O paranaense David Libeskind (1928–2014) figura entre os grandes nomes da arquitetura modernista brasileira, ainda que sua obra permaneça pouco conhecida fora dos círculos especializados. Mais do que um arquiteto, ele foi artista plástico, ilustrador gráfico e pensador urbano. Sua formação multidisciplinar lhe permitiu desenvolver projetos que combinavam funcionalidade, estética e integração com o espaço público.
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Ao longo de sua trajetória, ele destacou-se por erguer edifícios que dialogavam com a cidade, respeitavam o entorno e ofereciam soluções arquitetônicas inovadoras para os desafios urbanos do século 20. O Conjunto Nacional, em São Paulo, é seu projeto mais emblemático.
Trajetória de David Libeskind
David Libeskind nasceu em 24 de novembro de 1928, na cidade de Ponta Grossa, no Paraná, em uma família de imigrantes judeus. Ainda bebê, em 1929, mudou-se com os pais — Pérola e Marcos Libeskind — para Belo Horizonte, Minas Gerais, onde passou a infância e juventude. Desde cedo demonstrou interesse pelas artes visuais, frequentando cursos de desenho e pintura que influenciariam profundamente sua abordagem arquitetônica.
Na capital mineira, ainda na adolescência, foi aluno do pintor modernista Alberto da Veiga Guignard. Em 1947, ingressou na Escola de Arquitetura da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Lá foi aluno do professor Sylvio de Vasconcellos, que o convidou para trabalhar no Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Sphan), onde teve contato com importantes projetos de preservação e valorização do patrimônio cultural brasileiro.
O Conjunto Nacional, na Avenida Paulista, projetado por David Libeskind, levou a marca do Banco Itaú no alto do edifício entre 1975 e 2011
Dornicke/Wikimedia Commons
Durante sua formação, David Libeskind foi fortemente influenciado pelos ideais do modernismo europeu, especialmente pelas obras de Le Corbusier e pela Escola Bauhaus. Esses princípios — como a valorização da planta livre, o uso de pilotis, a integração entre forma e função e a honestidade dos materiais — tornaram-se pilares de sua produção.
Logo após sua formação, em 1952, mudou-se para São Paulo, atraído pelo dinamismo da cidade e pelas oportunidades profissionais. Foi lá que sua carreira ganhou projeção, especialmente após vencer o concurso para o projeto do Conjunto Nacional, em 1955.
“David Libeskind era muito jovem quando venceu o concurso, o que permitiu uma posterior guinada na sua carreira, pois obteve vários prêmios com este projeto e com o reconhecimento conseguiu muitos contratos”, conta a arquiteta Luciana Tombi Brasil, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU), na Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM).
Teatro Princesa Isabel, projetado por David Libeskind, mas que não chegou a ser edificado
Portal David Libeskind/Acervo da Biblioteca da FAUUSP/Divulgação
Na capital paulista, o paranaense aproximou-se de nomes influentes do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB). Raquel Schenkman, presidente do IAB-SP, destaca que ele “é um dos importantes arquitetos que construíram a arquitetura moderna brasileira”. Embora formado em Minas Gerais, associou-se ao IAB em São Paulo e teve como grande referência Oscar Niemeyer, especialmente o conjunto da Pampulha, marco modernista dos anos 1940.
Ao longo das décadas seguintes, David Libeskind desenvolveu uma série de projetos residenciais, comerciais e institucionais. Paralelamente, manteve sua atuação como artista plástico e designer gráfico, participando de exposições e colaborando com publicações culturais.
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Ele faleceu em São Paulo, em 8 de abril de 2014, aos 85 anos. Apesar de sua relevância, o arquiteto nunca buscou os holofotes. Sua postura discreta e seu foco na qualidade fizeram com que sua obra fosse mais reconhecida pela crítica especializada do que pelo grande público.
