Um arquiteto que não apenas desenhava edifícios, mas espaços para a vida: Fábio Moura Penteado (1929-2011) foi o visionário brasileiro por trás do conceito de “Arquitetura da Multidão”. Sua filosofia defendia um urbanismo e design centrado nas pessoas, que integrasse a cultura de forma orgânica e moldasse a vida coletiva. A seguir, saiba mais sobre sua trajetória e principais projetos.
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A origem de Fábio Penteado
Nascido em Campinas, SP, Fábio pertencia à tradicional família Penteado, conhecida por sua influência na sociedade paulista. Era filho de Joaquim Gabriel Penteado — industrial que fundou a fábrica de fogões Dako e foi sócio de uma fábrica de lápis — e de Maria Antonieta.
Em 1935, quando ele tinha aproximadamente seis anos, a família se mudou de Campinas para o bairro de Higienópolis, na capital paulista. A exposição ao contexto social e cultural do novo local moldou sua percepção e interesse iniciais por arquitetura e urbanismo, que fundamentariam sua carreira futura.
Maquete do Monumento da Vitória de Cuba em Playa Giron, 1962, projetada por Fábio Penteado
Arquivo Fábio Penteado/Divulgação
Início da vida profissional e conquistas
Fábio entrou na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Mackenzie em 1948 e concluiu o curso em 1953. No ano seguinte, inaugurou seu escritório e foi agraciado com o Prêmio Governador do Estado no 3º Salão Paulista de Arte Moderna, pelo projeto da Estação de Tratamento de Água para o ABC, em São Bernardo do Campo, desenvolvido em parceria com o arquiteto nipo-brasileiro Ringo Kubota e o arquiteto ioguslavo Stipan Milicic.
“Inquietude foi a marca de Fábio, que via em qualquer concurso de arquitetura ou encomenda, uma possibilidade de experimentar e colocar em prática ideias que não cabiam nas caixinhas convencionais de escolas e grupos”, declara Paulo Markun, jornalista, escritor e grande amigo do arquiteto.
Em 1956, Fábio transferiu seu escritório para a sede do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB/SP), onde permaneceu por 45 anos. Esse período abarcou a maior parte de sua carreira e refletiu seu forte compromisso com a instituição. “Arquitetura, para ele, não era projetar palácios e residências para reis e príncipes de antigamente ou da atualidade, mas atacar de frente os desafios de habitação, transporte, saneamento, áreas verdes, espaços culturais e etc.”, destaca Paulo.
A maquete da Estação de Tratamento de Água do ABC demonstra a integração entre a funcionalidade da infraestrutura e a estética modernista
Arquivo Fábio Penteado/Divulgação
O paulista presidiu a Direção Nacional do IAB de 1966 a 1968. Na sequência, entre 1969 e 1975, exerceu o cargo de vice-presidente da União Internacional dos Arquitetos (UIA). Anos depois, em reconhecimento à sua vasta contribuição à profissão, foi o patrono do XIV Congresso Brasileiro de Arquitetos (CBA) em 1991.
Sua atuação continuou intensa e, em 1993, presidiu a 2ª Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo, e no ano seguinte, assumiu a presidência do IAB-SP.
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e
Carreira multifacetada
A contribuição de Fábio ultrapassou a arquitetura, abrangendo o ensino e o jornalismo, unindo a prática arquitetônica ao ativismo, à docência e à escrita. Ele lecionou desenho na Mackenzie de 1961 até abril de 1964, mas sua carreira docente foi interrompida após o golpe militar por causa de suas posições políticas progressistas e da defesa da arquitetura humanista.
Paralelamente a essas atividades, ele atuou como jornalista, sendo inclusive editor da seção de arquitetura da revista Visão (entre 1956 e 1962), e colaborou fazendo artigos para a Folha de S.Paulo. Além disso, participou da fundação da Revista PROJETO.
O arquiteto Fábio Penteado, atuando como jornalista e editor da revista Visão, tinha como principal objetivo debater e refletir sobre a arquitetura e o urbanismo no Brasil
Arquivo Fábio Penteado/Divulgação
Sua atuação em organizações como o IAB e a UIA foi marcada pela defesa dos concursos públicos como método democrático de seleção de projetos. Essa visão pioneira e demanda histórica pela criação de uma entidade profissional exclusiva para arquitetos culminou na fundação do Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU) em 2010, por meio da Lei nº 12.378.
