Na época em que aceitou a missão de transformar a edificação retilínea, com laje de concreto e ares modernos, numa casa de praia descontraída e acolhedora para a família de um empresário do setor da sustentabilidade, a arquiteta Veronica Molina andava com o livro Moradas do Brasil (DBA Artes Gráficas, 2008, 129 págs.) a tiracolo. O exemplar – publicação inspiradora, rica em imagens – esmiuçava uma série de projetos de construções tipicamente brasileiras, de norte a sul. Nada melhor para enriquecer o léxico da colombiana radicada em São Paulo, que começava a decifrar a tarefa assumida havia pouco como uma oportunidade de mergulhar no universo das soluções espontâneas e artesanais consagradas nas moradias características do nosso litoral.
“Embora fosse pé na areia, o imóvel recém-adquirido parecia muito urbano e poderia estar em qualquer cidade grande. Como o cliente gosta de surfar e tem enorme apreço pela natureza, sugeri imprimir uma linguagem mais pescadora, caiçara”, conta a líder do Memola Estúdio de Arquitetura, que iniciou os trabalhos na casa em 2019 em parceria com o antigo sócio, Vitor Penha (integrante do Casa Vogue 50).
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Vai construir ou reformar? Seleção Archa + Casa Vogue ajuda você a encontrar o melhor arquiteto para o seu projeto
A casa tem varandas com guarda-corpos de alvenaria na frente e nos fundos, sob telhado de duas águas, erguido com toras de eucalipto – a verga sobre a janela foi replicada em todas as esquadrias de madeira
Fran Parente
Um exame detalhado das condições locais ajudou a delinear os caminhos da reforma, que ao fim transformou (com baixo impacto e pouca demolição) os 404 m² preexistentes em algo muito mais singelo e caloroso. Esse olhar começou pela paisagem da Praia de Taguaíba, na cidade de Guarujá, SP, quase impositiva: o entorno compreendia montanhas ao fundo, Mata Atlântica de uma reserva próxima, praia com areia fofa e mar verdejante à frente. Ou seja, conectar-se ao cenário exuberante era inegociável, reassegurou-se Veronica, enquanto elaborava o projeto e pensava numa paleta de materiais orgânicos e sustentáveis.
+ Brasileiríssima, casa de vila preserva memórias do interior no meio da cidade
O living ostenta estrutura de pedra bruta e rede elétrica aparente com canaletas pintadas na mesma cor das paredes e dos pilares – no mobiliário, sofá da Clami, ladeado por abajur de Flavia Del Pra, mesa de centro da Poeira Design e poltrona Jangada, de Jean Gillon
Fran Parente
O corredor é banhado de luz natural
Fran Parente
+ Ode ao moderno: a casa do gastrônomo João Grinspum Ferraz, em São Paulo
Como o condomínio fechado onde fica a casa seguia regras visando minimizar o impacto ambiental (como a exigência de tratamento para os resíduos e o rigor quanto à área construída, por exemplo), a equipe de arquitetura propôs aumentar os espaços sociais apenas ocupando a velha varanda e acrescentando um pergolado com churrasqueira no térreo: desse modo, seria possível ainda expandir os quartos no primeiro andar. Para além do layout, outras medidas contribuíram significativamente para a transformação radical, a começar pela troca da cobertura plana de concreto por um telhado cerâmico com manta termoacústica e estrutura de eucalipto oriundo de reflorestamento – primeira decisão com apelo notadamente sustentável. O pé-direito alto surgido nesse redesenho também contribui para o desempenho térmico, já que o ar quente sobe para o teto nos ambientes ampliados.