Personalidade e visão sobre a arquitetura
David Libeskind é descrito por Luciana como alguém de personalidade vibrante. “Sempre se animava mais ao falar de arte do que de arquitetura”, ela relata. Já sobre a arquitetura, mostrava-se menos otimista: lamentava a perda de espaço da “boa arquitetura” nos meios de comunicação, lembrando que nos anos 1950 e 1960 jornais dedicavam sessões exclusivas ao tema.
A professora destaca que David Libeskind via o papel do arquiteto de forma prática, ligado ao trabalho intenso de prancheta; ele chegou a ter uma construtora e atuava sobretudo na esfera privada, atendendo clientes de alto poder aquisitivo.
Edifício Arper (1959-1960), projetado por David Libeskind, no bairro Higienópolis, em São Paulo
Portal David Libeskind/Acervo da Biblioteca da FAUUSP/Divulgação
O meio em que o paranaense transitava, de acordo com Luciana, estava fortemente vinculado ao mundo das artes e à arquitetura como produção cultural. Além disso, sua ligação com a colônia judaica, sobretudo no bairro de Higienópolis, abriu caminhos para conquistar projetos importantes nessa região, em Santa Cecília e em Perdizes.
No início dos anos 2000, David Libeskind já estava bastante decepcionado com a produção da arquitetura, com o descompromisso com a ética profissional de fato vinculada a produzir com qualidade para e com a cidade.
Características arquitetônicas
Arquiteto modernista, mas com forte influência do racionalismo europeu, David Libeskind criou projetos que prezavam pela clareza formal, pela honestidade dos materiais e pela integração entre arquitetura e cidade. Além disso, a sua relação entre arte e arquitetura era orgânica. Luciana lembra o que David Libeskind mesmo dizia: “Não faço arquitetura se não estiver pintando e não pinto se não estiver fazendo arquitetura”.
Para Luciana, o domínio dele no desenho é “característica fundamental que transparece em suas obras”. Esse domínio se refletia no uso de planos horizontais em coberturas alongadas, embasamentos soltos do chão e planos verticais com tratamento matérico, criando espaços contínuos e conexões visuais marcantes. Essas escolhas revelavam referências internacionais declaradas por David Libeskind, como Richard Neutra e Mies van der Rohe.
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A materialidade era um tema central nos seus projetos, diretamente ligada à sua formação paralela como artista plástico. O arquiteto explorava planos em madeira — muitas vezes em parceria com o designer de móveis Joaquim Tenreiro —, elementos cerâmicos vitrificados desenvolvidos por ele próprio, além de pedras, fulget e pátios vegetados.
Os principais projetos de David Libeskind
O legado de David Libeskind destaca-se pelos projetos de habitação unifamiliar, que unem estética racional e funcionalidade em diálogo com a cidade e seus habitantes. Para Luciana, o estudo dessas residências é essencial para compreender seus princípios arquitetônicos, visto que os elementos fundamentais de sua obra serviram de base para obras em outras escalas — como edifícios coletivos, institucionais e comerciais.
Residência Joseph Khalil Skaf (1958), projetada por David Libeskind
Portal David Libeskind/Acervo da Biblioteca da FAUUSP/Reprodução
A especialista destaca as casas José Felix Lousa, Antonio Maurício da Rocha, Joseh Kalil Skaf, Natan Faermann e Casa Libeskind, desenvolvidas entre 1952 e 1961, que reforçam o uso dos elementos horizontais e verticais com tratamento matérico e de livre fluxo espacial.
“Assim, um projeto como do Edifício Arper (habitação coletiva) ainda que apresente outro programa e escala diversa, reproduz as soluções utilizadas nas casas e reforça os princípios de projeto do arquiteto”, ela explica.
Também merecem atenção os edifícios São Luiz, Square Garden, Arabá, Jardim Buenos Aires, Pernambuco, Centro Médico Itacolomi e Tatuí. Além do Fórum Estância de Socorro e da Agência do Banco do Brasil. Também vale destacar as residências Adolfo Leirner, Moises Waldzteijn, Carmelo Larocca, Herminio Trujillo, João Manoel Domingues Perez e Spartaco Vial.
Conjunto Nacional
O Conjunto Nacional é considerado um marco da arquitetura multifuncional no Brasil e símbolo da modernização urbana de São Paulo. Localizado na Avenida Paulista, foi concebido como um complexo multifuncional que integra comércio, serviços, cultura e habitação. O projeto venceu um concurso público em 1955, quando David Libeskind tinha apenas 27 anos, e foi executado ao longo da década seguinte e finalizado em 1962.
Com aproximadamente 150 mil m² de área construída, o programa é distribuído em dois grandes volumes: um horizontal, que ocupa todo o terreno — uma gleba de 14.600 m² — e outro vertical, que se desenvolve sobre pilotis, sobre o terraço-jardim do bloco horizontal. O prédio do Conjunto Nacional tem 25 pavimentos e 22 elevadores.
A fachada do Conjunto Nacional vista da Avenida Paulista
Arte fora do museu/Wikimedia Commons
“A singularidade desta obra, na minha opinião, é, dentre tantas qualidades que possui, a de anunciar quase de forma premonitória o que a cidade de São Paulo viria a se tornar, assim como a sua capacidade em se manter vivo e ativo justamente devido à sua qualidade de projeto”, afirma Luciana.
“David Libeskind entendia que a cidade e o edifício podiam se comunicar livremente através dos térreos generosos e abertos que originalmente se comunicavam com a área pública”, ela acrescenta. Condição que foi modificada, sobretudo a partir dos anos 1970 e 1980, com a adoção de grades, muros e portarias, o que também afetou o bairro de Higienópolis, onde há significativa presença de edifícios do arquiteto.
O Conjunto Nacional abriga espaços voltados cultura, comércio e entretenimento
Dornicke/Wikimedia Commons
Ao ocupar uma quadra inteira, o Conjunto Nacional promove a livre circulação pelo térreo e a conexão entre as calçadas e o interior do prédio. “Essa passagem absolutamente livre, sem portas ou barreiras, com o mesmo piso dentro e fora, promove a continuidade da cota da cidade”, comenta a professora.
Sua concepção foi revolucionária para a época, pois o edifício rompeu com a lógica dos prédios isolados e propôs uma verdadeira cidade vertical.
O terraço do Conjunto Nacional promove a integração da cidade com a natureza
Gabigeraldelli/Wikimedia Commons
A base do conjunto abriga uma galeria comercial com lojas, restaurantes, cinema e livraria, enquanto os pavimentos superiores são destinados a escritórios e apartamentos. A fachada horizontal, marcada por brises e grandes panos de vidro, confere leveza ao volume e permite ampla iluminação natural.
O uso de pilotis, a planta livre e a integração com o espaço público refletem a influência de Le Corbusier, mas com uma linguagem própria e adaptada ao contexto brasileiro. No terraço-jardim do prédio, destaque para a implantação da primeira cúpula geodésica construída no Brasil, com projeto estrutural de Hans Eger.
O Conjunto Nacional abriga a primeira cúpula geodésica construída no Brasil. Ela está situada no terraço-jardim do prédio, com projeto estrutural de Hans Eger
Dornicke/Wikimedia Commons
Edifício São Luiz
Outro projeto notável é o Edifício São Luiz, localizado na região central de São Paulo. Este residencial exemplifica a busca do arquiteto por soluções habitacionais eficientes, confortáveis e esteticamente refinadas. Com uma planta racional, tem unidades bem distribuídas e ventiladas e varandas generosas que promovem a integração entre o interior e o exterior.
A fachada é marcada por linhas horizontais e elementos de proteção solar, como brises e painéis móveis. O uso de materiais como concreto aparente e vidro reforça a estética modernista, ao mesmo tempo em que atende às exigências climáticas da cidade. O Edifício São Luiz é exemplo de como Libeskind aplicava os princípios do modernismo em projetos de escala mais íntima, sem renunciar à qualidade espacial e ao rigor técnico.