“Fábio nunca trombeteou sua militância e dava pouco destaque a atos de coragem e ousadia que teve como jornalista de arquitetura, dirigente de entidades ou autor de projetos. Mas sempre teve lado, o dos perseguidos e o dos ignorados pelos poderes”, conta Paulo.
O projeto para um grande Teatro de Ópera em Campinas nunca foi construído, mas é reconhecido como uma importante peça do legado arquitetônico de Fábio Penteado
Arquivo Fábio Penteado/Divulgação
Ainda de acordo com o jornalista, o arquiteto tentou incentivar as escolas a usarem projetos icônicos como estudo de caso, para que novos profissionais pudessem construir sobre o conhecimento existente.
Principais projetos
As obras de Fábio são caracterizadas pela “Arquitetura da Multidão”, focada na concepção coletivista e na valorização do espaço público para promover a interação social e o convívio. Ele valorizava a integração com a natureza e a arquitetura cívica, alinhando-se à Escola Paulista ao buscar fluidez entre o construído e o urbano, utilizando o concreto para humanizar os espaços.
“Esse aspecto da linguagem da Escola Paulista aparece em muitas obras, como no Centro de Convivência de Campinas, ou no Clube Harmonia, que funciona como sede social. O mesmo se aplica ao Hospital Escola Júlio Mesquita Filho, que hoje é o fórum criminal de São Paulo”, pontua Guilherme Wisnik, arquiteto, crítico e professor na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP).
O projeto do Parque dos Anciãos, de 1968, planejado para a comunidade e o lazer em Campinas, demonstra a preocupação do arquiteto com o planejamento urbano, mas infelizmente não foi construído
Arquivo Fábio Penteado/Divulgação
Para além de suas obras executadas, o arquiteto elaborou vastas propostas que permaneceram no campo das ideias. Esse legado não construído tem sido objeto de aprofundamento em pesquisas acadêmicas. “Infelizmente, poucos projetos de Fábio se concretizaram e sua visão, que muitos de seus colegas consideravam pessimista, acabou hoje sendo entendida como realismo”, acredita Paulo.
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A carreira de Fábio reflete uma abordagem singular e autêntica, notável tanto em projetos de grande escala e transformações urbanísticas quanto em residências. O uso do concreto e a fluidez dos espaços, sempre com foco na adequação ao usuário e na conexão com o espaço público, são suas marcas registradas. Abaixo, confira os projetos emblemáticos que materializam essa filosofia humanista do arquiteto:
Sociedade Harmonia de Tênis
Localizado no bairro Jardim América, na Zona Oeste de São Paulo, o projeto do clube Sociedade Harmonia de Tênis nasceu de um concurso realizado em 1957, vencido pela equipe do arquiteto em parceria com Alfredo Paesani e Teru Tamaki. A nova sede social foi concluída e inaugurada em 1964, recebendo posteriormente a medalha de ouro na Exposição Internacional de Praga, na República Tcheca.
Os salões e áreas comuns do edifício da Sociedade Harmonia de Tênis são destinados ao convívio social e eventos do clube, além de darem acesso às quadras de tênis e outras comodidades
Arquivo Fábio Penteado/Divulgação
O edifício é considerado uma obra representativa da vanguarda da arquitetura moderna brasileira, especificamente da Escola Paulista. Seu amplo vão livre e a imponente grelha de concreto que cobria toda a extensão do clube foram características marcantes da arquitetura daquele período. “Trata-se de uma estrutura de grande porte, com laje nervurada de concreto armado”, afirma Guilherme.
“O Harmonia pode ser cruzado, da porta de entrada até a beira da piscina, sem qualquer bloqueio, com espaços e ambientes delineados por planos e recortes no terreno, sob a mesma cobertura”, acrescenta Paulo.
Centro de Convivência Cultural de Campinas
O Centro de Convivência Cultural de Campinas “Carlos Gomes”, localizado no bairro Cambuí, reflete a influência do movimento moderno e a concepção de praça pública integrada ao edifício. Projetado em 1967, o conjunto arquitetônico teve como referência propostas anteriores do autor para concursos — o Monumento à Fundação de Goiânia (1965) e o Teatro de Ópera’ de Campinas (1966). A síntese dessas ideias resultou na obra final, inaugurada em 1976.
