acrílico e aço. A decoração é pontual, mas assume um tom mais kitsch, com elementos dourados e referências a diferentes lugares do mundo.
Initial plugin text
“Essa composição sugere algo sobre o próprio personagem, funcionando quase como uma extensão de sua postura e dialogando com seu discurso desenvolvimentista. Na minha opinião, essas escolhas pensando na cidade, no período e em quem é cada personagem contribuem muito para essa sensação de teletransporte a esse tempo que está na memória ou para a construção da memória desse tempo para pessoas que não o viveram”, ressalta Marina.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima