Em Nova York, irmãos restauram casas históricas sob princípios alemães de casa passiva

Leva um segundo para perceber o silêncio. Dentro de duas casas geminadas no Brooklyn, em Nova York, datadas da década de 1840 e restauradas de acordo com estratégias da chamada construção passiva, não se ouve um pio dos sistemas de ventilação – nem o barulho da rua. Embora a atmosfera seja de quietude, não há nada de discreto nessas residências, porém. Tal Schori e Rustam Mehta, amigos de infância e fundadores do GRT Architects, pisaram nelas pela primeira vez há sete anos, a pedido dos proprietários – irmão e irmã que compraram as moradas adjacentes para viver com suas respectivas famílias.
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No living da residência do irmão, o sofá revestido com tecido da Voutsa acompanha o lustre e as arandelas de Katie Stout, o tapete de Sophie Stone e os quadros de Daichi Takagi (à esq.) e Giovanni Battista Piranesi
Jason Schmidt | Estilo Mieke ten Have
O tempo não foi gentil com as estruturas de estilo neoclássico grego, que mudaram de mãos diversas vezes, e sofreram com abandono e perda de ornamentos. “Estavam caindo aos pedaços”, resume Tal, atraído pela perspectiva de projetar lares irmãos para moradores irmãos. Com fachada histórica sujeita a revisão rigorosa e uma meta ambiciosa de sustentabilidade, um projeto já complexo ficou ainda mais desafiador.
Nosso papel era entrelaçar o exterior histórico com o interior, confundir essa relação, misturá-la
O porão da residência homenageia Renzo Mongiardino
Jason Schmidt | Estilo Mieke ten Have
Se os exteriores estavam limitados a recriações fidedignas, os interiores ofereceram terreno para experimentação, com dois pavimentos em ambas as casas, janelas amplas e pé-direito altíssimo. “Nos dois lados, queríamos criar espaços que parecessem cheios de ar e luz, e ainda esculturalmente arrojados”, lembra Tal. Os padrões europeus de casas passivas – nos quais um invólucro construtivo hermeticamente fechado e um sistema de ventilação especializado reduzem a necessidade de aquecimento e resfriamento – guiaram o processo.
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O banheiro principal da casa do irmão é colorido por mural e mosaicos de Lukas Geronimas Giniotis, inspirados na música Tempest, de Bob Dylan
Jason Schmidt | Estilo Mieke ten Have
A suíte principal do irmão tem marcenaria com nicho de tecido da Xenomania e tapete de Sophie Stone
Jason Schmidt | Estilo Mieke ten Have
As arquiteturas dialogam, mas cada morada mantém suas particularidades no que diz respeito ao estilo. Ambas fazem uso inteligente de materiais de descarte, como o reaproveitamento da madeira das vigas no piso e nos degraus da escada ou dos tijolos na pavimentação do quintal. Mas as semelhanças terminam quando se trata da decoração: enquanto a irmã e sua esposa mobiliaram seus ambientes com a ajuda da Revamp Interior Design, o irmão e a mulher contrataram o designer de interiores Adam Charlap Hyman para compor os espaços onde vivem com os filhos pequenos. “Nosso papel era entrelaçar o exterior histórico com o interior, confundir essa relação, misturá-la”, diz Adam. “Esse mix de elementos de diferentes períodos se tornou a estrutura.”
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Outro banheiro da casa dele é revestido de azulejos rosados
Jason Schmidt | Estilo Mieke ten Have
A escada escultural leva à varanda
Jason Schmidt | Estilo Mieke ten Have
Na mesma morada, o quarto da filha recebeu papel de parede da Adelphi Paper Hangings e carpete da Codimat Collection by Carpet Society
Jason Schmidt | Estilo Mieke ten Have
Na casa do irmão, móveis vitorianos, contemporâneos à origem da residência, ajudaram a romper a barreira criativa. “Eles queriam algo que, embora não fosse uma releitura literal daquela época, tivesse um espírito de exuberância semelhante”, conta Adam. Por toda parte, há tesouros singulares e encantadores. Tapetes de retalhos da artista Sophie Stone se espalham pela sala de estar e pela suíte principal, ao passo que estampas personalizadas da Voutsa aparecem no sofá e no papel de parede da sala de jantar. Em outros lugares, há homenagens a Madeleine Castaing, Robert Mallet-Stevens e Renzo Mongiardino, entre outros grandes nomes de outrora.
Nos dois lados, queríamos criar espaços que parecessem cheios de ar e luz, e ainda esculturalmente arrojados
No living da irmã, sofás Le Bambole (à esq.), design Mario Bellini, e Ray, design Antonio Citterio, ambos para a B&B Italia, tapete Tree & Cloud, de Joseph Carini, da Carini Carpets, e tela de Khari Turner (ao centro)
Jason Schmidt | Estilo Mieke ten Have
A sala de jantar da casa da irmã exibe as vigas transformadas em degraus da escada central – sobre a mesa, pendentes Momentum, do Studio Alex de Witte
Jason Schmidt | Estilo Mieke ten Have
Na casa da irmã, tijolos recuperados das construções originais foram inseridos na pavimentação do quintal
Jason Schmidt | Estilo Mieke ten Have
A literatura também serviu como ponto de contato, dos romances de Edith Wharton à obra de Gertrude Stein. “Foi um projeto grande, com muitas reviravoltas, mas divertido”, avalia Adam. “Esses clientes são supercriativos, com a mente aberta e aventureiros, donos de uma apreciação real pela beleza, pela estranheza e por coisas muito especiais com histórias interessantes.”
Em nenhum lugar isso fica mais evidente do que no banheiro do casal, onde um mural e mosaicos de Lukas Geronimas Giniotis reproduzem a música Tempest, de Bob Dylan, uma das favoritas dos moradores de espírito livre. “Foi um tour de force de todas as equipes”, admite Adam sobre a colaboração criativa e técnica entre designers, arquitetos, construtores e artesãos. No fim das contas, reflete Tal, “nosso objetivo era criar um lugar totalmente único para ambas as famílias”. Missão cumprida.
Tradução: Adriana Mori
*Matéria originalmente publicada na edição de outubro/2025 da Casa Vogue (CV 477), disponível em versão impressa, na nossa loja virtual e para assinantes no app Globo Mais.

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