Como aplicar conceitos de ESG em escritórios de design, arquitetura e paisagismo

O conceito de ESG — sigla em inglês para Environmental, Social and Governance (Ambiental, Social e Governança, em tradução livre) — tem sido cada vez mais o foco de empresas de diferentes setores da economia, incluindo os escritórios de arquitetura, design e paisagismo.
“O ESG ganhou importância porque demonstra, de forma objetiva, o nível de responsabilidade de uma empresa. Mais do que conceito, funciona como um norte para decisões e práticas que precisam estar alinhadas à realidade do mercado e ao impacto gerado no entorno”, fala Flavio Schiavon, sócio da Baggio Schiavon Arquitetura.
O conceito, cunhado em 2004 pela Organização das Nações Unidas (ONU), engloba um conjunto de critérios para avaliar se uma empresa é ética e socialmente responsável, além de sustentável. O termo abrange práticas que visam diminuir o impacto ambiental, melhorar as relações sociais e garantir transparência na gestão.
A inclusão e equidade de gênero são importantes ações de ESG para escritórios de arquitetura
Freepik/DC Studio/Creative Commons
“O ESG está diretamente ligado ao modo como conduzimos o trabalho e ao que entregamos em cada projeto. Por ser uma atividade altamente colaborativa, esses princípios precisam estar presentes no dia a dia do escritório. É uma visão que reforça a arquitetura como atividade responsável, que participa ativamente da construção de ambientes melhores e mais equilibrados”, aponta Flavio.
Para o arquiteto Alexandre Vicentini, do escritório Benedito Abbud Arquitetura Paisagística, o conceito ESG, quando incorporado corretamente, acaba refletindo essas preocupações no produto do trabalho e nas construções. “Isso se baseia no respeito entre profissionais, entre escritório e cliente, entre proposta, sociedade e meio ambiente”, comenta.
O relacionamento justo com a equipe de trabalho, uma das ações de ESG, consolida os vínculos profissionais
Freepik/gpointstudio/Creative Commons
Esses conceitos podem ser aplicados de inúmeras formas, como no cuidado com o impacto do projeto na vizinhança, na cidade e no meio ambiente; na escolha dos sistemas construtivos; e na definição dos acabamentos de modo racional, otimizando recursos naturais e financeiros.
“Essa atenção ainda deve refletir as ações e atividades internas do escritório, pela responsabilidade jurídica e financeira, pela inclusão e equidade de gênero, respeito às individualidades da equipe”, relata Alexandre.
A incorporação desses valores e práticas resulta em maior assertividade e eficiência, agregando valor ao trabalho. “Quando esses preceitos estão bem enraizados na cultura do escritório, a reputação conquistada é vista pelo mercado como qualidade e solidez, e o respeito e profissionalismo acarreta em maior engajamento e estabilidade da equipe”, diz o arquiteto.
No campo do projeto, os princípios de ESG se manifestam em decisões arquitetônicas de impacto financeiro, ambiental e social
Freepik/DC Studio/Creative Commons
Para a arquiteta e pesquisadora em sustentabilidade Leide Laje, à frente da Laje Sustentabilidade, empresa de soluções em ESG, a aplicação do conceito em diversas áreas virou uma questão de urgência. “Não dá para continuarmos operando como se os problemas não existissem”, destaca.
“Vivemos um modelo de desenvolvimento econômico, principalmente na construção civil, que é insustentável, um modelo que extrai recursos naturais, explora mão de obra precarizada, entrega edificações que não dialogam com o entorno, que consomem muita água e energia, como se fossem recursos infinitos”, analisa a especialista.
Parceiros estratégicos alinhados
A mesma opinião é compartilhada pelos arquitetos Paula Morais e Rogerio Shibata, do Estúdio Convexo Arquitetura. Para eles, o debate sobre ESG surge como resposta a uma demanda da sociedade por condutas que ultrapassem a lógica exclusivamente econômica.
“Há uma percepção clara de que os modelos tradicionais de produção e crescimento estão em crise e que a responsabilidade ambiental e social não pode mais ser delegada apenas ao Estado. Empresas, escritórios e profissionais precisam assumir parte desse compromisso”, afirma Paula.
A incorporação do ESG no escritório começa dentro do próprio ambiente de trabalho
Freepik/mindandi/Creative Commons
Como a arquitetura, o design e o paisagismo são atividades que não se realizam de forma individual, eles têm forte papel social, ambiental e econômico. As escolhas conscientes neste campo impactam toda a cadeia de trabalho, que engloba projetistas, fornecedores, construtores, incorporadores e consumidores.
“O projeto de arquitetura representa em torno de 20% do resultado de uma construção ao estabelecer diretrizes claras de implantação, como materiais e processos. Os arquitetos direcionam e atuam como referência técnica para todos os demais players e decisões tomadas ao longo da obra”, aponta Rogerio.
Aplicar ESG em escritórios de arquitetura significa integrar práticas ambientais, sociais e de governança ao dia a dia do negócio e aos projetos desenvolvidos
Freepik/Creative Commons
De acordo com a Alexandre, acaba sendo natural que escritórios focados em ESG busquem parceiros alinhados a esses critérios, o que amplifica a ação do conceito para além da parte arquitetônica de um projeto.
“Os ganhos são perceptíveis em múltiplas áreas pela agilidade, eficiência e assertividade conquistados após a incorporação da agenda ESG. A curva de aprendizado contínua abre portas para inovações por meio de novos conceitos aplicados e pela utilização de novas ferramentas. A inovação junto com o respeito e profissionalismo engajam a equipe, refletindo em um produto mais qualificado”, argumenta.
Ambiente de trabalho saudável
Para Paula e Rogerio, a incorporação do ESG nos escritórios começa dentro do próprio ambiente de trabalho. No caso do Estúdio Convexo Arquitetura, isso se refletiu, por exemplo, na escolha de um edifício antigo em Curitiba, PR, como sede.
“A localização central também faz parte dessa lógica: menos deslocamentos, mais atividades a pé, menos tempo no trânsito e menor impacto ambiental. São decisões pequenas, mas que reverberam no coletivo”, analisa Paula. “O funcionamento de um escritório gera impacto, e isso também precisa ser pensado”, complementa Leide.
No conceito ambiental do ESG, as premissas que podem ser aplicadas são: incentivar telhados verdes, jardins verticais e integração com vegetação; e priorizar madeira certificada, tintas atóxicas, reciclados e fornecedores com baixo impacto ambiental
Freepik/Creative Commons
Essa postura deve se estender a forma como o escritório se organiza internamente. “A equipe participa, aparece e assume responsabilidades. Há liderança, mas há também compartilhamento e espaço para o coletivo”, reflete Rogerio.
Na área de projetos, os princípios de ESG se manifestam na ética técnica. “Um projeto bem resolvido reduz retrabalho, desperdício de material, consumo excessivo de recursos e impactos futuros. A economia gerada por decisões arquitetônicas consistentes não é apenas financeira, é ambiental e social”, acrescenta o especialista.
Em um escritório com foco em ESG, a responsabilidade social deve estar presente, promovendo a diversidade e a inclusão. “Há sensibilidade para temas como imigração, oportunidades e formação profissional, entendendo que o impacto social começa nas escolhas cotidianas e nas relações estabelecidas”, diz Rogerio.
“Aplicar esses conceitos no dia a dia fortalece a competitividade do escritório, atrai profissionais alinhados a esses valores e constrói uma reputação baseada em coerência”, completa o arquiteto.
Adotar políticas de contratação que valorizem diferentes perfis e promovam equidade; desenvolver projetos que dialoguem com o entorno, respeitando cultura local e promovendo acessibilidade; e criar ambientes internos saudáveis, com ergonomia, iluminação adequada e áreas de descanso são essenciais no ESG
Freepik/Creative Commons
Para Alexandre, o relacionamento justo com a equipe consolida os vínculos profissionais, o que reflete na maior qualificação da produção do escritório, em um processo que se retroalimenta.
“Por mais que exista flexibilidade em cada projeto, tudo começa com processos de desenvolvimento bem definidos, clareza na comunicação com a equipe de projeto e cliente, entendimento do local de implantação com propostas que se relacionem e respeitem o entorno e os vizinhos”, pontua o profissional.
ESG na prática
Na avaliação de Leide, a vantagem do ESG é que o modelo dialoga com o mercado, avaliando, além das questões ambientais, os impacto sociais e de governança dos escritórios. Para aplicá-lo na prática, é preciso entender que os seus conceitos devem permear todas as etapas e processos do escritório.
“Deve estar em cada decisão do escritório, desde a contratação de equipe até a especificação de um revestimento. Não dá para tratar como se fosse um departamento isolado, pois está em todo o processo de trabalho, inclusive no ambiente interno do próprio escritório, refletindo a diversidade que tem na sociedade”, ela afirma.
Seguir normas técnicas e legislações ambientais e trabalhistas é imprescindível no conceito de ESG
Freepik/Creative Commons
Antes de projetar, é preciso entender o impacto que as escolhas vão gerar. Por isso, cada etapa de projeto precisa ter um check-list ESG obrigatório, bem especificado e alinhado com toda a equipe, assim como os processos internos de funcionamento do escritório.
“Isso faz com que o conceito esteja presente no dia a dia, oferecendo estratégias de redução de impacto ambiental e social”, detalha Leide.
Segundo a especialista, a melhor forma de implementar as práticas de ESG em um escritório de arquitetura é seguir a ABNT PR 2030 (Prática Recomendada 2030), lançada em 2022.
“Essa norma oferece um guia para empresas de diversas frentes entenderem quais são os princípios ESG e os aplicarem internamente. Ela é muito bem escrita, e acho que seria o primeiro instrumento para quem deseja implementar essas estratégias dentro do seu escritório”, ela fala.
Aplicar ESG em escritórios de arquitetura vai além dos projetos: é sobre gestão interna, impacto social e inovação ambiental
Freepik/Creative Commons
O resultado é uma mudança na cultura do escritório, não só na forma de projetar, mas no diálogo com com os clientes e outros players do processo de construção. “Isso acaba sendo refletido tanto nos processos internos quanto nos projetos”, comenta Leide.
“Então o escritório monitora a sua própria pegada de carbono, tem uma política de escolher fornecedores locais, analisa os ciclos de vida e o descarte de materiais, oferece condições dignas de trabalho. Os projetos dialogam com o clima local e com o entorno, não são soluções genéricas, pensadas pelo ponto de vista estético”, acrescenta a especialista.
O diálogo com a cadeia de fornecimento também se faz necessário neste processo. “É muito importante entender de onde vem as matéria-primas que são especificadas e as condições de trabalho das pessoas que fabricam esses materiais, assim como as estratégias de redução de impacto e de sustentabilidade desses fornecedores”, orienta Leide.
No ambiente de trabalho, além da diversidade, é importante cuidar das pessoas que estão trabalhando, oferecendo condições dignas de trabalho, jornadas sustentáveis, remuneração justa, plano de carreira transparente e apoio à saúde mental das pessoas. “É um ambiente de trabalho que entende que não existe projeto sustentável se for produzido por uma equipe esgotada e mal remunerada”, frisa a especialista.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima