Concebida como equipamento cultural voltado à democratização do acesso ao conhecimento, a Biblioteca Mário de Andrade completou 100 anos de inauguração em janeiro de 2026. Localizada inicialmente na Rua 7 de Abril, a instituição nasceu a partir do acervo da Câmara Municipal de São Paulo.
Em 1935, iniciou-se a transferência para o edifício atual, também no centro da capital, onde se consolidou como um dos mais importantes espaços culturais da cidade.
Com um acervo superior a 3,3 milhões de itens, abriga coleções de obras raras, mapas, periódicos, multimeios e um dos mais significativos acervos de artes do Brasil. Além disso, desempenha o papel de biblioteca depositária das Nações Unidas, reforçando sua relevância internacional.
A Biblioteca Mário de Andrade foi a primeira da cidade de São Paulo, além de ser a segunda maior do país
Adriel Marcos/Wikimedia Commons
A idealização da biblioteca e a construção na Rua 7 de Abril
Inicialmente chamada de Biblioteca Municipal de São Paulo, a instituição foi proposta pelo Departamento de Cultura da cidade, dirigido pelo escritor Mário de Andrade. Instalou-se no Edifício Guilherme Guinle, projetado pelo arquiteto francês Jacques Pilon — autor de mais de 60 prédios na região central — que também abrigava a sede do jornal Diários Associados.
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O acervo foi crescendo continuamente. “A ampliação, entre outros fatores, pela incorporação da Biblioteca Pública do Estado, tornou necessária a construção de um edifício capaz de atender a novas demandas funcionais e simbólicas”, explica Luiza Thesin, diretora da biblioteca.
Mudança para o novo edifício
Durante a gestão do prefeito Fábio Prado, entre 1934 e 1938, o arquiteto Jacques Pilon foi contratado e, em parceria com Francisco Matarazzo, iniciou em 1935 as obras do novo projeto. Localizada no centro da Praça Dom José Gaspar, com conexões à Rua da Consolação e à Avenida São Luís, a construção simbolizou o movimento de integração da biblioteca ao coração da cidade em um período de intenso crescimento urbano.
Fotografia de Benedito Junqueira Duarte, datada de outubro de 1939, registra a construção da Biblioteca Mário de Andrade
Acervo Biblioteca Mário de Andrade/Benedito Junqueira Duarte/Reprodução
Um colaborador fundamental foi o bibliófilo Rubens Borba de Moraes, que assumiu a direção da biblioteca municipal em 1935. Ele viajava à Europa para adquirir livros e gravuras da brasiliana dispersos, ampliando e qualificando o acervo da instituição.
“Extremamente culto, foi um dos responsáveis por chamar o arquiteto francês para elaborar o projeto do edifício”, relata Cândido Malta Campos Neto, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da Universidade Presbiteriana Mackenzie.
A seção de livros raros já integrava o acervo da Biblioteca Mário de Andrade na década de 1950
Acervo Biblioteca Mário de Andrade/Gabriel Zellaui/Reprodução
“É um edifício nitidamente inserido no processo de verticalização da cidade. Nessa época, já tínhamos o Martinelli, o Sampaio Moreira, mas que se diferem por não serem públicos, institucionais e do setor da cultura”, comenta Renata Semin, arquiteta e urbanista, sócia-fundadora do escritório Piratininga Arquitetos Associados.
“Entre 1935 e 1938, é fundamental entender a figura de Mário à frente do Departamento de Cultura, com iniciativas ambiciosas e inéditas, com incursões em várias áreas, como os Parques Infantis, a Orquestra Municipal, pesquisas em diversos campos e, crucialmente, a criação de bibliotecas”, complementa Cândido.
Os grandes volumes da biblioteca são um ponto significativo do projeto original e se mantêm até hoje na estrutura
Biblioteca Mário de Andrade/Divulgação
Estrutura da Biblioteca Mário de Andrade
O prédio foi projetado com uma estrutura robusta e compatível com a tipologia e o tamanho do acervo. “A construção é marcada por volumetria de formas regulares e modulares, configurando salões de grandes dimensões e geometrias claras, onde retângulos e círculos se articulam harmoniosamente”, explica Renata.