Residência Libeskind
A casa onde David Libeskind viveu por décadas é uma obra menos conhecida, mas extremamente reveladora de sua visão arquitetônica. Localizada em um bairro residencial de São Paulo, a morada de 570 m² foi projetada como um espaço de experimentação e introspecção. Com volumes simples e bem articulados, ela valoriza a luz natural, a ventilação cruzada e a integração entre os ambientes.
Os espaços internos são fluidos e conectados, refletindo uma concepção moderna de habitação, onde as barreiras entre os cômodos são minimizadas em favor de uma vivência mais orgânica. A escolha de materiais é sóbria, com predominância de concreto, madeira e vidro.
Edifício Square Garden
Projetado por David Libeskind nos anos 1980, o Edifício Square Garden se destaca por sua fachada imponente em concreto aparente, que rompe com a estética tradicional do bairro Higienópolis e introduz uma leitura mais brutalista e escultural da arquitetura.
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Composto por 18 pavimentos residenciais, o prédio inclui garagem térrea e dois andares dedicados ao lazer. A organização dos espaços internos reflete a preocupação do arquiteto com a funcionalidade e o conforto, sem renunciar à expressividade formal. O uso de elementos estruturais como parte da composição estética, marca registrada do arquiteto, está também presente no Square Garden. A obra é considerada uma de suas mais ousadas no campo residencial, tanto pela escala quanto pela linguagem visual.
Projetos gráficos e artísticos
Paralelamente à sua atuação como arquiteto, David Libeskind desenvolveu uma intensa produção nas artes visuais e no design gráfico. A arquiteta Luciana Brasil relata que a descoberta de seu acervo artístico — pinturas, desenhos e ilustrações — foi essencial para compreender seus processos, especialmente no que diz respeito à composição formal, ao uso da cor e à atenção aos detalhes.
David Libeskind criou cartazes, capas de livros e obras plásticas com forte influência do construtivismo e da arte concreta, movimentos que dialogavam com os ideais modernistas. Entre outros trabalhos, produziu várias capas para a revista Visão, que circulou de 1952 a 1993.
Residência Natan Faerman (1958-1959), projeto de David Libeskind
Portal David Libeskind/Acervo da Biblioteca da FAUUSP/Divulgação
Além disso, Libeskind recebeu o primeiro prêmio no Salão Paulista de Arte Moderna, em 1961. Entre as décadas de 1960 e 1970, passou a desenvolver suas pinturas de modo mais abstrato, sob os preceitos da arte informal.
Legado de David Libeskind
O legado de David Libeskind permanece vivo não apenas nos edifícios que projetou, mas também em muitas publicações. Em 2007, a arquiteta Luciana Brasil publicou o livro David Libeskind – Ensaio sobre as Residências, pela Romano Guerra Editora/EDUSP/FAPESP.
Em 2014, com a morte do pai, os herdeiros – Marcelo e Claudio Libeskind – doaram à Biblioteca da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (FAU-USP) parte de um acervo: projetos originais de arquitetura, fotografias, documentos e a biblioteca pessoal do arquiteto.
Edifício Pernambuco (1963-1964), projetado por David Libeskind
Portal David Libeskind/Acervo da Biblioteca da FAUUSP/Divulgação
Dois anos depois, a exposição 88 anos David Libeskind – Arquitetura Atemporal, realizada no Conjunto Nacional, apresentou a vida e obra do paranaense com cerca de 150 imagens digitalizadas. A exposição foi idealizada por Marcelo Libeskind e Matteo Gavazzi, com curadoria de Milena Leonel.