Décadas depois, o complexo passou por um amplo processo de revitalização. Em 2018, o Estado destinou R$ 40 milhões para a reforma e, em 2023, a Prefeitura concluiu a primeira fase das obras como parte das celebrações dos 250 anos da cidade. Em 10 de julho de 2025, a obra foi oficialmente entregue, somando R$ 62,4 milhões em investimentos. A segunda etapa, avaliada em R$ 38,9 milhões, modernizou e automatizou os sistemas cênicos, de iluminação e áudio.
A foto aérea destaca a integração do Centro de Convivência Cultural com a cidade de Campinas, sendo considerado um marco da arquitetura moderna campineira, projetado para promover a apropriação do espaço pela população e o acesso universal à cultura
Arquivo Fábio Penteado/José Moscardi/Divulgação
“É uma obra icônica por ser um grande complexo público de concreto voltada para o uso coletivo, como um anfiteatro e praça, com salas para espetáculos e concertos em um volume semiescavado. É um grande equipamento de cultura e de infraestrutura de Campinas que ficou anos fechado e agora está reabrindo”, comenta Guilherme.
Depois da reinauguração, foram realizados eventos-piloto entre outubro e novembro, a fim de preparar o local para a programação oficial prevista para 2026. O propósito era verificar os equipamentos e aprimorar a infraestrutura antes da inauguração total ao público.
Conjunto Habitacional Zezinho Magalhães Prado (CECAP)
O Conjunto Habitacional Zezinho Magalhães Prado (CECAP), situado no atual bairro Parque Cecap, em Guarulhos, ocupa uma área vasta. Representa um marco fundamental na habitação social e na arquitetura moderna paulistana. Reconhecido como um dos conjuntos habitacionais mais importantes do país, o projeto do complexo, embora encomendado a Vilanova Artigas, contou com a colaboração de Fábio Penteado e Paulo Mendes da Rocha.
O Conjunto Habitacional Zezinho Magalhães Prado se destaca pelo uso de pilotis para criar espaços de lazer no térreo e pela flexibilidade dos apartamentos, que podiam ter seu layout interno alterado por meio de divisórias leves
Arquivo Fábio Penteado/Divulgação
Sua construção, que ocorreu entre 1967 e 1972 sob encomenda da antiga Caixa Estadual de Casas para o Povo (CECAP), adota o estilo brutalista, caracterizado pelo uso de concreto aparente e a valorização da estrutura. A obra se diferencia de outros projetos da época por não apresentar uma estrutura monolítica; em vez disso, utiliza um sistema de paredes portantes pré-moldadas.
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O projeto ultrapassou as soluções estruturais tradicionais ao incorporar inovações tecnológicas na construção, criando um modelo distinto e eficiente de acesso aos apartamentos. Concebido como uma ‘cidade’ planejada, com espaços destinados ao convívio social e ao comércio, o empreendimento também privilegiou amplas áreas verdes e baixa densidade de ocupação em relação ao terreno.
Hospital-Escola Júlio de Mesquita Filho (Santa Casa da Misericórdia)
O edifício do Hospital-Escola da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, projetado entre 1968 e 1978, embora concebido com a ideia de ser um hospital-escola, não chegou a funcionar como uma unidade hospitalar de fato. O projeto seguia os preceitos modernistas, buscando soluções funcionais e eficientes para um complexo que visava integrar saúde e ensino.
Área interna do Hospital-Escola durante sua construção, que retrata uma abordagem de arquitetura mais cívica e coletiva, quebrando a rigidez e o confinamento típicos dos edifícios hospitalares tradicionais
Arquivo Fábio Penteado/Divulgação
“Essa edificação apresenta um grande volume, com arcos esqueléticos de concreto aparente e arcos abatidos, além de rampas e iluminação zenital, compondo um grande léxico da arquitetura da Escola Paulista”, detalha Guilherme. Fábio liderou uma equipe de arquitetos nesse empreendimento, incluindo Eduardo de Ameida, Teru Tamaki, Alfredo Paesani, Luiz A. Valandro Keating, e outros, o que evidencia a complexidade e a abrangência da obra.