Um aspecto marcante do projeto de Jacques Pilon é o pé-direito mais baixo dos andares. A proposta buscava compatibilizar a altura de cada pavimento com as dimensões das estantes, garantindo acessibilidade e conforto no uso pelos bibliotecários.
O projeto tem um estilo moderno alinhado ao contexto vivenciado durante o crescimento de São Paulo e sua constituição como metrópole
Acervo Piratininga Arquitetos Associados/Maíra Acayaba/Reprodução
Quanto à sua linguagem arquitetônica, o edifício segue uma proposta alinhada ao movimento moderno, marcado pela chegada de profissionais imigrantes e estrangeiros no período entre guerras e pela introdução de técnicas construtivas europeias do século 20. “Com influências do art déco, o projeto traduziu-se em espaços destinados à leitura, à guarda e à conservação do acervo, além de salas para pesquisas, cursos e um auditório”, fala Luiza.
Sua posição estratégica no centro da Praça Dom José Gaspar, permeada por acessos e conexões com avenidas que se consolidavam como importantes na época, reforça o ideal de integração da biblioteca ao coração da capital paulista.
A biblioteca foi colocada no centro da Praça Dom José Gaspar e se conecta com os edifícios, equipamentos culturais e a população em seu entorno pela própria construção quanto pelo seu jardim
Acervo Piratininga Arquitetos Associados/Reprodução
“Os terraços previstos no projeto do edifício principal expressam uma concepção moderna de prédio público, atenta à relação entre interior e exterior e à presença do imóvel na paisagem urbana”, complementa a diretora da instituição.
Transformações com o passar do tempo
O complexo recebeu diversas intervenções ao longo de sua história. Em 1960, passou a se chamar oficialmente Biblioteca Mário de Andrade, em homenagem ao escritor e diretor que idealizou o espaço e deixou um legado marcante para a cultura brasileira.
Os anos de 1973 e 1991 marcaram reformas estruturais significativas, que adequaram os ambientes às demandas de cada período. Logo após a última intervenção, finalizada em 1992, a biblioteca foi tombada pelo Conselho Municipal de Preservação (Conpresp).
A reforma mais significativa da Biblioteca teve início em 2005. O uso de placas metálicas com coloração diferenciada foi a solução adotada para evidenciar o processo de modificação realizado no edifício
Acervo Piratininga Arquitetos Associados/Maíra Acayaba/Reprodução
Restauro e renovação para atender demandas contemporâneas
Entre 2005 e 2010, ocorreu a restauração do prédio e do mobiliário, além da higienização e reorganização do acervo. A intervenção foi conduzida pelo escritório Piratininga Associados.
A equipe do escritório identificou deficiências construtivas, infiltrações causadas por trincas, instalações obsoletas, ausência de climatização controlada e falta de condições de acessibilidade universal. “A biblioteca precisava se renovar para não só recuperar sua condição física e estrutural, como também sua função pública, que vai muito além de um local de passagem”, destaca Renata.
Uma das etapas fundamentais da reforma da biblioteca foi a recuperação das condições estruturais e essenciais para garantir o acondicionamento adequado do acervo
Acervo Piratininga Arquitetos Associados/Maíra Acayaba/Reprodução
As obras ocorreram em duas etapas. A primeira envolveu a recuperação estrutural e das instalações, a implantação de climatização controlada, o restauro do mobiliário original, a criação de novos ambientes de estudo e a reconfiguração da Coleção Biblioteca Circulante — trata-se de um conjunto, criado em 1944, que engloba livros de especialidades, como arte, ciências humanas e literatura —, em paralelo ao processo de higienização do acervo.
A Coleção Circulante disponibiliza itens para empréstimo domiciliar ou consulta local e foi reaberta em 2010 com novo espaço, acervo atualizado e informatizado
Acervo Biblioteca Mário de Andrade/Cedida por Piratininga Arquitetos Associados
Ainda nesta fase, houve a renovação da fachada — mudando de cinza (tonalidade adotada na reforma de 1991) para branco (cor do projeto original) — e a recuperação da sala de leitura. “A reforma anterior danificou a cobertura original com o uso do cimento. Com a descoberta feita a partir dos acervos e registros históricos, conseguimos recuperar a fachada, refazendo-a com uma mistura que utilizava as pedras originais, entre elas dolomita e basalto”, explica Renata.