Para Luciana, o maior aprendizado deixado por David Libeskind “diz respeito ao primor de uma arquitetura realizada a partir de um compromisso ético com o mais alto nível de desenho e expressão plástica, criatividade, experimentação e caráter próprio, algo que está se perdendo na produção atual, tão pasteurizada e subserviente às demandas do mercado”.
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Ao longo de sua trajetória, ele destacou-se por erguer edifícios que dialogavam com a cidade, respeitavam o entorno e ofereciam soluções arquitetônicas inovadoras para os desafios urbanos do século 20. O Conjunto Nacional, em São Paulo, é seu projeto mais emblemático.
Trajetória de David Libeskind
David Libeskind nasceu em 24 de novembro de 1928, na cidade de Ponta Grossa, no Paraná, em uma família de imigrantes judeus. Ainda bebê, em 1929, mudou-se com os pais — Pérola e Marcos Libeskind — para Belo Horizonte, Minas Gerais, onde passou a infância e juventude. Desde cedo demonstrou interesse pelas artes visuais, frequentando cursos de desenho e pintura que influenciariam profundamente sua abordagem arquitetônica.
Na capital mineira, ainda na adolescência, foi aluno do pintor modernista Alberto da Veiga Guignard. Em 1947, ingressou na Escola de Arquitetura da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Lá foi aluno do professor Sylvio de Vasconcellos, que o convidou para trabalhar no Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Sphan), onde teve contato com importantes projetos de preservação e valorização do patrimônio cultural brasileiro.
O Conjunto Nacional, na Avenida Paulista, projetado por David Libeskind, levou a marca do Banco Itaú no alto do edifício entre 1975 e 2011
Dornicke/Wikimedia Commons
Durante sua formação, David Libeskind foi fortemente influenciado pelos ideais do modernismo europeu, especialmente pelas obras de Le Corbusier e pela Escola Bauhaus. Esses princípios — como a valorização da planta livre, o uso de pilotis, a integração entre forma e função e a honestidade dos materiais — tornaram-se pilares de sua produção.
Logo após sua formação, em 1952, mudou-se para São Paulo, atraído pelo dinamismo da cidade e pelas oportunidades profissionais. Foi lá que sua carreira ganhou projeção, especialmente após vencer o concurso para o projeto do Conjunto Nacional, em 1955.
“David Libeskind era muito jovem quando venceu o concurso, o que permitiu uma posterior guinada na sua carreira, pois obteve vários prêmios com este projeto e com o reconhecimento conseguiu muitos contratos”, conta a arquiteta Luciana Tombi Brasil, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU), na Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM).
Teatro Princesa Isabel, projetado por David Libeskind, mas que não chegou a ser edificado
Portal David Libeskind/Acervo da Biblioteca da FAUUSP/Divulgação
Na capital paulista, o paranaense aproximou-se de nomes influentes do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB). Raquel Schenkman, presidente do IAB-SP, destaca que ele “é um dos importantes arquitetos que construíram a arquitetura moderna brasileira”. Embora formado em Minas Gerais, associou-se ao IAB em São Paulo e teve como grande referência Oscar Niemeyer, especialmente o conjunto da Pampulha, marco modernista dos anos 1940.
Ao longo das décadas seguintes, David Libeskind desenvolveu uma série de projetos residenciais, comerciais e institucionais. Paralelamente, manteve sua atuação como artista plástico e designer gráfico, participando de exposições e colaborando com publicações culturais.
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Ele faleceu em São Paulo, em 8 de abril de 2014, aos 85 anos. Apesar de sua relevância, o arquiteto nunca buscou os holofotes. Sua postura discreta e seu foco na qualidade fizeram com que sua obra fosse mais reconhecida pela crítica especializada do que pelo grande público.
Personalidade e visão sobre a arquitetura
David Libeskind é descrito por Luciana como alguém de personalidade vibrante. “Sempre se animava mais ao falar de arte do que de arquitetura”, ela relata. Já sobre a arquitetura, mostrava-se menos otimista: lamentava a perda de espaço da “boa arquitetura” nos meios de comunicação, lembrando que nos anos 1950 e 1960 jornais dedicavam sessões exclusivas ao tema.