Graves dificuldades financeiras e a inviabilidade de aquisição dos equipamentos médicos necessários impediram a sua conclusão como hospital. Na década de 1990, a Santa Casa decidiu vender o prédio inacabado para o governo do Estado de São Paulo, e, em vez de continuar o projeto hospitalar, converteu-o para abrigar o Complexo Judiciário Ministro Mário Guimarães, que é hoje o maior fórum criminal da América Latina.
Legado de Fábio Penteado
Existe um acervo de materiais que guarda a vida e a obra do arquiteto. “O Arquivo Fábio Penteado possui em torno de 12 mil documentos. Em 2018, doamos todos os originais do projeto do Centro de Convivência de Campinas para a Casa de Arquitectura, em Portugal, gerando uma importante parceria entre as duas instituições”, revela Adriana Moura Penteado, filha do arquiteto e responsável pela gestão do acervo e divulgação do material.
O legado de Fábio Penteado é redescoberto e celebrado em publicações e exposições que ressaltam a atemporalidade de sua visão arquitetônica
Thomaz Farkas/Divulgação
A memória e a contribuição de Fábio também são mantidas vivas por meio de exposições, como a mostra Fábio Penteado: Pétalas e Estrelas, em cartaz no Centro de Convivência de Campinas até 21 de março de 2026.
“Acredito que as obras e os pensamentos contemporâneos de Fábio, que sempre questionou os modelos urbanos e a necessidade de se projetar para multidões, podem ser valiosos para o estudo e os desafios profissionais que os jovens estudantes de arquitetura enfrentarão”, ela considera.
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Guilherme defende que a contemporaneidade da obra de Fábio reside na influência do organicismo, seu aspecto mais original e antecipatório. Nesse estilo, as formas irregulares e centrípetas permitem a transformação simultânea entre arquitetura e paisagem.
“Hoje, fala-se muito em arquiteturas topográficas, que buscam soluções na forma do terreno e no contexto da ampliação da cultura, assim como na discussão sobre a emergência climática de uma arquitetura que se integra ao paisagismo. Acho que ele fez isso de maneira pioneira no Brasil dos anos 1960 e 1970, e essa abordagem está muito em voga atualmente”, analisa o professor.
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A origem de Fábio Penteado
Nascido em Campinas, SP, Fábio pertencia à tradicional família Penteado, conhecida por sua influência na sociedade paulista. Era filho de Joaquim Gabriel Penteado — industrial que fundou a fábrica de fogões Dako e foi sócio de uma fábrica de lápis — e de Maria Antonieta.
Em 1935, quando ele tinha aproximadamente seis anos, a família se mudou de Campinas para o bairro de Higienópolis, na capital paulista. A exposição ao contexto social e cultural do novo local moldou sua percepção e interesse iniciais por arquitetura e urbanismo, que fundamentariam sua carreira futura.
Maquete do Monumento da Vitória de Cuba em Playa Giron, 1962, projetada por Fábio Penteado
Arquivo Fábio Penteado/Divulgação
Início da vida profissional e conquistas
Fábio entrou na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Mackenzie em 1948 e concluiu o curso em 1953. No ano seguinte, inaugurou seu escritório e foi agraciado com o Prêmio Governador do Estado no 3º Salão Paulista de Arte Moderna, pelo projeto da Estação de Tratamento de Água para o ABC, em São Bernardo do Campo, desenvolvido em parceria com o arquiteto nipo-brasileiro Ringo Kubota e o arquiteto ioguslavo Stipan Milicic.
“Inquietude foi a marca de Fábio, que via em qualquer concurso de arquitetura ou encomenda, uma possibilidade de experimentar e colocar em prática ideias que não cabiam nas caixinhas convencionais de escolas e grupos”, declara Paulo Markun, jornalista, escritor e grande amigo do arquiteto.
Em 1956, Fábio transferiu seu escritório para a sede do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB/SP), onde permaneceu por 45 anos. Esse período abarcou a maior parte de sua carreira e refletiu seu forte compromisso com a instituição. “Arquitetura, para ele, não era projetar palácios e residências para reis e príncipes de antigamente ou da atualidade, mas atacar de frente os desafios de habitação, transporte, saneamento, áreas verdes, espaços culturais e etc.”, destaca Paulo.