Maquete feita pelo escritório Piratininga Arquitetos Associados para o projeto de restauro e reforma da Biblioteca Mário de Andrade
Acervo Piratininga Arquitetos Associados/Reprodução
Já para a sala de leitura, a proposta foi deslocar o eixo de circulação da biblioteca e reorganizar os espaços. “A sala recebeu novo mobiliário, iluminação e proteção acústica para assegurar o uso apropriado, além de uma estrutura com vidros especiais que viabilizou a conexão física entre os principais acessos, criando uma galeria para a circulação do público”, afirma a arquiteta.
A constatação de que o acervo era grande demais para o espaço disponível orientou a segunda etapa das intervenções. “A ideia foi integrar a sede da biblioteca ao Edifício do IPESP [Instituto de Pagamentos Especiais de São Paulo], garantindo a organização do acervo e a instalação de novos laboratórios”, diz Renata.
Reorganizar os espaços internos da Biblioteca e ampliar o seu contato com a área da praça foram partes importantes do restauro realizado até 2010
Acervo Piratininga Arquitetos Associados/Maíra Acayaba/Reprodução
Houve a ampliação da capacidade de armazenamento para receber a Hemeroteca, destinada à preservação de publicações periódicas e efêmeras, como revistas, jornais, boletins, informativos e folhetins. A integração física entre os edifícios seria realizada por meio de um percurso subterrâneo ligando a praça, a rua e a calçada — o projeto foi concebido, mas nunca executado.
Atualmente, o edifício da Hemeroteca também abriga o Núcleo de Preservação e o Núcleo de Memória Institucional e Gestão Documental Ana Maria de Almeida Camargo, em homenagem à professora e pesquisadora que se tornou referência nacional na área de arquivologia. “A intervenção ampliou a capacidade de atendimento e contribuiu para a reorganização dos espaços internos, adequando-os ao uso cotidiano do público”, ressalta Luiza.
A ampliação do uso dos espaços da Biblioteca também foi uma das diretrizes do restauro, reafirmando sua condição de equipamento cultural de grande importância para a capital paulista
Acervo Piratininga Arquitetos Associados/Maíra Acayaba/Reprodução
Um ponto fundamental do restauro foi a intenção de tornar visíveis as modificações realizadas. Luiza explica: “Elementos como o corredor de vidro e as estruturas metálicas se diferenciam formalmente do projeto original, evidenciando as diferentes camadas temporais da construção. Essas estruturas são reversíveis não porque serão retiradas em um futuro próximo, mas porque marcam a história deste momento, permitindo reconhecer que houve uma intervenção, ainda que com a originalidade preservada”.
Reflexões de uma biblioteca referência cultural e patrimonial brasileira
A biblioteca foi reinaugurada em 2011 e, dois anos depois, o edifício passou a ser tombado em nível estadual, juntamente com a Praça Dom José Gaspar, pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo (CONDEPHAAT). Em 2017, as adequações realizadas renderam à instituição o Selo de Acessibilidade, concedido pela Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência.
Uma das medidas realizadas visando aumentar a acessibilidade foi a instalação de uma rampa em um dos acessos da biblioteca
Acervo Piratininga Arquitetos Associados/Maíra Acayaba/Reprodução
“Esse reconhecimento demonstra que é possível qualificar o acesso e ampliar o uso público de um edifício moderno tombado, preservando sua integridade arquitetônica e simbólica”, destaca a atual diretora da biblioteca.
De acordo com levantamento da instituição, a frequência diária apresentou aumento expressivo: de 170 visitantes passou para cerca de 1.200 em 2018. Como equipamento cultural, a Biblioteca Mário de Andrade tem desenvolvido uma programação diversificada, dentro e fora de seu edifício, ampliando o acesso ao acervo e fortalecendo sua integração com a população.
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Na visão da diretora, foi justamente a capacidade de se transformar ao longo do tempo que permitiu à biblioteca permanecer como referência na cidade, preservando sua identidade e seu papel público. “É o que a consolida como patrimônio arquitetônico vivo, voltado à produção e à circulação de conhecimento”, afirma Luiza.
