Como o design impulsiona a criação de talheres e utensílios com acessibilidade

O design acessível está se tornando uma preocupação para a indústria global de cozinha e mesa posta. Isso se traduz em utensílios do dia a dia que oferecem autonomia, segurança e prazer ao cozinhar ou comer, como talheres com cabos emborrachados, abridores ergonômicos e medidores com marcações em braile.
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Na Alemanha, por exemplo, a Universidade de Ciências Aplicadas de Niederrhein tem o projeto transdisciplinar Tabletop & Textile, que reúne estudantes de Tecnologia Têxtil, Vestuário e Design. Nele, um dos trabalhos desenvolvidos pelos alunos Leon Böckling e Johanna Reichardt foi uma linha de roupas de mesa com estruturas táteis, pensada para orientar pessoas cegas e com deficiência visual e facilitar a experiência coletiva de sentar e se alimentar.
O desenvolvimento de uma linha de mesa tátil voltada para pessoas com deficiência visual, como toalhas com relevos e guardanapos que imitam o contorno dos pratos, integra os projetos interdisciplinares Tabletop & Textile, da Universidade de Ciências Aplicadas de Niederrhein, na Alemanha
Fachbereich Design – Hochschule Nierderhein/Divulgação
Outro exemplo é o HAK Studio, escritório de design polonês que lançou a coleção Uma, inspirada em estudos de gastrofísica — área da neurociência que analisa como estímulos sensoriais influenciam a percepção do sabor.
O escritório polonês Hak Studio desenvolveu um prato de porcelana com um padrão espiralado que remete a balas, e o acabamento em esmalte de alto brilho imita chocolate derretido, intensificando as experiências visuais e táteis ligadas à doçura
Hak Studio/Divulgação
A série inclui um prato de porcelana espiralado para sobremesas e uma tigela de textura áspera, sem esmalte, destinada a alimentos salgados. O projeto foi criado para auxiliar pessoas com sensibilidade gustativa reduzida, como idosos ou pacientes que perderam o paladar após a COVID-19.
A tigela para pratos salgados faz parte da coleção de utensílios de mesa UMA, da Hak Studio, projetada especificamente para intensificar a percepção do sabor por meio de estímulos visuais e táteis, visando auxiliar pessoas com distúrbios de paladar
Hak Studio/Divulgação
No Brasil, a Mercur desenvolve soluções acessíveis como engrossadores de talheres, que aumentam a espessura de garfos, facas e colheres para facilitar o manuseio por pessoas com dificuldade de preensão. Outro destaque é o fixador em tira, faixa de silicone que auxilia na sustentação de diferentes objetos, inclusive os de mesa, promovendo maior autonomia. Os produtos foram co-criados em parceria com pessoas com deficiência, familiares, profissionais de saúde e educação, além de designers.
Utensílios de mesa adaptados, como os da Zdcdy, promovem segurança e autonomia para pessoas com deficiência ou problemas de mobilidade reduzida, ajudando na inclusão e na qualidade de vida
Zdcdy/Divulgação
Há, ainda, a linha de talheres ForAll, resultado de um trabalho conjunto da Tramontina com o escritório ZON Design e a Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA). Os itens possuem cabos mais espessos, pesados e texturizados, além de colheres e garfos com bojo mais profundo, facilitando o manuseio por pessoas com limitações motoras.
Os talheres ForAll da Tramontina são projetados para serem usados por todos, especialmente por pessoas com dificuldade de movimento ou tremores, pois possuem cabos mais robustos, ergonômicos e com textura antiderrapante para garantir mais firmeza
Tramontina/Divulgação
A importância da acessibilidade na cozinha
A cozinha doméstica, como espaço de convivência e alimentação, deve atender quem enfrenta desafios em tarefas simples que exigem coordenação, força ou alcance — como cortar, medir e segurar objetos. Antes de discutir os desafios, é fundamental enfatizar que tudo começa na mudança de mentalidade.
“O design inclusivo exige empatia e escuta atenta — entender diferentes formas de uso e necessidades reais. Projetar bem passa a significar projetar para todos, colocando o usuário no centro do processo e permitindo que suas experiências orientem as decisões de design”, diz Marcos Grespan, diretor comercial da Tramontina.