Praticamente não restou concreto na casa. agora mais singela e acolhedora, é como um convite à permanência em meio à natureza
A cozinha é dotada de bancada com plaquetas cerâmicas, arandelas da Geo Cerâmica (ao fundo) e DK Luminárias (à esq.) e cadeiras de Carlos Motta
Fran Parente
No living, armário e baú da Galeria Franchi figuram sobre o assoalho de peroba-rosa de demolição
Fran Parente
+ La dolce vita do sul da Itália permeia casa com praia particular
Do repertório bioclimático veio ainda a trama de biribinhas que protege o novo pergolado – a distância ideal entre as taquaras foi decidida após testes com amostras de diferentes níveis de sombreamento. Numerosas aberturas, inclusive as zenitais instaladas no alto dos banheiros, trataram de promover a ventilação cruzada e encher a casa de claridade – e até permitem ver o céu durante a ducha. Caixilhos de alumínio cederam lugar a portas de correr de cumaru fabricadas com qualidade técnica e aspecto orgânico. Pedra natural e madeira de demolição despontaram em divisórias, forros e pisos.
A poesia das típicas casas de praia brasileiras coube num contexto sustentável e de mais conforto, sem excessos nem parafernálias
A suíte principal exibe marcenaria desenhada por Veronica Molina, executada com madeira de demolição
Fran Parente
O banheiro do casal inclui banheira de pedra-sabão, metais da Deca e divisória de alvenaria curva
Fran Parente
O quarto de hóspedes, que também faz as vezes de sala de TV, tem forro de madeira com manta termoacústica e ventilador de teto da Vent Decor
Fran Parente
Um ponto de inflexão apareceu na hora de planejar a iluminação, composta de lustres e arandelas – pouco numerosos e de baixo consumo energético – conectados por meio de canaletas aparentes. Questionada se o visual industrial comprometeria a referência caiçara, a arquiteta explicou ao cliente que rasgar as paredes para embutir a fiação exigiria utilizar peças plásticas e ainda geraria entulho, enquanto a tubulação à mostra, pintada na cor das divisórias, não chamaria a atenção.
+ Guá Arquitetura cria moradia permeada por cultura e artesanato locais em Belém
Na entrada da residência, figura a poltrona Tajá, de Sergio Rodrigues
Fran Parente
Na área externa, a poltrona de balanço Turim, design Rodrigo Karam para a Lovato, repousa à beira-mar
Fran Parente
Ao fim da obra, conduzida durante a pandemia de covid-19, a área externa assumiu o protagonismo. Placas de pedra moledo (refugo de granito) forraram parte do jardim – o paisagismo com espécies nativas leva a assinatura de Rodrigo Oliveira. O mesmo granito revestiu a piscina, definindo uma lâmina d’água da tonalidade do mar, sem exageros nem cores artificiais. Estava em pauta a tão almejada verdade dos materiais, outro princípio norteador do projeto, que veta componentes fake, réplicas e imitações. “A gente procurou um equilíbrio sutil entre elementos com tecnologia incorporada – necessários para garantir conforto e funcionalidade – e outros mais ‘espontâneos’, rústicos”, esclarece Veronica. “O bem-estar precisava estar assegurado. Mas a sensação de tudo exato e certinho, de exercermos controle total sobre a natureza, tinha que desaparecer tão logo se entrasse pela casa, escutasse o mar e avistasse a paisagem, entregando-se a esse outro universo.”
*Matéria originalmente publicada na edição de outubro/2025 da Casa Vogue (CV 477), disponível em versão impressa, na nossa loja virtual e para assinantes no app Globo Mais.
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“Embora fosse pé na areia, o imóvel recém-adquirido parecia muito urbano e poderia estar em qualquer cidade grande. Como o cliente gosta de surfar e tem enorme apreço pela natureza, sugeri imprimir uma linguagem mais pescadora, caiçara”, conta a líder do Memola Estúdio de Arquitetura, que iniciou os trabalhos na casa em 2019 em parceria com o antigo sócio, Vitor Penha (integrante do Casa Vogue 50).
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Um exame detalhado das condições locais ajudou a delinear os caminhos da reforma, que ao fim transformou (com baixo impacto e pouca demolição) os 404 m² preexistentes em algo muito mais singelo e caloroso. Esse olhar começou pela paisagem da Praia de Taguaíba, na cidade de Guarujá, SP, quase impositiva: o entorno compreendia montanhas ao fundo, Mata Atlântica de uma reserva próxima, praia com areia fofa e mar verdejante à frente. Ou seja, conectar-se ao cenário exuberante era inegociável, reassegurou-se Veronica, enquanto elaborava o projeto e pensava numa paleta de materiais orgânicos e sustentáveis.
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O living ostenta estrutura de pedra bruta e rede elétrica aparente com canaletas pintadas na mesma cor das paredes e dos pilares – no mobiliário, sofá da Clami, ladeado por abajur de Flavia Del Pra, mesa de centro da Poeira Design e poltrona Jangada, de Jean Gillon
Fran Parente
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Como o condomínio fechado onde fica a casa seguia regras visando minimizar o impacto ambiental (como a exigência de tratamento para os resíduos e o rigor quanto à área construída, por exemplo), a equipe de arquitetura propôs aumentar os espaços sociais apenas ocupando a velha varanda e acrescentando um pergolado com churrasqueira no térreo: desse modo, seria possível ainda expandir os quartos no primeiro andar. Para além do layout, outras medidas contribuíram significativamente para a transformação radical, a começar pela troca da cobertura plana de concreto por um telhado cerâmico com manta termoacústica e estrutura de eucalipto oriundo de reflorestamento – primeira decisão com apelo notadamente sustentável. O pé-direito alto surgido nesse redesenho também contribui para o desempenho térmico, já que o ar quente sobe para o teto nos ambientes ampliados.
Praticamente não restou concreto na casa. agora mais singela e acolhedora, é como um convite à permanência em meio à natureza
A cozinha é dotada de bancada com plaquetas cerâmicas, arandelas da Geo Cerâmica (ao fundo) e DK Luminárias (à esq.) e cadeiras de Carlos Motta
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No living, armário e baú da Galeria Franchi figuram sobre o assoalho de peroba-rosa de demolição
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A poesia das típicas casas de praia brasileiras coube num contexto sustentável e de mais conforto, sem excessos nem parafernálias
A suíte principal exibe marcenaria desenhada por Veronica Molina, executada com madeira de demolição
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O banheiro do casal inclui banheira de pedra-sabão, metais da Deca e divisória de alvenaria curva
Fran Parente
O quarto de hóspedes, que também faz as vezes de sala de TV, tem forro de madeira com manta termoacústica e ventilador de teto da Vent Decor
Fran Parente
Um ponto de inflexão apareceu na hora de planejar a iluminação, composta de lustres e arandelas – pouco numerosos e de baixo consumo energético – conectados por meio de canaletas aparentes. Questionada se o visual industrial comprometeria a referência caiçara, a arquiteta explicou ao cliente que rasgar as paredes para embutir a fiação exigiria utilizar peças plásticas e ainda geraria entulho, enquanto a tubulação à mostra, pintada na cor das divisórias, não chamaria a atenção.
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Fran Parente
Na área externa, a poltrona de balanço Turim, design Rodrigo Karam para a Lovato, repousa à beira-mar
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Ao fim da obra, conduzida durante a pandemia de covid-19, a área externa assumiu o protagonismo. Placas de pedra moledo (refugo de granito) forraram parte do jardim – o paisagismo com espécies nativas leva a assinatura de Rodrigo Oliveira. O mesmo granito revestiu a piscina, definindo uma lâmina d’água da tonalidade do mar, sem exageros nem cores artificiais. Estava em pauta a tão almejada verdade dos materiais, outro princípio norteador do projeto, que veta componentes fake, réplicas e imitações. “A gente procurou um equilíbrio sutil entre elementos com tecnologia incorporada – necessários para garantir conforto e funcionalidade – e outros mais ‘espontâneos’, rústicos”, esclarece Veronica. “O bem-estar precisava estar assegurado. Mas a sensação de tudo exato e certinho, de exercermos controle total sobre a natureza, tinha que desaparecer tão logo se entrasse pela casa, escutasse o mar e avistasse a paisagem, entregando-se a esse outro universo.”
*Matéria originalmente publicada na edição de outubro/2025 da Casa Vogue (CV 477), disponível em versão impressa, na nossa loja virtual e para assinantes no app Globo Mais.
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