E como reflete Renata: “Preservar o patrimônio moderno não significa cristalizá-lo, mas adaptá-lo às necessidades contemporâneas”.
Em 1935, iniciou-se a transferência para o edifício atual, também no centro da capital, onde se consolidou como um dos mais importantes espaços culturais da cidade.
Com um acervo superior a 3,3 milhões de itens, abriga coleções de obras raras, mapas, periódicos, multimeios e um dos mais significativos acervos de artes do Brasil. Além disso, desempenha o papel de biblioteca depositária das Nações Unidas, reforçando sua relevância internacional.
A Biblioteca Mário de Andrade foi a primeira da cidade de São Paulo, além de ser a segunda maior do país
Adriel Marcos/Wikimedia Commons
A idealização da biblioteca e a construção na Rua 7 de Abril
Inicialmente chamada de Biblioteca Municipal de São Paulo, a instituição foi proposta pelo Departamento de Cultura da cidade, dirigido pelo escritor Mário de Andrade. Instalou-se no Edifício Guilherme Guinle, projetado pelo arquiteto francês Jacques Pilon — autor de mais de 60 prédios na região central — que também abrigava a sede do jornal Diários Associados.
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O acervo foi crescendo continuamente. “A ampliação, entre outros fatores, pela incorporação da Biblioteca Pública do Estado, tornou necessária a construção de um edifício capaz de atender a novas demandas funcionais e simbólicas”, explica Luiza Thesin, diretora da biblioteca.
Mudança para o novo edifício
Durante a gestão do prefeito Fábio Prado, entre 1934 e 1938, o arquiteto Jacques Pilon foi contratado e, em parceria com Francisco Matarazzo, iniciou em 1935 as obras do novo projeto. Localizada no centro da Praça Dom José Gaspar, com conexões à Rua da Consolação e à Avenida São Luís, a construção simbolizou o movimento de integração da biblioteca ao coração da cidade em um período de intenso crescimento urbano.
Fotografia de Benedito Junqueira Duarte, datada de outubro de 1939, registra a construção da Biblioteca Mário de Andrade
Acervo Biblioteca Mário de Andrade/Benedito Junqueira Duarte/Reprodução
Um colaborador fundamental foi o bibliófilo Rubens Borba de Moraes, que assumiu a direção da biblioteca municipal em 1935. Ele viajava à Europa para adquirir livros e gravuras da brasiliana dispersos, ampliando e qualificando o acervo da instituição.
“Extremamente culto, foi um dos responsáveis por chamar o arquiteto francês para elaborar o projeto do edifício”, relata Cândido Malta Campos Neto, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da Universidade Presbiteriana Mackenzie.
A seção de livros raros já integrava o acervo da Biblioteca Mário de Andrade na década de 1950
Acervo Biblioteca Mário de Andrade/Gabriel Zellaui/Reprodução
“É um edifício nitidamente inserido no processo de verticalização da cidade. Nessa época, já tínhamos o Martinelli, o Sampaio Moreira, mas que se diferem por não serem públicos, institucionais e do setor da cultura”, comenta Renata Semin, arquiteta e urbanista, sócia-fundadora do escritório Piratininga Arquitetos Associados.
“Entre 1935 e 1938, é fundamental entender a figura de Mário à frente do Departamento de Cultura, com iniciativas ambiciosas e inéditas, com incursões em várias áreas, como os Parques Infantis, a Orquestra Municipal, pesquisas em diversos campos e, crucialmente, a criação de bibliotecas”, complementa Cândido.
Os grandes volumes da biblioteca são um ponto significativo do projeto original e se mantêm até hoje na estrutura
Biblioteca Mário de Andrade/Divulgação
Estrutura da Biblioteca Mário de Andrade
O prédio foi projetado com uma estrutura robusta e compatível com a tipologia e o tamanho do acervo. “A construção é marcada por volumetria de formas regulares e modulares, configurando salões de grandes dimensões e geometrias claras, onde retângulos e círculos se articulam harmoniosamente”, explica Renata.
Um aspecto marcante do projeto de Jacques Pilon é o pé-direito mais baixo dos andares. A proposta buscava compatibilizar a altura de cada pavimento com as dimensões das estantes, garantindo acessibilidade e conforto no uso pelos bibliotecários.
