Gregori Warchavchik: a história e os projetos do arquiteto modernista no Brasil

Gregori Warchavchik nasceu em 1896 em Odessa, na Ucrânia, e realizou seus estudos na Universidade de Odessa e no Instituto Superior de Belas Artes de Roma, na Itália, país para onde se mudou após a Revolução Russa. Desembarcou no Brasil em 1923, contratado pela Companhia Construtora de Santos.
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“Ele cresceu em um período de transições sociais e políticas que influenciaram sua obra, em especial as revoluções modernistas que se opunham à tradição clássica. Sendo assim, ele fez parte de uma geração de arquitetos que se formou dentro da proposta de desenvolver novas possibilidades de construir cidades, na perspectiva dada pela era industrial”, relata o arquiteto e historiador Wellington Conegundes da Silva.
A Casa Modernista da Rua Santa Cruz, na capital paulista, foi o lar de Gregori Warchavchik e sua família
Arte Fora do Museu/Wikimedia Commons
Ao longo da sua formação, Gregori Warchavchik trabalhou com estilos tradicionais das artes decorativas russas durante o tempo em que estudou em Odessa e com o classicismo durante a formação no Real Instituto de Belas Artes de Roma.
“Foi durante o breve período em que trabalhou para o escritório do arquiteto Marcello Piacentini que estabeleceu um contato maior com ideários modernos, de abdicar de ornamentações excessivas e usar racionalidades técnicas construtivas, priorizando projetos para grandes adensamentos urbanos”, conta Wellington.
Detalhes da parte interna da Casa Modernista da Rua Santa Cruz, na Vila Mariana, em São Paulo
Carlos Alkmin/Wikimedia Commons
Quando imigrou para o Brasil, em 1923, estabeleceu-se no círculo de uma intelectualidade que construía um projeto de modernidade para o país, ao mesmo tempo que acompanhava à distância as vanguardas europeias, vindo a se vincular ao estilo internacional, sua principal vertente estética.
“Porém, é interessante perceber como, em muitos casos, o seu trabalho buscava trazer elementos culturais dos trópicos para as suas concepções, no uso de elementos cerâmicos, por exemplo”, aponta o especialista.
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Esses ideais inovadores foram expressos em um artigo publicado em 1925 no jornal italiano Il Piccollo, que circulava em São Paulo à época. O texto foi posteriormente traduzido para o português e republicado no jornal carioca Correio da Manhã com o título Acerca da Arquitetura Moderna, sendo considerado o primeiro manifesto voltado a uma nova arquitetura moderna no Brasil.
Segundo o Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (CAU/BR), “em sintonia com o movimento modernista brasileiro já em curso, o texto refletia sobre como uma nova arquitetura poderia alinhar os valores construtivos e estéticos da fase industrial”.
A Casa Modernista da Rua Santa Cruz hoje abriga uma das unidades do Museu da Cidade de São Paulo
Andrez00/Wikimedia Commons
“Construir uma casa a mais cômoda e barata possível, eis o que deve preocupar o arquiteto construtor da nossa época de pequeno capitalismo, onde a questão de economia predomina sobre todas as mais. A beleza da fachada tem que resultar da funcionalidade do plano da disposição interior, como a forma da máquina é determinada pelo mecanismo que é a sua alma”, escreveu Gregori Warchavchik no artigo.
De acordo com Wellington, o arquiteto ainda ajudou a estabelecer o futuro que se avistava no início do século 20 no Brasil, materializado em eventos como a Semana de Arte Moderna de 1922, em São Paulo, e se tornou “embaixador” dos ideários do modernismo internacional no país.
“A sua obra foi influenciada pelo racionalismo e funcionalismo europeus, resultando na introdução da arquitetura moderna no Brasil. Seu contato com outros modernistas nacionais levou a uma síntese com elementos brasileiros, e seu principal legado é o pioneirismo na adoção de uma arquitetura da lógica estrutural e livre de ornamentos, que refletia as novas formas de morar”, analisa o historiador.
A Casa Modernista da Rua Itápolis foi palco de uma exposição para mostrar as inovações da construção
Dianarchitect/Wikimedia Commons
Além disso, ele ajudou a fomentar o contato com o Congresso Internacional de Arquitetura Moderna (CIAM), no Brasil e na América Latina.
“Creio que a influência foi imaginar possibilidades de um modelo de cidade para a massa de migrantes que adensava a cidade de São Paulo, e também pensar em como lidar com a materialidade do moderno e do colonial, dentro dos debates sobre brasilidade, e como essa busca identitária na cultura deveria refletir na arquitetura moderna”, declara Wellington.
Principais obras
A Casa Modernista da Rua Santa Cruz, na Vila Mariana, é, sem dúvidas, a obra mais icônica do legado arquitetônico de Gregori Warchavchik. A residência, que hoje abriga uma das sedes do Museu da Cidade de São Paulo (MCSP), foi concluída em 1928 e é considerada uma obra pioneira, de transição entre a arquitetura tradicional para o modernismo.
“Ela é universalmente reconhecida como a primeira residência modernista do Brasil e serviu como um manifesto construído das ideias de Gregori, desafiando a arquitetura tradicional da época”, pontua Wellington.
A decoração da Casa Modernista da Rua Itápolis contava com obras de artistas brasileiros, como Tarsila do Amaral
Monica Kaneko/Wikimedia Commons
“Embora não fosse uma obra estritamente correspondente aos dogmatismos racionalistas que defendia, sua estética empregava soluções inovadoras para o cenário urbano da época, em especial na abolição da ornamentação e no destaque ao geometrismo plástico”, completa o especialista.
O imóvel foi projetado para abrigar a residência do arquiteto, recém-casado com Mina Klabin, filha de um grande industrial. “A casa gerou forte impacto nos círculos intelectuais e na opinião pública em geral, com a publicação de artigos em jornais dos mais diversos espectros políticos, favoráveis ou contrários à nova orientação estética proposta”, conta o site do MCSP.
A Casa Nordschild, em Copacabana, uma das obras de Gregori Warchavchik no Rio de Janeiro
Universidade de São Paulo/Divulgação
Além do imóvel, o jardim, projetado por Mina, inovou, fazendo uso pioneiro de espécies tropicais. Em 1935, a casa passou por uma reforma para abrigar a família que crescia e, nos anos seguintes, teve pequenas alterações, mas o conjunto manteve-se praticamente igual à inauguração até hoje. A família de Gregori viveu na casa até os anos 1970, quando vendeu a propriedade.