A maquete da Estação de Tratamento de Água do ABC demonstra a integração entre a funcionalidade da infraestrutura e a estética modernista
Arquivo Fábio Penteado/Divulgação
O paulista presidiu a Direção Nacional do IAB de 1966 a 1968. Na sequência, entre 1969 e 1975, exerceu o cargo de vice-presidente da União Internacional dos Arquitetos (UIA). Anos depois, em reconhecimento à sua vasta contribuição à profissão, foi o patrono do XIV Congresso Brasileiro de Arquitetos (CBA) em 1991.
Sua atuação continuou intensa e, em 1993, presidiu a 2ª Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo, e no ano seguinte, assumiu a presidência do IAB-SP.
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e
Carreira multifacetada
A contribuição de Fábio ultrapassou a arquitetura, abrangendo o ensino e o jornalismo, unindo a prática arquitetônica ao ativismo, à docência e à escrita. Ele lecionou desenho na Mackenzie de 1961 até abril de 1964, mas sua carreira docente foi interrompida após o golpe militar por causa de suas posições políticas progressistas e da defesa da arquitetura humanista.
Paralelamente a essas atividades, ele atuou como jornalista, sendo inclusive editor da seção de arquitetura da revista Visão (entre 1956 e 1962), e colaborou fazendo artigos para a Folha de S.Paulo. Além disso, participou da fundação da Revista PROJETO.
O arquiteto Fábio Penteado, atuando como jornalista e editor da revista Visão, tinha como principal objetivo debater e refletir sobre a arquitetura e o urbanismo no Brasil
Arquivo Fábio Penteado/Divulgação
Sua atuação em organizações como o IAB e a UIA foi marcada pela defesa dos concursos públicos como método democrático de seleção de projetos. Essa visão pioneira e demanda histórica pela criação de uma entidade profissional exclusiva para arquitetos culminou na fundação do Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU) em 2010, por meio da Lei nº 12.378.
“Fábio nunca trombeteou sua militância e dava pouco destaque a atos de coragem e ousadia que teve como jornalista de arquitetura, dirigente de entidades ou autor de projetos. Mas sempre teve lado, o dos perseguidos e o dos ignorados pelos poderes”, conta Paulo.
O projeto para um grande Teatro de Ópera em Campinas nunca foi construído, mas é reconhecido como uma importante peça do legado arquitetônico de Fábio Penteado
Arquivo Fábio Penteado/Divulgação
Ainda de acordo com o jornalista, o arquiteto tentou incentivar as escolas a usarem projetos icônicos como estudo de caso, para que novos profissionais pudessem construir sobre o conhecimento existente.
Principais projetos
As obras de Fábio são caracterizadas pela “Arquitetura da Multidão”, focada na concepção coletivista e na valorização do espaço público para promover a interação social e o convívio. Ele valorizava a integração com a natureza e a arquitetura cívica, alinhando-se à Escola Paulista ao buscar fluidez entre o construído e o urbano, utilizando o concreto para humanizar os espaços.
“Esse aspecto da linguagem da Escola Paulista aparece em muitas obras, como no Centro de Convivência de Campinas, ou no Clube Harmonia, que funciona como sede social. O mesmo se aplica ao Hospital Escola Júlio Mesquita Filho, que hoje é o fórum criminal de São Paulo”, pontua Guilherme Wisnik, arquiteto, crítico e professor na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP).
O projeto do Parque dos Anciãos, de 1968, planejado para a comunidade e o lazer em Campinas, demonstra a preocupação do arquiteto com o planejamento urbano, mas infelizmente não foi construído
Arquivo Fábio Penteado/Divulgação
Para além de suas obras executadas, o arquiteto elaborou vastas propostas que permaneceram no campo das ideias. Esse legado não construído tem sido objeto de aprofundamento em pesquisas acadêmicas. “Infelizmente, poucos projetos de Fábio se concretizaram e sua visão, que muitos de seus colegas consideravam pessimista, acabou hoje sendo entendida como realismo”, acredita Paulo.
