Geração aluguel? Estudos mostram como a geração Z encara o morar

Nascidos entre 1997 e 2012, a geração Z foi por muito tempo conhecida como geração aluguel. Contudo, pesquisas indicam que a realidade é bem diferente do imaginário do senso comum. Em outras palavras, estudos mostram que a casa própria faz parte dos planos e aspirações desses jovens.
A pesquisa “Retratos do morar”, encomendada pelo Grupo QuintoAndar à Ipsos-Ipec, realizada em 2025, por exemplo, mostra que 50% dos jovens de 18 a 28 anos afirmam que pretendem comprar um imóvel. O percentual é maior que a média nacional, que foi de 41%.
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Segundo o estudo, a questão financeira é o que mais impede os jovens da geração Z de adquirir a casa própria, com 47% dos entrevistados afirmando não ter dinheiro suficiente para a entrada ou financiamento.
Ouro estudo, dessa vez, realizado pelo Programa de Pós-Graduação em Gestão Urbana (PPGTU) da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), também mostra que os jovens brasileiros ainda sonham com a casa própria, nem que seja apenas quando estiverem mais velhos.
“Embora o aluguel tenha ganhado espaço nos centros urbanos, 90% dos entrevistados afirmaram desejar a casa própria na terceira idade. Para a maioria, o aluguel é uma solução temporária diante das dificuldades econômicas, e não uma escolha definitiva de estilo de vida”, explica o arquiteto e urbanista Rafael Kalinoski, doutor e pesquisador da PUCPR, um dos responsáveis pelo estudo.
As tendências de moradia associadas à geração Z
Questão financeira é o que mais impede os jovens da geração Z de adquirir a casa própria
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Flexibilidade
De acordo com a pesquisa da PUCPR, que focou sua análise em cidadãos urbanos, de classe média, altamente escolarizados e residentes em áreas urbanas das regiões Sul, Sudeste e Nordeste, a geração Z tende a encarar a moradia de forma mais flexível e pragmática do que as gerações mais velhas, mas sem abandonar o desejo pela casa própria.
“O aluguel, a divisão de apartamento com outras pessoas e os imóveis compactos surgem como soluções temporárias que dialogam com mobilidade entre cidades para aproveitar oportunidades de emprego, início de carreira profissional e restrições econômicas, dentre as quais destaco salários defasados e o crédito muito caro para o financiamento habitacional. A moradia deixa de ser apenas um ativo financeiro e passa a ser vista como um serviço temporário e mais personalizável. Assim, a noção de morar é menos enraizada e mais flexível para mudar de local conforme oportunidades pessoais e profissionais surjam”, comenta Rafael.
Preferência por localização
Além da flexibilidade, a valorização da localização é outra tendência comumente observada ao analisar a relação da geração Z com o morar. Isso porque, explica Rafael, eles preferem se estabelecer em locais com acesso facilitado a transporte, atividades culturais, vida noturna, entre outros.
“Frequentemente, esses jovens tendem a renunciar a espaço (metragem quadrada) em nome de uma melhor localização na cidade (bairros mais nobres e mais próximos ao centro). Por exemplo, suponhamos que com R$ 500 mil seja possível comprar um apartamento de cerca de 80 m² numa região distante, nas periferias metropolitanas (periferia no sentido literal, de borda, e não como sinônimo de favela ou comunidade), esse jovem prefere optar por usar os mesmos R$ 500 mil para comprar um apartamento compacto de 20 e poucos m² em um bairro nobre e melhor conectado às atividades urbanas associadas à juventude, como espaços culturais, regiões boêmias ou orientadas às artes e aos empregos da chamada indústria 4.0 que remuneram melhor”, exemplifica o professor.
Desejo por morar em casas
Outro aspecto interessante observado pela pesquisa da PUCPR é o maior desejo dos jovens em morar em casas no futuro. Ao menos, esta foi a resposta de 75% dos entrevistados, um percentual muito maior do que o verificado entre os Boomers (nascidos entre 1946 e 1964) e a geração X (1965 a 1980), nas quais o desejo pelas casas cai para 38% e a aspiração por apartamentos prevalece.
“Chamamos isso de “efeito de experiência”: o modo como as vivências concretas ao longo da trajetória residencial moldam as aspirações e percepções sobre moradia. Pessoas que já experimentaram viver em casas compreendem melhor as dificuldades de manutenção da propriedade ao longo do tempo e tendem a preferir apartamentos, que são mais fáceis de cuidar, principalmente na terceira idade. Por outro lado, quem ainda não foi proprietário de nada romantiza a noção da casa própria com jardim e espaço amplo, desconsiderando os esforços de manutenção que serão impostos com o tempo”, observa Rafael.
Casa própria como segurança e pertencimento
Jovens da geração Z seguem vendo a propriedade como sinônimo de segurança e pertencimento
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Ainda que mostre algumas diferenças na percepção da casa própria, em relação às gerações anteriores, os jovens da geração Z seguem vendo a propriedade como sinônimo de segurança e pertencimento.
O desejo pela casa própria permanece forte porque a propriedade ainda simboliza segurança, estabilidade e proteção frente a incertezas econômicas. Além disso, nossa pesquisa mostra que a flexibilidade valorizada no presente não elimina aspirações de longo prazo, mas convive com elas. Em geral, a casa própria aparece mais como um projeto futuro do que imediato: algo a ser conquistado quando houver maior estabilidade financeira e profissional. Assim, o aluguel e a mobilidade funcionam como estratégias temporárias. Mas há uma contradição: esses jovens estão preferindo gastar com experiências efêmeras no presente, especialmente viagens, podendo, assim, não estar consolidando poupança suficiente para adquirir a moradia própria no futuro, perpetuando um ciclo vicioso que dificulta a compra”, analisa o professor.
Diferenças na decoração
Na hora de decorar também é possível notar algumas particularidades da geração Z. Ao menos, é o que observa, na prática, a arquiteta Márcia Jabur do escritório Samba Porter Arquitetura. Segundo Márcia, ao atender clientes da geração Z, ela percebe uma maior expressividade.
“Eles tendem a misturar uma decoração moderna com algo mais retrô. Buscam sua personalidade e identidade na decoração. Diferente, por exemplo, dos Millennials (1981 a 1996), que são mais focados em uma decoração mais neutra, com muitas plantas e buscando uma sensação de tranquilidade ao espaço”, finaliza.
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