A professora destaca que David Libeskind via o papel do arquiteto de forma prática, ligado ao trabalho intenso de prancheta; ele chegou a ter uma construtora e atuava sobretudo na esfera privada, atendendo clientes de alto poder aquisitivo.
Edifício Arper (1959-1960), projetado por David Libeskind, no bairro Higienópolis, em São Paulo
Portal David Libeskind/Acervo da Biblioteca da FAUUSP/Divulgação
O meio em que o paranaense transitava, de acordo com Luciana, estava fortemente vinculado ao mundo das artes e à arquitetura como produção cultural. Além disso, sua ligação com a colônia judaica, sobretudo no bairro de Higienópolis, abriu caminhos para conquistar projetos importantes nessa região, em Santa Cecília e em Perdizes.
No início dos anos 2000, David Libeskind já estava bastante decepcionado com a produção da arquitetura, com o descompromisso com a ética profissional de fato vinculada a produzir com qualidade para e com a cidade.
Características arquitetônicas
Arquiteto modernista, mas com forte influência do racionalismo europeu, David Libeskind criou projetos que prezavam pela clareza formal, pela honestidade dos materiais e pela integração entre arquitetura e cidade. Além disso, a sua relação entre arte e arquitetura era orgânica. Luciana lembra o que David Libeskind mesmo dizia: “Não faço arquitetura se não estiver pintando e não pinto se não estiver fazendo arquitetura”.
Para Luciana, o domínio dele no desenho é “característica fundamental que transparece em suas obras”. Esse domínio se refletia no uso de planos horizontais em coberturas alongadas, embasamentos soltos do chão e planos verticais com tratamento matérico, criando espaços contínuos e conexões visuais marcantes. Essas escolhas revelavam referências internacionais declaradas por David Libeskind, como Richard Neutra e Mies van der Rohe.
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A materialidade era um tema central nos seus projetos, diretamente ligada à sua formação paralela como artista plástico. O arquiteto explorava planos em madeira — muitas vezes em parceria com o designer de móveis Joaquim Tenreiro —, elementos cerâmicos vitrificados desenvolvidos por ele próprio, além de pedras, fulget e pátios vegetados.
Os principais projetos de David Libeskind
O legado de David Libeskind destaca-se pelos projetos de habitação unifamiliar, que unem estética racional e funcionalidade em diálogo com a cidade e seus habitantes. Para Luciana, o estudo dessas residências é essencial para compreender seus princípios arquitetônicos, visto que os elementos fundamentais de sua obra serviram de base para obras em outras escalas — como edifícios coletivos, institucionais e comerciais.
Residência Joseph Khalil Skaf (1958), projetada por David Libeskind
Portal David Libeskind/Acervo da Biblioteca da FAUUSP/Reprodução
A especialista destaca as casas José Felix Lousa, Antonio Maurício da Rocha, Joseh Kalil Skaf, Natan Faermann e Casa Libeskind, desenvolvidas entre 1952 e 1961, que reforçam o uso dos elementos horizontais e verticais com tratamento matérico e de livre fluxo espacial.
“Assim, um projeto como do Edifício Arper (habitação coletiva) ainda que apresente outro programa e escala diversa, reproduz as soluções utilizadas nas casas e reforça os princípios de projeto do arquiteto”, ela explica.
Também merecem atenção os edifícios São Luiz, Square Garden, Arabá, Jardim Buenos Aires, Pernambuco, Centro Médico Itacolomi e Tatuí. Além do Fórum Estância de Socorro e da Agência do Banco do Brasil. Também vale destacar as residências Adolfo Leirner, Moises Waldzteijn, Carmelo Larocca, Herminio Trujillo, João Manoel Domingues Perez e Spartaco Vial.