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Em 1983, uma construtora tentou implantar na área um condomínio residencial, mas o projeto não evoluiu por protestos da população local. No ano seguinte, a casa foi tombada pelo Patrimônio Histórico federal, estadual e municipal, mas ficou fechada até os anos 2000 por questões legais. Naquele ano, passou por obras de recuperação e, em 2008, a Prefeitura de São Paulo assumiu o imóvel, sendo atualmente a responsável por seu uso e manutenção.
Além dela, a Casa da Rua Itápolis, no Pacaembu, de 1930, teve relevância para a propaganda estética moderna na capital paulista, de acordo com Wellington. O imóvel foi palco da famosa mostra Exposição de uma Casa Modernista, organizada pelo arquiteto. A decoração contava com peças de design e obras de artistas brasileiros, como Tarsila do Amaral.
A Casa Modernista da Rua Bahia, em São Paulo, foi desenhado por Gregori Warchavchik em 1930
Marina Marini Balbino/Wikimedia Commons
O evento contou com a presença de expoentes do movimento modernista, como o escritor Mário de Andrade e o pintor Lasar Segall. “A mostra durou 21 dias e apresentou à elite paulistana e à classe artística traçados inovadores tanto no desenho da residência quanto no mobiliário”, aponta o CAU/BR.
Segundo a Enciclopédia Brasileira de Arquitetas e Arquitetos Digital (ABAD), o arquiteto francês Le Corbusier também esteve no endereço, ocasião em que convidou Gregori Warchavchik para representar a América do Sul no CIAM.
O Edifício Mina Klabin, em São Paulo, projetado por Gregori Warchavchik, ganhou destaque internacional
Flickr/Gabriel Fernandes/Creative Commons
A casa rendeu, ainda, um convite do arquiteto Lúcio Costa para dar aulas na Escola Nacional de Belas Artes (ENBA), no Rio de Janeiro, em 1931. Os dois arquitetos chegaram a montar um escritório, dando vida a obras como a Vila Operária da Gamboa, no bairro de Santo Cristo, no Rio, uma das primeiras habitações modernistas operárias do Brasil, de 1933.
Com projeto de Gregori Warchavchik, o edifício Cícero Prado, em São Paulo, foi erguido entre 1953 e 1956
Flickr/Gabriel Fernandes/Creative Commons
O projeto é o único remanescente da parceria, que durou pouco tempo, e ainda serve de moradia. “Os apartamentos, superpostos dois a dois, compartilham um acesso comum através de uma extensa varanda circular. Esta quebra a geometria dos volumes cúbicos aplicada ao conjunto”, a ponta a Enciclopédia Itaú Cultural sobre a vila operária.
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No Rio, Gregori realizou a Casa Nordschild, em Copacabana, inaugurada em 1931 com uma exposição semelhante à da casa de Itápolis. Ainda em São Paulo, o arquiteto daria vida a uma terceira residência, a Casa Modernista da Rua Bahia, também no Pacaembu, datada de 1930, construída de forma escalonada em um terreno em declive.
Ginásio da Associação Hebraica, em São Paulo, aberto em 1955, com projeto de Gregori Warchavchik
Arquivo Arq/Divulgação
Entre os prédios residenciais, destaca-se o Edifício Mina Klabin, também conhecido como Edifício Barão de Limeira, nos Campos Elíseos, em São Paulo, de 1939, que tem cinco pavimentos. “O prédio foi um de seus projetos que ganhou destaque internacional, aparecendo na exposição Brazil Builds no MoMA, em 1943”, fala Wellington.
O arquiteto projetaria outro prédio no bairro, o Edifício Cícero Prado, na Avenida Rio Branco. Bem mais alto e composto por três blocos, foi concluído em 1956 e se destaca pelas linhas curvas esculturais da fachada.

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