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A carreira de Fábio reflete uma abordagem singular e autêntica, notável tanto em projetos de grande escala e transformações urbanísticas quanto em residências. O uso do concreto e a fluidez dos espaços, sempre com foco na adequação ao usuário e na conexão com o espaço público, são suas marcas registradas. Abaixo, confira os projetos emblemáticos que materializam essa filosofia humanista do arquiteto:
Sociedade Harmonia de Tênis
Localizado no bairro Jardim América, na Zona Oeste de São Paulo, o projeto do clube Sociedade Harmonia de Tênis nasceu de um concurso realizado em 1957, vencido pela equipe do arquiteto em parceria com Alfredo Paesani e Teru Tamaki. A nova sede social foi concluída e inaugurada em 1964, recebendo posteriormente a medalha de ouro na Exposição Internacional de Praga, na República Tcheca.
Os salões e áreas comuns do edifício da Sociedade Harmonia de Tênis são destinados ao convívio social e eventos do clube, além de darem acesso às quadras de tênis e outras comodidades
Arquivo Fábio Penteado/Divulgação
O edifício é considerado uma obra representativa da vanguarda da arquitetura moderna brasileira, especificamente da Escola Paulista. Seu amplo vão livre e a imponente grelha de concreto que cobria toda a extensão do clube foram características marcantes da arquitetura daquele período. “Trata-se de uma estrutura de grande porte, com laje nervurada de concreto armado”, afirma Guilherme.
“O Harmonia pode ser cruzado, da porta de entrada até a beira da piscina, sem qualquer bloqueio, com espaços e ambientes delineados por planos e recortes no terreno, sob a mesma cobertura”, acrescenta Paulo.
Centro de Convivência Cultural de Campinas
O Centro de Convivência Cultural de Campinas “Carlos Gomes”, localizado no bairro Cambuí, reflete a influência do movimento moderno e a concepção de praça pública integrada ao edifício. Projetado em 1967, o conjunto arquitetônico teve como referência propostas anteriores do autor para concursos — o Monumento à Fundação de Goiânia (1965) e o Teatro de Ópera’ de Campinas (1966). A síntese dessas ideias resultou na obra final, inaugurada em 1976.
Décadas depois, o complexo passou por um amplo processo de revitalização. Em 2018, o Estado destinou R$ 40 milhões para a reforma e, em 2023, a Prefeitura concluiu a primeira fase das obras como parte das celebrações dos 250 anos da cidade. Em 10 de julho de 2025, a obra foi oficialmente entregue, somando R$ 62,4 milhões em investimentos. A segunda etapa, avaliada em R$ 38,9 milhões, modernizou e automatizou os sistemas cênicos, de iluminação e áudio.
A foto aérea destaca a integração do Centro de Convivência Cultural com a cidade de Campinas, sendo considerado um marco da arquitetura moderna campineira, projetado para promover a apropriação do espaço pela população e o acesso universal à cultura
Arquivo Fábio Penteado/José Moscardi/Divulgação
“É uma obra icônica por ser um grande complexo público de concreto voltada para o uso coletivo, como um anfiteatro e praça, com salas para espetáculos e concertos em um volume semiescavado. É um grande equipamento de cultura e de infraestrutura de Campinas que ficou anos fechado e agora está reabrindo”, comenta Guilherme.
Depois da reinauguração, foram realizados eventos-piloto entre outubro e novembro, a fim de preparar o local para a programação oficial prevista para 2026. O propósito era verificar os equipamentos e aprimorar a infraestrutura antes da inauguração total ao público.
Conjunto Habitacional Zezinho Magalhães Prado (CECAP)
O Conjunto Habitacional Zezinho Magalhães Prado (CECAP), situado no atual bairro Parque Cecap, em Guarulhos, ocupa uma área vasta. Representa um marco fundamental na habitação social e na arquitetura moderna paulistana. Reconhecido como um dos conjuntos habitacionais mais importantes do país, o projeto do complexo, embora encomendado a Vilanova Artigas, contou com a colaboração de Fábio Penteado e Paulo Mendes da Rocha.