O projeto tem um estilo moderno alinhado ao contexto vivenciado durante o crescimento de São Paulo e sua constituição como metrópole
Acervo Piratininga Arquitetos Associados/Maíra Acayaba/Reprodução
Quanto à sua linguagem arquitetônica, o edifício segue uma proposta alinhada ao movimento moderno, marcado pela chegada de profissionais imigrantes e estrangeiros no período entre guerras e pela introdução de técnicas construtivas europeias do século 20. “Com influências do art déco, o projeto traduziu-se em espaços destinados à leitura, à guarda e à conservação do acervo, além de salas para pesquisas, cursos e um auditório”, fala Luiza.
Sua posição estratégica no centro da Praça Dom José Gaspar, permeada por acessos e conexões com avenidas que se consolidavam como importantes na época, reforça o ideal de integração da biblioteca ao coração da capital paulista.
A biblioteca foi colocada no centro da Praça Dom José Gaspar e se conecta com os edifícios, equipamentos culturais e a população em seu entorno pela própria construção quanto pelo seu jardim
Acervo Piratininga Arquitetos Associados/Reprodução
“Os terraços previstos no projeto do edifício principal expressam uma concepção moderna de prédio público, atenta à relação entre interior e exterior e à presença do imóvel na paisagem urbana”, complementa a diretora da instituição.
Transformações com o passar do tempo
O complexo recebeu diversas intervenções ao longo de sua história. Em 1960, passou a se chamar oficialmente Biblioteca Mário de Andrade, em homenagem ao escritor e diretor que idealizou o espaço e deixou um legado marcante para a cultura brasileira.
Os anos de 1973 e 1991 marcaram reformas estruturais significativas, que adequaram os ambientes às demandas de cada período. Logo após a última intervenção, finalizada em 1992, a biblioteca foi tombada pelo Conselho Municipal de Preservação (Conpresp).
A reforma mais significativa da Biblioteca teve início em 2005. O uso de placas metálicas com coloração diferenciada foi a solução adotada para evidenciar o processo de modificação realizado no edifício
Acervo Piratininga Arquitetos Associados/Maíra Acayaba/Reprodução
Restauro e renovação para atender demandas contemporâneas
Entre 2005 e 2010, ocorreu a restauração do prédio e do mobiliário, além da higienização e reorganização do acervo. A intervenção foi conduzida pelo escritório Piratininga Associados.
A equipe do escritório identificou deficiências construtivas, infiltrações causadas por trincas, instalações obsoletas, ausência de climatização controlada e falta de condições de acessibilidade universal. “A biblioteca precisava se renovar para não só recuperar sua condição física e estrutural, como também sua função pública, que vai muito além de um local de passagem”, destaca Renata.
Uma das etapas fundamentais da reforma da biblioteca foi a recuperação das condições estruturais e essenciais para garantir o acondicionamento adequado do acervo
Acervo Piratininga Arquitetos Associados/Maíra Acayaba/Reprodução
As obras ocorreram em duas etapas. A primeira envolveu a recuperação estrutural e das instalações, a implantação de climatização controlada, o restauro do mobiliário original, a criação de novos ambientes de estudo e a reconfiguração da Coleção Biblioteca Circulante — trata-se de um conjunto, criado em 1944, que engloba livros de especialidades, como arte, ciências humanas e literatura —, em paralelo ao processo de higienização do acervo.
A Coleção Circulante disponibiliza itens para empréstimo domiciliar ou consulta local e foi reaberta em 2010 com novo espaço, acervo atualizado e informatizado
Acervo Biblioteca Mário de Andrade/Cedida por Piratininga Arquitetos Associados
Ainda nesta fase, houve a renovação da fachada — mudando de cinza (tonalidade adotada na reforma de 1991) para branco (cor do projeto original) — e a recuperação da sala de leitura. “A reforma anterior danificou a cobertura original com o uso do cimento. Com a descoberta feita a partir dos acervos e registros históricos, conseguimos recuperar a fachada, refazendo-a com uma mistura que utilizava as pedras originais, entre elas dolomita e basalto”, explica Renata.
