Cultivar esta planta pode afastar escorpiões em casa? Especialistas explicam

Famosa por afastar o mau-olhado, a arruda (Ruta graveolens) ressurge nesses períodos de calor e chuvas intensas como uma promessa de repelente natural contra insetos e escorpiões. Mas será que seu aroma marcante é suficiente para barrar essas pragas? Consultamos especialistas para entender o que é ciência e o que é crença popular no uso da erva contra esses invasores.
Uma pesquisa recente conduzida na Universidade Federal do Piauí (UFPI) trouxe novos indícios a favor da planta. O estudo indica que o odor da arruda funciona como uma barreira olfativa contra o escorpião-amarelo (Tityus serrulatus), o mais perigoso da América do Sul; e que seu cultivo em pontos estratégicos, como frestas e acessos, pode servir como um método preventivo complementar, devido às substâncias voláteis que repelem o aracnídeo.
Apesar dos resultados promissores, o Instituto Butantan mantêm a cautela e preza pelo rigor científico antes de oficializar a prática na saúde pública. “Até o momento não existem estudos definitivos que comprovem a ação da arruda contra o escorpião. Para considerar uma planta como método de prevenção contra aracnídeos é necessário realizar estudos com metodologia científica aplicada, com resultados publicados em revista de referência”, afirma Tiago Chiariello, coordenador do Núcleo de Produção de Soros do instituto.
O que a ciência diz sobre o óleo da arruda
Os compostos voláteis responsáveis por essa ação repelente estão ‘presos’ dentro das glândulas das folhas e só atingem a concentração necessária para serem eficazes quando extraídos e concentrados na forma de óleo
Krzysztof Golik/Wikimedia Commons
O cheiro forte e característico da arruda está relacionado principalmente aos compostos voláteis presentes no seu óleo essencial. “Esse aroma é formado, sobretudo, por metil-cetonas alifáticas, com destaque para a 2-undecanona e a 2-nonanona, que são apontadas em estudos químicos como os principais responsáveis pelo odor intenso da planta”, revela Jackson Preuss, biólogo, professor e pesquisador da Universidade Oeste de Santa Catarina.
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Essas substâncias atuam diretamente no comportamento dos invertebrados. “Os compostos voláteis liberados pela arruda podem interferir principalmente na presença de insetos. Essas substâncias interagem com os receptores sensoriais desses organismos, podendo provocar efeito de repulsa ou irritação. Como consequência, os insetos tendem a evitar o local, reduzindo o pouso, a exploração do ambiente e a alimentação”, complementa o biólogo.
Entretanto, análises laboratoriais indicam que essa eficácia reside no extrato concentrado da planta, o que exige cautela quanto às expectativas sobre o uso do seu óleo. “Essa ação repelente foi demonstrada até hoje apenas em insetos pequenos –como moscas, mosquitos, espécies menores de baratas, entre outros, não havendo comprovação de eficácia contra escorpiões”, esclarece Tiago.
A arruda utiliza seu perfume intenso e amargo como uma barreira sensorial, desorientando pequenos insetos que tentam pousar em suas folhas
Flickr/Joost J. Bakker/Creative Commons
Nesse sentido, embora a planta não afete o aracnídeo diretamente, ela pode alterar a dinâmica da cadeia alimentar local. “Como escorpiões são predadores e tendem a se concentrar em locais com maior disponibilidade de presas, a redução da abundância de insetos no ambiente pode, de maneira indireta, contribuir para diminuir sua ocorrência. Contudo, esse efeito é secundário, variável e dependente das condições ambientais e estruturais do local”, reforça Jackson.
Como o escorpião sobrevive a repelentes naturais
Existem alguns fatores fisiológicos e comportamentais que ajudam os escorpiões a sobreviver à exposição de agentes químicos, como os compostos liberados pela arruda. Essa resistência ocorre porque o animal possui sentidos apurados e hábitos que dificultam o combate.
“Receptores no corpo do aracnídeo permitem que ele ‘sinta’ a presença de produtos químicos sem necessariamente entrar em contato com eles, evitando assim os locais perigosos. Além disso, os escorpiões costumam viver escondidos em buracos, sob pedras, em redes de esgoto, entre outros ambientes de difícil acesso e raramente protegidos por inseticidas”, argumenta Tiago.
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O especialista detalha ainda que a biologia do animal oferece uma proteção extra contra substâncias tóxicas. “Somado a isso, esses animais são capazes de fechar por algum período seus espiráculos respiratórios (aberturas por onde respiram), reduzindo drasticamente sua respiração, o que permite a fuga de ambientes tóxicos sem se intoxicar”, ele acrescenta.
A arruda sozinha não afasta escorpiões
O cultivo de arruda deve ser tratado apenas como um recurso ornamental secundário, pois é totalmente insuficiente como barreira isolada contra escorpiões
Yercaud-elango/Wikimedia Commons
É um erro comum as pessoas depositarem toda a confiança na muda de jardim em si e acabarem negligenciando a manutenção da casa. Como o escorpião é um animal extremamente resiliente — capaz de sobreviver meses sem comida e resistir a muitos venenos comuns — a prevenção precisa ser multidirecional.
“A arruda, utilizada isoladamente, não garante a segurança de um imóvel contra insetos, aranhas ou escorpiões. Para escorpiões, em especial, as medidas mais eficazes continuam sendo o manejo ambiental, a eliminação de abrigos, a vedação de frestas e a redução de insetos-presa”, desmistifica Jackson.
Medidas para manter insetos e escorpiões longe de casa
Para manter escorpiões longe do lar, evite o acúmulo de entulhos, folhas secas, lixo doméstico e materiais de construção nas proximidades das casas
GettyImages
Embora estudos apontem que os compostos naturais do óleo da arruda podem desestimular a aproximação de insetos e escorpiões, funcionando como uma barreira sensorial, a planta deve ser usada apenas como um complemento às medidas de manejo e prevenção.
Na prática, o combate eficaz deve priorizar o controle ambiental, eliminando as condições que favorecem o aparecimento desses animais. “Deve-se evitar o acúmulo de lixo e entulho para que não haja a proliferação de insetos, principalmente baratas, o principal alimento dos escorpiões”, orienta Tiago.
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Jackson destaca a importância de reduzir abrigos. “Isso inclui eliminar entulhos, folhas acumuladas e materiais empilhados, vedar frestas, ralos e rodapés e controlar insetos-praga, que são a principal fonte de alimento de escorpiões e aranhas. A estratégia mais eficaz é combinar a organização do ambiente, as barreiras físicas e o controle de insetos”, conclui o biólogo.
O que fazer ao identificar um escorpião?
Caso encontre um escorpião no imóvel, não tente capturá-lo manualmente; isole a área. “Em caso de identificação do animal, deve-se notificar o Centro de Controle de Zoonoses do município para que as devidas ações sejam tomadas”, alerta o especialista do Instituto Butantan.
Já em situações de picada, a conduta deve ser imediata: as autoridades de saúde orientam lavar o local com água e sabão, e buscar o serviço de emergência hospitalar o mais rápido possível para avaliação. Se necessário, será aplicado o soro antiescorpiônico.
Cuidados
Devido à sua toxicidade e ao risco de irritações cutâneas, a arruda deve ser mantida longe de crianças e animais de estimação. Além disso, como ocorre com qualquer óleo essencial, sua eficácia depende da reaplicação constante.

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