Conheça a curiosa história do parque em SP que já abrigou observatório

Entre as ruas do bairro de Higienópolis, na região central de São Paulo, o Parque Buenos Aires combina história urbana, arte e natureza. Criado no início do século 20, o espaço atravessou diferentes fases da cidade. Ao longo de mais de 100 anos, foi mirante, observatório astronômico, palco de intervenções paisagísticas, recebeu esculturas emblemáticas e passou por mudanças, urbanísticas e administrativas que atualizaram sua relação com o cotidiano do bairro.
A origem do Parque Buenos Aires
O terreno, que deu origem ao que hoje se conhece por Parque Buenos Aires, foi desapropriado pela Prefeitura de São Paulo em 1912. As obras e a inauguração da futura área verde aconteceram em 1913, quando a praça foi oficialmente aberta ao público.
Sua criação foi mencionada no relatório do urbanista francês Joseph Antoine Bouvard, publicado em 1911, que propunha a remodelação da área central da cidade. Além de Bouvard, a proposta contava com a participação do paisagista francês Gérard Cochet.
O Parque Buenos Aires inicialmente foi chamado de Praça Higienópolis e tinha o seu projeto paisagístico inspirado no estilo inglês
SVMA/Daniel Reis/Reprodução
O plano previa grandes parques, como Anhangabaú e Várzea do Carmo, articulados a jardins menores, entre eles o futuro espaço no Higienópolis. O desenho específico da área foi elaborado pelo engenheiro-arquiteto Heribaldo Siciliano.
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Originalmente, o atual parque foi chamado de Praça Higienópolis. No entanto, no mesmo ano, foi renomeada como Praça Buenos Aires.
O parque Buenos Aires é uma das poucas áreas verdes que permanecem em funcionamento no bairro do Higienópolis
SVMA/Daniel Reis/Reprodução
Há duas possíveis explicações para isso. “Uma das versões da história afirma que o nome da praça deriva do fato de Bouvard já ter realizado outro projeto urbanístico na capital argentina, Buenos Aires. Já uma segunda versão aponta que o nome vem da localização do bairro que, longe das várzeas, era visto como um local que oferecia um clima salubre com um ar agradável”, conta André Pompeu, pesquisador e guia de caminhadas culturais pelos bairros de São Paulo.
Os detalhes do projeto da Praça Buenos Aires
Ainda que não haja registros da planta original do projeto, sabe-se que desde o início era prevista a ocupação de toda a quadra entre as avenidas Angélica, Rua Bahia, Rua Alagoas e Rua Piauí.
“A praça foi criada para reproduzir aqui um jardim público do estilo à inglesa, com traços orgânicos, caminhos sinuosos e a busca por composição de vegetação que representasse maior naturalidade”, afirma o professor Matheus Vasconcelos, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie.
Em meio a vegetação de característica árborea e rasteira do Parque Buenos Aires, esculturas pontuais compõem a área verde no bairro do Higienópolis, em São Paulo
SVMA/Daniel Reis/Reprodução
A composição privilegiava o passeio contemplativo. “Não há criação de grandes eixos, como ocorreu com o Parque da Independência, mas a intenção é criar oportunidades de um caminho que se desvela aos poucos e abre espaço para surpresas”, explica Matheus.
“A praça dialogava com o entorno por contraste: ao contrário do traçado geométrico de tabuleiro de xadrez das ruas, as alamedas do parque apresentam linhas sinuosas que remetem às formas da natureza”, complementa André.
Na vegetação da área, predominam espécies rasteiras. Uma exceção é a falsa-seringueira (Ficus elastica), também conhecida como árvore-da-borracha, que se destaca na praça pelas grandes dimensões.
O chafariz do parque Buenos Aires conta com a obra Anfitrite e Tritão, feita de cobre
Mike Peel/Wikimedia Commons
Ainda que não haja uma estrutura de lago, como em outros parques e praças públicas do período, a área abriga um chafariz. A estrutura é coroada com a obra de arte “Anfitrite e Tritão”.
O antigo observatório da Praça Buenos Aires
Na parte mais alta da praça, Bouvard previu um mirante para a cidade, em função da vista privilegiada. O mirante logo foi demolido para a construção de um dos primeiros observatórios astronômicos paulistanos e um dos substitutos do antigo observatório da avenida Paulista, desativado em 1936.
O equipamento integrava a estrutura de ensino da Escola Politécnica (Poli), hoje parte da Universidade de São Paulo (USP). Entre 1913 e 1964, o espaço era onde se lecionava um conjunto de disciplinas técnicas de engenharia, como topografia, geodésia e astronomia de posição.