O Conjunto Habitacional Zezinho Magalhães Prado se destaca pelo uso de pilotis para criar espaços de lazer no térreo e pela flexibilidade dos apartamentos, que podiam ter seu layout interno alterado por meio de divisórias leves
Arquivo Fábio Penteado/Divulgação
Sua construção, que ocorreu entre 1967 e 1972 sob encomenda da antiga Caixa Estadual de Casas para o Povo (CECAP), adota o estilo brutalista, caracterizado pelo uso de concreto aparente e a valorização da estrutura. A obra se diferencia de outros projetos da época por não apresentar uma estrutura monolítica; em vez disso, utiliza um sistema de paredes portantes pré-moldadas.
Leia mais
O projeto ultrapassou as soluções estruturais tradicionais ao incorporar inovações tecnológicas na construção, criando um modelo distinto e eficiente de acesso aos apartamentos. Concebido como uma ‘cidade’ planejada, com espaços destinados ao convívio social e ao comércio, o empreendimento também privilegiou amplas áreas verdes e baixa densidade de ocupação em relação ao terreno.
Hospital-Escola Júlio de Mesquita Filho (Santa Casa da Misericórdia)
O edifício do Hospital-Escola da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, projetado entre 1968 e 1978, embora concebido com a ideia de ser um hospital-escola, não chegou a funcionar como uma unidade hospitalar de fato. O projeto seguia os preceitos modernistas, buscando soluções funcionais e eficientes para um complexo que visava integrar saúde e ensino.
Área interna do Hospital-Escola durante sua construção, que retrata uma abordagem de arquitetura mais cívica e coletiva, quebrando a rigidez e o confinamento típicos dos edifícios hospitalares tradicionais
Arquivo Fábio Penteado/Divulgação
“Essa edificação apresenta um grande volume, com arcos esqueléticos de concreto aparente e arcos abatidos, além de rampas e iluminação zenital, compondo um grande léxico da arquitetura da Escola Paulista”, detalha Guilherme. Fábio liderou uma equipe de arquitetos nesse empreendimento, incluindo Eduardo de Ameida, Teru Tamaki, Alfredo Paesani, Luiz A. Valandro Keating, e outros, o que evidencia a complexidade e a abrangência da obra.
Graves dificuldades financeiras e a inviabilidade de aquisição dos equipamentos médicos necessários impediram a sua conclusão como hospital. Na década de 1990, a Santa Casa decidiu vender o prédio inacabado para o governo do Estado de São Paulo, e, em vez de continuar o projeto hospitalar, converteu-o para abrigar o Complexo Judiciário Ministro Mário Guimarães, que é hoje o maior fórum criminal da América Latina.
Legado de Fábio Penteado
Existe um acervo de materiais que guarda a vida e a obra do arquiteto. “O Arquivo Fábio Penteado possui em torno de 12 mil documentos. Em 2018, doamos todos os originais do projeto do Centro de Convivência de Campinas para a Casa de Arquitectura, em Portugal, gerando uma importante parceria entre as duas instituições”, revela Adriana Moura Penteado, filha do arquiteto e responsável pela gestão do acervo e divulgação do material.
O legado de Fábio Penteado é redescoberto e celebrado em publicações e exposições que ressaltam a atemporalidade de sua visão arquitetônica
Thomaz Farkas/Divulgação
A memória e a contribuição de Fábio também são mantidas vivas por meio de exposições, como a mostra Fábio Penteado: Pétalas e Estrelas, em cartaz no Centro de Convivência de Campinas até 21 de março de 2026.
“Acredito que as obras e os pensamentos contemporâneos de Fábio, que sempre questionou os modelos urbanos e a necessidade de se projetar para multidões, podem ser valiosos para o estudo e os desafios profissionais que os jovens estudantes de arquitetura enfrentarão”, ela considera.
Leia mais
Guilherme defende que a contemporaneidade da obra de Fábio reside na influência do organicismo, seu aspecto mais original e antecipatório. Nesse estilo, as formas irregulares e centrípetas permitem a transformação simultânea entre arquitetura e paisagem.
“Hoje, fala-se muito em arquiteturas topográficas, que buscam soluções na forma do terreno e no contexto da ampliação da cultura, assim como na discussão sobre a emergência climática de uma arquitetura que se integra ao paisagismo. Acho que ele fez isso de maneira pioneira no Brasil dos anos 1960 e 1970, e essa abordagem está muito em voga atualmente”, analisa o professor.



