Conheça a Casa de Iemanjá, que reúne oferendas à orixá em Salvador, BA

Às margens da praia do Rio Vermelho, em Salvador, BA, a Casa de Iemanjá recebe inúmeras oferendas para homenagear a orixá; em especial no dia 2 de fevereiro, quando é comemorado o Dia de Iemanjá. A data concentra ações religiosas em diferentes endereços da cidade, mas é nessa casa histórica que os presentes são ofertados e depois entregues por pescadores para Iemanjá.
Ao fundo da praia do Rio Vermelho, a pequena Casa de Iemanjá cercada de devotos da orixá
Jcornelius/Wikimedia Commons
Em fevereiro, ao lado da Casa de Iemanjá é construído um caramanchão para abrigar todos os presentes recebidos durante o dia. “É uma estrutura de madeira com folhas de palmeira para receber os milhares de devotos que levam flores, perfumes, sabonetes e outros presentes”, conta Vagner Rocha, diretor de patrimônio da Fundação Gregório de Mattos (FGM). No final da tarde, por volta das 16 horas, os pescadores organizam um barco que leva as oferendas em um cortejo pelo mar.
Mas a Casa, que hoje é símbolo da religiosidade afro-brasileira, nasceu como uma Casa de Peso, onde os pescadores podiam pesar e vender suas pescas. “Foi da devoção dos pescadores do Rio Vermelho à orixá que governa o mar que a casa se transformou em um pequeno santuário”, conta Roberto Pantaleão, que faz parte da Colônia de Pescadores Z1 – responsável pelo cuidado diário do local.
O exterior da Casa de Iemanjá é adornado com mosaico do artista Ed Ribeiro, inaugurado em 2008
GettyImages
Segundo um Dossiê da Festa de Iemanjá, a Casa do Peso começou a ser reconhecida como santuário em homenagem a Iemanjá em 1969, ainda que a festa dedicada à Iemanjá pelos pescadores seja datada de 1920. “Quando eu comecei a pescar na Z1, na década de 70, o espaço dedicado à Iemanjá era um cômodo anexo à Casa do Peso, metade do espaço atual”, lembra Roberto. Hoje, o santuário à Iemanjá já ocupa todo o espaço, com boxes nas proximidades, onde são realizadas a pesagem e a comercialização dos peixes.
Em uma estrutura que lembra o formato de concha, as pessoas podem deixar suas oferendas à Iemanjá
Paul R. Burley/Wikimedia Commons
No início da década de 1970, a Casa de Iemanjá passou a ser decorada com a participação da população, com a adição de esculturas e pinturas ao longo dos anos. “Boa parte foi feita pelos artistas locais. A parte interna é bem bonita, porque você vê várias imagens de Iemanjá e azulejos, que dão um toque artesanal”, analisa Betth Garcia, arquiteta formada pela Universidade Federal da Bahia (UFBA).
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Em 1971, uma das primeiras esculturas passou a ocupar a frente da Casa de Iemanjá. Trata-se de uma escultura em gesso da orixá, do escultor, pintor, ceramista e tapeceiro Manuel Bonfim (1928-2016). “Fica em frente à Casa e na época foi uma arte polêmica, porque os traços dela são de uma mulher negra. Eu acredito que Manuel foi à frente do tempo, mostrando que realmente não tem como o orixá ser branco se ele nasceu na África”, aponta Betth.
A escultura de Manuel Bonfim fica em frente à Casa de Iemanjá, em Salvador, BA
Paul R. Burley/Wikimedia Commons
Novas artes continuaram a integrar a Casa de Iemanjá, como o mosaico do artista Ed Ribeiro, inaugurado em 2008. O artista conta que ofereceu a obra aos pescadores, que aceitaram o presente. “Foi uma iniciativa pessoal que ofereci guiado pelos orixás”, diz.
A confecção do mosaico que contorna a casa levou cerca de três meses. “Na parte da frente, há uma homenagem a Iemanjá; na lateral direita, aos pescadores, com canoas e peixes; e na lateral esquerda, aos vendedores de peixe”, detalha Ed. “Depois que eu coloquei a primeira pedra, as bençãos apareceram na minha vida”, revela o artista.
Ed Ribeiro, conhecido como pintor dos orixás, em frente ao seu mosaico para a Casa de Iemanjá
Ed Ribeiro/Divulgação
Em 2020, a Festa de Iemanjá foi reconhecida como patrimônio imaterial municipal, e a Casa é considerada uma edificação que dá suporte ao evento. Porém, enquanto as artes foram feitas por artistas locais, não é possível precisar quem projetou a arquitetura do local. A estrutura é considerada simples, feita para atender as necessidades dos pescadores.
“O casebre fica em um platô, depois vem todas as pedras da praia e uma escada que dá acesso à Praia Vermelha”, diz Betth. “É uma casa pequena, com paredes de alvenaria, telhado, algumas janelas e portas, e que serve de visitação”, complementa Vagner.
A casa de Iemanjá é pequena e apresentar uma arquitetura de linhas simples e retas
GettyImages
A manutenção diária da casa é feita pela Colônia de Pescadores Z1. Em eventuais intervenções de estruturas, os pescadores contam com a Fundação Gregório de Mattos, que faz parte da Secretaria de Cultura e Turismo de Salvador.
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Não há dados de quantas pessoas visitam a Casa por ano, mas estima-se que só no dia 2 de fevereiro milhares passem por lá. “Devido à dimensão alcançada pela devoção à Iemanjá e pela divulgação nacional e internacional, a Casa de Iemanjá já é uma referência turística em Salvador, com um fluxo diário de visitantes o ano todo”, diz Roberto.
Altar em homenagem a Iemanjá recebe diversas representações da orixá
Paul R. Burley/Wikimedia Commons
O local também é um dos poucos que edifica as religiões do Candomblé e Umbanda. “Existem poucos santuários fora dos terreiros. Nesse sentido, a Casa é única. É uma edificação que realmente simboliza um orixá”, analisa Betth.

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