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Assim, a transição do design padrão para o design inclusivo enfrenta questões, como preservar a estética e a funcionalidade naturais de um utensílio comum, que se integra à mesa de qualquer pessoa. “O desafio é criar um produto altamente funcional, sem ele parecer um equipamento médico. Muitos utensílios assistivos acabam sendo estigmatizantes”, fala Marcos.
“As principais barreiras ainda são o custo de produção em pequena escala, a falta de políticas públicas de incentivo e a desinformação sobre o que é tecnologia assistiva. Muitos consumidores e até empresas desconhecem o potencial e a aplicabilidade dessas soluções. Ainda assim, vemos um movimento crescente de abertura — especialmente com o avanço das discussões sobre diversidade, acessibilidade digital e ESG”, coloca Nathalia Petenussi, CMO da Colibri Interfaces e Tecnologia, empresa que desenvolve equipamentos de informática acessíveis.
A coleção Blind Spot, desenvolvida no projeto Tabletop & Textile, combina superfícies elevadas, linhas táteis e destaque em cores facilitam que pessoas cegas ou com deficiência visual se orientem à mesa e manuseiem utensílios e tecidos
Justin Wendel/Divulgação
Além de promover independência e segurança, produtos inclusivos reduzem a necessidade de assistência constante e tornam o cotidiano mais leve. “Quando o consumidor entende que o design inclusivo beneficia a todos, e não apenas pessoas com deficiência, o mercado se amplia”, reflete Marcos.
Breve história da acessibilidade na cozinha
O desenvolvimento de soluções para pessoas com deficiência ganhou força a partir do século 20, com os serviços de reintegração física e profissional, no contexto da Revolução Industrial e do pós-guerra. A necessidade de reabilitação de veteranos de batalha que sofreram lesões, amputações ou paralisias levou a criação de utensílios para simplificar as atividades diárias. Após esse período, surgiram soluções de nicho, como:
Cabos ergonômicos e antiderrapantes: descascadores de legumes, abridores de potes com alavancas ou torcedores de fácil encaixe e talheres angulados ou com alças, eliminando a necessidade de força excessiva e torção, beneficiando idosos e pessoas com mobilidade reduzida nas mãos.
Apoios e fixações: tábuas de corte com ventosas ou hastes laterais de fixação. Essa invenção permite que pessoas com o uso de apenas uma das mãos possam fatiar e ralar alimentos com segurança e estabilidade.
Louças com bordas: pratos e tigelas com bordas elevadas ou invertidas para facilitar o empurrar dos alimentos para o garfo/colher, muito útil para quem usa apenas uma mão (seja permanentemente ou por uma lesão temporária).
Contraste e tátil: utensílios de medição com marcações em relevo e alto contraste de cores auxiliam pessoas com baixa visão, permitindo a autonomia no preparo de receitas. Outra simples mudança é a aplicação de texturas táteis para diferenciar embalagens de produtos similares.
Bases antiderrapantes: copos e tigelas com ventosas ou bases emborrachadas para evitar derramamentos.
A industrialização e a consequente produção em massa, juntamente com a introdução de materiais como aço inoxidável e alumínio, foram importantes para a popularização de diversos itens, incluindo talheres e, em paralelo, a diversificação de acessórios de tecnologia assistiva.
A oferta desses produtos como itens de consumo é relativamente recente e está ligada ao conceito de Desenho Universal, criado em 1987 pelo arquiteto estadunidense Ronald Mace. A filosofia propõe desenvolver produtos e ambientes intuitivos e fáceis de usar para a maior diversidade possível de habilidades, idades e condições, incorporando características ergonômicas em soluções convencionais.
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O termo “design inclusivo” surgiu mais tarde, a partir de conceitos anteriores. É visto como uma evolução ou um campo mais amplo, que considera a diversidade humana de maneira mais aprofundada. A partir dos anos 1990, o movimento ganhou importância, sendo impulsionado por mudanças sociais e legislações de acessibilidade.
“O design inclusivo é uma abordagem que busca criar produtos, ambientes e serviços que possam ser utilizados pelo maior número possível de pessoas — independentemente de idade, habilidade ou condições. É uma forma de pensar o design desde o início com a diversidade humana em mente”, explica Nathalia. “O cenário está evoluindo Há uma consciência crescente sobre inclusão, mas ainda há um longo caminho até que produtos assistivos sejam vistos como tecnologia de uso comum, e não apenas como equipamentos médicos.”

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