O nome Buenos Aires pode tanto ter tido influência de um projeto feito na capital argentina por Bouvard, quanto pela característica do clima da região de Higienópolis naquela época. Fotografia da praça Buenos Aires em 1928 mostra a estrutura original da área verde
Domínio Público
O docente responsável era o catedrático Lúcio Martins Rodrigues, que também foi diretor da Poli e reitor da USP. “Era um professor competente e defensor da importância das aulas práticas”, explica o professor Jorge Pimentel Cintra, professor da Poli-USP e do Museu Paulista, especialista em História da Cartografia, Mapas e Territórios e Caminhos do Brasil.
Essa defesa se traduzia na ocupação da própria cidade como espaço pedagógico. “As práticas de topografia ocorriam no vale do rio Pacaembu, onde hoje se situa o estádio, enquanto as aulas práticas de astronomia ocorriam nesse observatório montado por ele”, conta Jorge.
Os instrumentos utilizados no observatório tinham origem no século XIX. Foram reaproveitados aparelhos astronômicos como as lunetas doadas pelo general José Vieira Couto de Magalhães, presidente da Província de Goiás, que havia fundado o primeiro observatório astronômico da Província de São Paulo, junto à Ponte Grande, no Rio Tietê, ao lado de sua residência.
Com o avanço da verticalização de Higienópolis e o aumento da iluminação artificial na região, o observatório perdeu funcionalidade e foi desativado em 1964. Após a desativação, alguns equipamentos foram transferidos para o Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG), na época localizado no bairro da Água Funda, nas proximidades do Zoológico de São Paulo. Com o passar do tempo, acabaram se deteriorando.
A escultura Mãe, de Caetano Fraccarolli, no local onde inicialmente foi instalado o mirante e o observatório do Parque Buenos Aires
SVMA/Daniel Reis/Reprodução
Transformações, tombamento e permanência do parque
Além da desativação do observatório, ao longo das décadas, o espaço passou por algumas outras alterações, incluindo a redução de sua área para a instalação da EMEI Monteiro Lobato, na década de 50.
Em 1987, o espaço foi oficialmente transformado em parque. Essa mudança derivou da necessidade de adequação da nomenclatura ao estado dessa área verde. “O parque consiste em uma evolução dos jardins públicos, mais vegetados e voltados ao contato com a natureza. Já a praça está mais voltada aos usos coletivos, sendo resultado da circulação de seu entorno, com desejável arborização”, explica Matheus.
A atribuição do termo praça não era mais adequada dentro de seu sentido histórico. Assim, unido à pressão pelo gradeamento da área e de que o DEPAVE (Departamento de Parques e Áreas Verdes) — órgão da Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente (SVMA) da Prefeitura de São Paulo — fosse o responsável pela manutenção do espaço, a área torna-se oficialmente Parque Buenos Aires.
A obra Emigrantes, de Lasar Segall, foi uma das esculturas inseridas com o passar dos anos no Parque Buenos Aires
Mike Peel/Wikimedia Commons
Nos anos 1990, duas ações importantes impactam a história do parque. A primeira delas é o tombamento municipal e estadual, em 1992, que garantiu a preservação do traçado orgânico e do dossel arbóreo. “O tombamento da paisagem é um recurso para assegurar a manutenção das características existentes diante de possíveis transformações futuras”, explica Matheus.
Já em 1999, uma revitalização paisagística buscou recuperar parte de suas características originais. “No contexto de um projeto de recuperação patrocinado pelos proprietários do Shopping Pátio Higienópolis, como compensação ambiental e para causar boa impressão nos moradores do bairro sobre o empreendimento comercial, foi contratada a paisagista Miranda M. Magnoli para revitalizar o lugar”, comenta André.
Duas esculturas, “Leão lutando com uma serpente” e “Veado lutando com três tigres”, produzidas nas Fonderies d’art du Val d’Osne, fundição francesa, foram instaladas na praça para a reinauguração.
O parque Buenos Aires hoje conta com uma estrutura de brinquedos e aparelhos de exercício físico para receber público de diferentes idades
SVMA/Daniel Reis/Reprodução
Hoje, cercado por edifícios residenciais e pela intensa dinâmica urbana do bairro, o parque permanece como área pública de lazer. “O Parque Buenos Aires é uma das principais áreas públicas de lazer de Higienópolis. Frequentado por famílias, crianças, praticantes de atividades físicas e tutores de cães, cumpre papel fundamental em um bairro cada vez mais verticalizado”, salienta Matheus.
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Na visão de André, o parque hoje é uma espécie de refúgio de tranquilidade em meio ao contexto que a cidade vive. “Com uma grande quantidade de empreendimentos imobiliários que não dialogam com seu entorno e o desaparecimento dos casarões e seus jardins, o parque também é um símbolo de resistência desse bairro, com uma das poucas áreas verdes que permanecem na região”, reflete o guia.

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