Conjunto Nacional
O Conjunto Nacional é considerado um marco da arquitetura multifuncional no Brasil e símbolo da modernização urbana de São Paulo. Localizado na Avenida Paulista, foi concebido como um complexo multifuncional que integra comércio, serviços, cultura e habitação. O projeto venceu um concurso público em 1955, quando David Libeskind tinha apenas 27 anos, e foi executado ao longo da década seguinte e finalizado em 1962.
Com aproximadamente 150 mil m² de área construída, o programa é distribuído em dois grandes volumes: um horizontal, que ocupa todo o terreno — uma gleba de 14.600 m² — e outro vertical, que se desenvolve sobre pilotis, sobre o terraço-jardim do bloco horizontal. O prédio do Conjunto Nacional tem 25 pavimentos e 22 elevadores.
A fachada do Conjunto Nacional vista da Avenida Paulista
Arte fora do museu/Wikimedia Commons
“A singularidade desta obra, na minha opinião, é, dentre tantas qualidades que possui, a de anunciar quase de forma premonitória o que a cidade de São Paulo viria a se tornar, assim como a sua capacidade em se manter vivo e ativo justamente devido à sua qualidade de projeto”, afirma Luciana.
“David Libeskind entendia que a cidade e o edifício podiam se comunicar livremente através dos térreos generosos e abertos que originalmente se comunicavam com a área pública”, ela acrescenta. Condição que foi modificada, sobretudo a partir dos anos 1970 e 1980, com a adoção de grades, muros e portarias, o que também afetou o bairro de Higienópolis, onde há significativa presença de edifícios do arquiteto.
O Conjunto Nacional abriga espaços voltados cultura, comércio e entretenimento
Dornicke/Wikimedia Commons
Ao ocupar uma quadra inteira, o Conjunto Nacional promove a livre circulação pelo térreo e a conexão entre as calçadas e o interior do prédio. “Essa passagem absolutamente livre, sem portas ou barreiras, com o mesmo piso dentro e fora, promove a continuidade da cota da cidade”, comenta a professora.
Sua concepção foi revolucionária para a época, pois o edifício rompeu com a lógica dos prédios isolados e propôs uma verdadeira cidade vertical.
O terraço do Conjunto Nacional promove a integração da cidade com a natureza
Gabigeraldelli/Wikimedia Commons
A base do conjunto abriga uma galeria comercial com lojas, restaurantes, cinema e livraria, enquanto os pavimentos superiores são destinados a escritórios e apartamentos. A fachada horizontal, marcada por brises e grandes panos de vidro, confere leveza ao volume e permite ampla iluminação natural.
O uso de pilotis, a planta livre e a integração com o espaço público refletem a influência de Le Corbusier, mas com uma linguagem própria e adaptada ao contexto brasileiro. No terraço-jardim do prédio, destaque para a implantação da primeira cúpula geodésica construída no Brasil, com projeto estrutural de Hans Eger.
O Conjunto Nacional abriga a primeira cúpula geodésica construída no Brasil. Ela está situada no terraço-jardim do prédio, com projeto estrutural de Hans Eger
Dornicke/Wikimedia Commons
Edifício São Luiz
Outro projeto notável é o Edifício São Luiz, localizado na região central de São Paulo. Este residencial exemplifica a busca do arquiteto por soluções habitacionais eficientes, confortáveis e esteticamente refinadas. Com uma planta racional, tem unidades bem distribuídas e ventiladas e varandas generosas que promovem a integração entre o interior e o exterior.
A fachada é marcada por linhas horizontais e elementos de proteção solar, como brises e painéis móveis. O uso de materiais como concreto aparente e vidro reforça a estética modernista, ao mesmo tempo em que atende às exigências climáticas da cidade. O Edifício São Luiz é exemplo de como Libeskind aplicava os princípios do modernismo em projetos de escala mais íntima, sem renunciar à qualidade espacial e ao rigor técnico.
