Design como arte: tudo é escultórico em apartamento paulistano

As linhas envolventes do sofá de quase 9 m que ocupa a sala sintetizam, de certa forma, a liberdade que marca a vida dos moradores deste apartamento. Concebido em 1972, em plena era do hedonismo, auge dos clubes e dos corpos livres para festejar, o DS-600, sem lugares marcados nem pontas, até hoje contesta hierarquias e estimula encontros mais próximos, daqueles para olhar nos olhos. Esse magnetismo irresistível atraiu seus proprietários – era um sonho tê-lo. “É uma peça de design de muita personalidade, que tornou-se o ponto de partida do projeto”, conta o arquiteto Filipe Troncon, do Suite Arquitetos, que assina a reforma da residência ao lado das sócias, Carolina Mauro e Daniela Frugiuele.
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A sala de jantar tem cadeiras Totu, design Toan Nguyen para a Fendi Casa, pendentes 28.1, design Omer Arbel para a Bocci, tudo na Casual Móveis, e tela de Alfredo Volpi
Fran Parente/divulgação
O contemplar se faz presente em vários momentos, tanto na arte quanto no design
O desenho dos interiores, no começo, estava encomendado para outro imóvel. “No meio do caminho a proprietária pensou bem e decidiu ficar neste, onde vivia fazia 20 anos. Um desafio, mas ela quis manter o projeto e nos pediu para adaptar tudo para ele”, lembra Daniela. Nesse clima de livre-arbítrio, mais uma ousadia: com os filhos saídos de casa, os três quartos dariam lugar a uma única suíte espaçosa. Uma ampla integração seria mais interessante para a nova fase do casal, que vive entre Brasil e Europa. Nessa dinâmica, muitas paredes dos 300 m² foram reconfiguradas para abrir alas ao living e a esse dormitório.
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No escritório, escrivaninha de Jorge Zalszupin, cadeira FK, da Walter Knoll, na Casual Móveis, móbile de Alexander Calder e escultura de parede Vibração Contemporosa, de Ernesto Neto
Fran Parente/divulgação
Ainda no living, poltronas Pacha, design Pierre Paulin para a Gubi, na Micasa, ladeadas pela mesa Laurel, design Luca Nichetto para a De La Espada, na Casual Móveis, banquetas Tektônika, design Suite Design para a Firma Casa, escultura de Bruno Giorgi e paisagismo da Cenário
Fran Parente/divulgação
Junto ao desejo pelo sofá sinuoso, havia uma coleção de arte de peso para acomodar, e outra de livros de viagem, gastronomia e cultura, tão importantes quanto o design. “Pensamos muito nas obras, na importância delas, na percepção de cada uma, antes de cada escolha. Para dar valor a tudo isso, uma base neutra seria o ideal”, argumenta Daniela. Mas não pense em minimalismo. Nuances quentes bem dosadas são reflexo do lado acolhedor-festivo do casal. “Essa face surge de forma literal e subliminar: a alma deles tem essa vibração. Logo, a composição do mobiliário, as estampas… tudo reverbera esse perfil”, observa Filipe.
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Canto de leitura com poltrona Laid Back, design Naoto Fukasawa para a B&B Italia, na Casual Móveis, mesa lateral Morfa NR.01, de Lucas Recchia, tela de Arcangelo Ianelli, luminária Constellation, design David Rockwell para a Lasvit, e obra Lena #92, de Leonor Antunes
Fran Parente/divulgação
Na cozinha, cerâmicas de Francisco Brennand, na Mau
Fran Parente/divulgação
A renovação abriu a mente contemporânea da dupla a um espectro mais atual do design. Nomes jovens se misturam a antigos de maneira fluida. O trabalho do art advisor Felipe Hegg, que trouxe Beatriz Milhazes, Ernesto Neto, Leonor Antunes e Alexander Calder – este acompanhando o Miró do acervo, já que eram apresentados em conjunto à sua época –, reforçou a aura de alegria. Veja a tela de Heitor dos Prazeres que retrata um homem e uma mulher dançando e sinta o reflexo do que se vive ali.
Todo arquiteto sonha trabalhar com escolhas ousadas. Tivemos confiança mútua para isso
O living exibe sofá DS-600, design Ueli Berger, Eleonore Peduzzi Riva, Hans Ulrich e Klaus Vogt, e duas mesas de apoio DS-5250, design Rafael Parga, os três para a De Sede, mesa lateral Arcolor, design Jaime Hayon para a Arflex (à esq.), tudo na Micasa, e mesa de centro de Lucas Recchia – na parede, arandela Rícino, do Estúdio Rain, e quadro de Heitor dos Prazeres, e, ao fundo, móbile de Alexander Calde
Fran Parente/divulgação
Na sala de jantar, os pendentes coloridos da Bocci protagonizam noites animadas, ao lado de Volpi e das cadeiras estampadas – tudo sintonizado na calma do mobiliário e dos revestimentos, como uma moldura para o movimento visual. “Todo arquiteto sonha trabalhar com escolhas mais ousadas. Tivemos uma confiança mútua para isso”, observa Filipe. A arquitetura tem suas estratégias: toda a parte de serviços está mimetizada nas paredes e se abre quando preciso. “A marcenaria embute esse apoio ao receber. Providenciamos versatilidade com muitos ‘abres e fechas’ para somar estética e funcionalidade”, aponta Daniela.
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O banheiro recebeu mármore da Stone Marmi, gabinete da Cap Marcenaria e tapete da Abyss & Habidecor
Fran Parente/divulgação
O quarto exibe tapeçaria presenteada pelo pai da moradora, poltronas Tempo, de Isabelle de Mari, da Olho Móveis Autorais, e banco Maria Preciosa, de Etel Carmona, da Etel, tudo sobre tapete Transbordar, da Suite Design para a Botteh
Fran Parente/divulgação
Os móveis têm textura, aconchego e convidam a uma relação mais próxima, com iluminação indireta assinada por Maneco Quinderé. “O contemplar se faz presente em vários momentos, tanto nas obras quanto nos itens de design. Há um caráter escultórico nesse conjunto, como uma grande exposição, que traz um contexto artístico forte. Nosso papel como arquitetos foi criar uma harmonia na arquitetura para receber peças tão marcantes”, define Daniela.
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De volta ao quarto, a parede, revestida de tressê de camurça e seda da Nani Chinellato, leva quadro de Manabu Mabe – sobre a cama desenhada pela Suite Design, roupa da Makaya Home, e, aos pés do móvel, banco Rita, de Isabelle de Mari, da Olho Móveis Autorais
Fran Parente/divulgação
O cuidado do trio vai do macro aos detalhes: nem os interruptores escapam. “Esse projeto traz nosso olhar mais maduro em todas as esferas”, completa a autora. No balanço entre o novo e o antigo, a cartela de cores suave, a sintonia com um jardim alto e o sentirse em casa aparecem. Uma tapeçaria presenteada pelo pai, o retrato da mãe pintado, ambos em um espaço íntimo, revelam muito sobre a escolha de permanecer no apartamento, agora em nova atmosfera.
*Matéria originalmente publicada na edição de novembro/2025 da Casa Vogue (CV 478), disponível em versão impressa, na nossa loja virtual e para assinantes no app Globo Mais.
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