Maquete feita pelo escritório Piratininga Arquitetos Associados para o projeto de restauro e reforma da Biblioteca Mário de Andrade
Acervo Piratininga Arquitetos Associados/Reprodução
Já para a sala de leitura, a proposta foi deslocar o eixo de circulação da biblioteca e reorganizar os espaços. “A sala recebeu novo mobiliário, iluminação e proteção acústica para assegurar o uso apropriado, além de uma estrutura com vidros especiais que viabilizou a conexão física entre os principais acessos, criando uma galeria para a circulação do público”, afirma a arquiteta.
A constatação de que o acervo era grande demais para o espaço disponível orientou a segunda etapa das intervenções. “A ideia foi integrar a sede da biblioteca ao Edifício do IPESP [Instituto de Pagamentos Especiais de São Paulo], garantindo a organização do acervo e a instalação de novos laboratórios”, diz Renata.
Reorganizar os espaços internos da Biblioteca e ampliar o seu contato com a área da praça foram partes importantes do restauro realizado até 2010
Acervo Piratininga Arquitetos Associados/Maíra Acayaba/Reprodução
Houve a ampliação da capacidade de armazenamento para receber a Hemeroteca, destinada à preservação de publicações periódicas e efêmeras, como revistas, jornais, boletins, informativos e folhetins. A integração física entre os edifícios seria realizada por meio de um percurso subterrâneo ligando a praça, a rua e a calçada — o projeto foi concebido, mas nunca executado.
Atualmente, o edifício da Hemeroteca também abriga o Núcleo de Preservação e o Núcleo de Memória Institucional e Gestão Documental Ana Maria de Almeida Camargo, em homenagem à professora e pesquisadora que se tornou referência nacional na área de arquivologia. “A intervenção ampliou a capacidade de atendimento e contribuiu para a reorganização dos espaços internos, adequando-os ao uso cotidiano do público”, ressalta Luiza.
A ampliação do uso dos espaços da Biblioteca também foi uma das diretrizes do restauro, reafirmando sua condição de equipamento cultural de grande importância para a capital paulista
Acervo Piratininga Arquitetos Associados/Maíra Acayaba/Reprodução
Um ponto fundamental do restauro foi a intenção de tornar visíveis as modificações realizadas. Luiza explica: “Elementos como o corredor de vidro e as estruturas metálicas se diferenciam formalmente do projeto original, evidenciando as diferentes camadas temporais da construção. Essas estruturas são reversíveis não porque serão retiradas em um futuro próximo, mas porque marcam a história deste momento, permitindo reconhecer que houve uma intervenção, ainda que com a originalidade preservada”.
Reflexões de uma biblioteca referência cultural e patrimonial brasileira
A biblioteca foi reinaugurada em 2011 e, dois anos depois, o edifício passou a ser tombado em nível estadual, juntamente com a Praça Dom José Gaspar, pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo (CONDEPHAAT). Em 2017, as adequações realizadas renderam à instituição o Selo de Acessibilidade, concedido pela Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência.
Uma das medidas realizadas visando aumentar a acessibilidade foi a instalação de uma rampa em um dos acessos da biblioteca
Acervo Piratininga Arquitetos Associados/Maíra Acayaba/Reprodução
“Esse reconhecimento demonstra que é possível qualificar o acesso e ampliar o uso público de um edifício moderno tombado, preservando sua integridade arquitetônica e simbólica”, destaca a atual diretora da biblioteca.
De acordo com levantamento da instituição, a frequência diária apresentou aumento expressivo: de 170 visitantes passou para cerca de 1.200 em 2018. Como equipamento cultural, a Biblioteca Mário de Andrade tem desenvolvido uma programação diversificada, dentro e fora de seu edifício, ampliando o acesso ao acervo e fortalecendo sua integração com a população.
Leia mais
Na visão da diretora, foi justamente a capacidade de se transformar ao longo do tempo que permitiu à biblioteca permanecer como referência na cidade, preservando sua identidade e seu papel público. “É o que a consolida como patrimônio arquitetônico vivo, voltado à produção e à circulação de conhecimento”, afirma Luiza.
E como reflete Renata: “Preservar o patrimônio moderno não significa cristalizá-lo, mas adaptá-lo às necessidades contemporâneas”.