Residência Libeskind
A casa onde David Libeskind viveu por décadas é uma obra menos conhecida, mas extremamente reveladora de sua visão arquitetônica. Localizada em um bairro residencial de São Paulo, a morada de 570 m² foi projetada como um espaço de experimentação e introspecção. Com volumes simples e bem articulados, ela valoriza a luz natural, a ventilação cruzada e a integração entre os ambientes.
Os espaços internos são fluidos e conectados, refletindo uma concepção moderna de habitação, onde as barreiras entre os cômodos são minimizadas em favor de uma vivência mais orgânica. A escolha de materiais é sóbria, com predominância de concreto, madeira e vidro.
Edifício Square Garden
Projetado por David Libeskind nos anos 1980, o Edifício Square Garden se destaca por sua fachada imponente em concreto aparente, que rompe com a estética tradicional do bairro Higienópolis e introduz uma leitura mais brutalista e escultural da arquitetura.
Leia mais
Composto por 18 pavimentos residenciais, o prédio inclui garagem térrea e dois andares dedicados ao lazer. A organização dos espaços internos reflete a preocupação do arquiteto com a funcionalidade e o conforto, sem renunciar à expressividade formal. O uso de elementos estruturais como parte da composição estética, marca registrada do arquiteto, está também presente no Square Garden. A obra é considerada uma de suas mais ousadas no campo residencial, tanto pela escala quanto pela linguagem visual.
Projetos gráficos e artísticos
Paralelamente à sua atuação como arquiteto, David Libeskind desenvolveu uma intensa produção nas artes visuais e no design gráfico. A arquiteta Luciana Brasil relata que a descoberta de seu acervo artístico — pinturas, desenhos e ilustrações — foi essencial para compreender seus processos, especialmente no que diz respeito à composição formal, ao uso da cor e à atenção aos detalhes.
David Libeskind criou cartazes, capas de livros e obras plásticas com forte influência do construtivismo e da arte concreta, movimentos que dialogavam com os ideais modernistas. Entre outros trabalhos, produziu várias capas para a revista Visão, que circulou de 1952 a 1993.
Residência Natan Faerman (1958-1959), projeto de David Libeskind
Portal David Libeskind/Acervo da Biblioteca da FAUUSP/Divulgação
Além disso, Libeskind recebeu o primeiro prêmio no Salão Paulista de Arte Moderna, em 1961. Entre as décadas de 1960 e 1970, passou a desenvolver suas pinturas de modo mais abstrato, sob os preceitos da arte informal.
Legado de David Libeskind
O legado de David Libeskind permanece vivo não apenas nos edifícios que projetou, mas também em muitas publicações. Em 2007, a arquiteta Luciana Brasil publicou o livro David Libeskind – Ensaio sobre as Residências, pela Romano Guerra Editora/EDUSP/FAPESP.
Em 2014, com a morte do pai, os herdeiros – Marcelo e Claudio Libeskind – doaram à Biblioteca da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (FAU-USP) parte de um acervo: projetos originais de arquitetura, fotografias, documentos e a biblioteca pessoal do arquiteto.
Edifício Pernambuco (1963-1964), projetado por David Libeskind
Portal David Libeskind/Acervo da Biblioteca da FAUUSP/Divulgação
Dois anos depois, a exposição 88 anos David Libeskind – Arquitetura Atemporal, realizada no Conjunto Nacional, apresentou a vida e obra do paranaense com cerca de 150 imagens digitalizadas. A exposição foi idealizada por Marcelo Libeskind e Matteo Gavazzi, com curadoria de Milena Leonel.
Para Luciana, o maior aprendizado deixado por David Libeskind “diz respeito ao primor de uma arquitetura realizada a partir de um compromisso ético com o mais alto nível de desenho e expressão plástica, criatividade, experimentação e caráter próprio, algo que está se perdendo na produção atual, tão pasteurizada e subserviente às demandas do mercado”.



