Entre fios e tijolos: como resíduos têxteis ganham nova vida na construção civil

A indústria da moda acumula, ao longo dos anos, um grande volume de resíduos têxteis, o que tem intensificado debates sobre o destino desse material, seu impacto ambiental e a responsabilidade produtiva do setor. Paralelamente, a construção civil — historicamente marcada pelo alto consumo de recursos naturais — surge como território estratégico para absorver parte desses resíduos e transformá-los em novos produtos.
Uma pesquisa desenvolvida em parceria entre o Instituto Denim Brasil e o Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes) prevê o aproveitamento de resíduos têxteis industriais da moda como insumos para a construção civil
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“Embora seja uma das maiores geradoras de impactos ambientais, a construção civil tende a continuar em expansão e, com isso, abre espaço para transformar resíduos em recursos”, aponta a professora Giusilene Pinho, do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes), especialista em Economia Circular. “A abundância de resíduos têxteis em diversas partes do mundo torna seu aproveitamento na construção uma alternativa promissora para impulsionar a sustentabilidade no setor.”
Ainda segundo a pesquisadora, a lógica é direta: materiais que hoje iriam para aterros passam a integrar novos ciclos produtivos, reduzindo tanto o volume de descarte quanto a extração de matéria‑prima virgem. “A incorporação desses resíduos ajuda a reduzir o impacto ambiental ao reutilizar materiais que, de outra forma, seriam descartados”, ela afirma.
O processo de transformar resíduos têxteis em material de construção civil passa pelo chamado design circular, que considera todo o ciclo de vida do produto desde a sua concepção
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Do design circular ao desempenho técnico
Transformar resíduos têxteis em materiais construtivos vai além da simples reciclagem de fibras: envolve o chamado design circular, que considera todo o ciclo de vida do produto desde sua concepção.
“Na indústria têxtil, o processo de criação precisa contemplar todos os ciclos de vida, incluindo novos usos em outras áreas, como a construção civil”, diz Giusilene. Isso significa pensar desde o início em reciclabilidade, rastreabilidade da cadeia de valor e compatibilidade com normas técnicas.
A economia circular surge como alternativa estratégica para aproximar a indústria da moda e a da construção civil — dois dos setores mais impactantes do planeta
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As características dos tecidos — como composição, resistência e comportamento térmico ou acústico — determinam as possibilidades de aplicação. “As exigências técnicas do produto final é que vão orientar quais tipos de resíduos têxteis podem ser utilizados”, resume a pesquisadora.
Pesquisas internacionais já indicam bons resultados no uso de fibras têxteis recicladas para isolamento térmico e acústico, além de aplicações em matrizes cimentícias, poliméricas e cerâmicas. “Os resultados têm se mostrado promissores, e muitos estudos também avaliam o desempenho ambiental ao longo de todo o ciclo de vida desses materiais”, ela completa.

Na comparação com outros países, o Brasil dá passos tímidos. “Ainda estamos no jardim de infância”, avalia Giusilene. “Precisamos avançar em incentivos à simbiose industrial, aproveitando as sinergias regionais existentes.”
A professora cita exemplos de polos de moda no Espírito Santo que poderiam se beneficiar de políticas voltadas à criação de novas indústrias conectadas à construção civil. Para ela, a economia circular exige uma mudança de perspectiva: o gerenciamento de resíduos passa a ser entendido como gerenciamento de recursos. “Nada se perde, tudo se transforma”, ela comenta.
No Brasil, cerca de 4 milhões de toneladas de resíduos têxteis são descartados anualmente — o que representa, em média, aproximadamente 800 kg por pessoa
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Experiências internacionais ajudam a apontar caminhos. Países como a Finlândia investem fortemente em pesquisa e inovação, enquanto estudos sobre o jeans mostram que o material pode passar por múltiplos ciclos — primeiro como vestuário e, depois, como componente de produtos construtivos, a exemplo de blocos, cobogós, revestimentos e placas de isolamento.
Isso é importante, pois, segundo dados do mercado global de jeans, em 2026 a estimativa de produção é de aproximadamente US$ 59 bilhões. Ou seja, quanto mais peças, mais resíduos.
O Instituto Denim Brasil acompanha, há alguns anos, diferentes movimentos nacionais e internacionais voltados à transformação de resíduos têxteis em objetos ligados à arquitetura, ao design e à construção
Instituto Denim Brasil/Divulgação
No Brasil, um relatório do Inteligência de Mercado (Iemi) apontou que, em 2023, a produção de jeans foi estimada em cerca de 272 milhões de peças. É nesse contexto que surgiu o diálogo entre o Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes) e o Instituto Denim Brasil, que alinham a construção de um acordo de cooperação técnica.
De acordo com Orivan Baptista, responsável pelo instituto, a proposta busca ir além da criação de objetos decorativos ou experimentais, abrindo caminho para aplicações mais consistentes e estratégicas. “O caráter inovador do projeto está na possibilidade inédita de criar objetos voltados à construção civil, especialmente blocos construtivos, a partir de resíduos têxteis, considerando escala industrial, desempenho técnico e aplicação prática”, ele afirma.
Materiais que antes teriam como destino os aterros passam a integrar novos ciclos produtivos, reduzindo não apenas o volume de descarte, mas também a necessidade de extração de matéria‑prima virgem
Instituto Denim Brasil/Divulgação
Para Orivan, a proposta atende a uma demanda ambiental urgente da indústria da moda, historicamente marcada pela poluição, e enfrenta um desafio concreto do setor produtivo: o custo do resíduo. “Transformá‑lo em insumo reduz despesas, garante uma destinação ambientalmente adequada e gera um novo produto com valor econômico, social e ambiental”, coloca.
O projeto inicou com um grupo piloto formado por 12 empresários do polo têxtil capixaba, que representam diferentes perfis da indústria e servirão como base para futuras expansões. A expectativa é que, após a consolidação dos resultados técnicos, o conhecimento seja compartilhado com outros polos do país. “O polo reúne mais de 400 indústrias, mas o grupo de 12 empresários — que inclui empresas de commodity, básico, private label, facções e marcas próprias — oferece ao Ifes um retrato fiel do ecossistema produtivo regional”, fala Orivan.

Além do desenvolvimento de novos materiais, o acordo prevê que o Instituto Denim assuma a responsabilidade de documentar e sistematizar o conhecimento gerado, criando uma base técnica acessível a engenheiros, arquitetos, designers, pesquisadores e ao poder público. Também estão previstas ações voltadas à prevenção e redução de resíduos na origem, com programas de formação direcionados a profissionais da cadeia da moda.
Benefícios ambientais e sociais
Do ponto de vista ambiental, os ganhos são evidentes: menos resíduos em aterros, menor pressão sobre recursos naturais e estímulo à economia circular. Mas os impactos vão além. “A utilização dessa matéria‑prima circular não só reduz o descarte como também promove inovação e pode gerar empregos em novas indústrias”, ressalta a professora Giusilene. Para ela, há potencial de crescimento econômico a partir da criação de novos modelos de negócios.
Ainda assim, os desafios permanecem significativos. Para que essas soluções avancem além da fase de pesquisa, é necessário investimento contínuo, inovação e revisão de políticas públicas que ainda privilegiam o modelo linear de produção. “Governo, empresas e sociedade precisam atuar conjuntamente em direção a um modelo de produção circular”, ela defende.

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