Há 60 anos, São Paulo ganhou um piso de calçadas — e sua autora foi apagada

Quem caminha pelo centro de São Paulo, SP, pisa em um símbolo gráfico da cidade com 60 anos de história. A estampa, que remete à bandeira do estado de São Paulo, foi escolhida em um concurso da prefeitura. A vencedora foi Mirthes Bernardes (1934-2020), porém sua autoria foi invisibilizada e ela sequer recebeu pela criação.
No Brasil, a política pública diz que o cuidado das calçadas é de responsabilidade do dono do lote, o que dificulta a padronização. “No mandato do prefeito José Vicente de Faria Lima, foram feitas várias obras pela cidade, que alargaram o viaduto e arrancaram a calçada. Por ser uma intervenção da prefeitura, eles bancaram a reposição e enxergaram nisso a oportunidade de criar um padrão”, conta Pablo Figueiredo, designer e autor do estudo Resgate histórico sobre a origem das calçadas com desenho geográfico do estado de São Paulo projetadas por Mirthes Bernardes.
“Existia uma preocupação em criar essa padronização, sobretudo em ruas mais centrais, de forma a conferir uma melhoria para os pedestres, mas também criar uma harmonia estética”, analisa José Geraldo Simões Junior, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da Universidade Presbiteriana Mackenzie.
A inspiração para as calçadas vem de cidades como Rio de Janeiro, RJ, e Brasília, DF, onde eram usadas a pedra portuguesa – mesmo material que instalado na capital paulista. Para a escolha do desenho, foi lançado um concurso que definiria a identidade visual.
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Os estudos indicam que o concurso ocorreu entre 1965 e 1966. Os quatro modelos finalistas foram expostos na rua da Consolação, local que recebeu jornalistas para avaliar as propostas.
Os quatro desenhos finalistas do concurso lançado pela prefeitura nos anos 1960 para definir o padrão das calçadas de São Paulo: o grão de café, de Raul Fagundes; o de setas, de Gilberto Caldas; o mapa do estado de São Paulo, de Mirthes Bernardes (vencedor); e uma proposta anônima com símbolos urbanos
Anais do Museu Paulista/Reprodução
Entre os projetos finalistas estavam o mapa do Estado de São Paulo, de Mirthes Bernardes; grãos de café, de Raul Fagundes; setas, de Gilberto Caldas; e outra proposta anônima com símbolos de vales, pontes e viadutos.
O pesquisador explica que as pessoas discordavam muito das demais estampas. “O café era o mais polêmico por estar ligado aos grandes barões”, aponta Pablo. “O de setas criava uma ilusão de ótica, o que foi considerado exagerado”, adiciona.
A escolha do desenho de Mirthes se destacou por utilizar um símbolo universal para a cidade. O desenho ainda tinha um formato padrão, que era fácil de encaixar e reproduzir – como uma estampa de xadrez ou listras.
Os primeiros pisos com os desenhos da bandeira foram aplicados na rua da Consolação. “Todas as obras realizadas na gestão do Faria Lima foram com esse piso. Em especial, calçadas no centro, como o Largo São Francisco, a Avenida 23 de maio e a Avenida São Luís”, diz Pablo.
Comparação entre o padrão original do desenho das calçadas de São Paulo, aplicado em pedra portuguesa na Avenida São Luís, e sua versão adaptada em ladrilho hidráulico, usada na avenida Brigadeiro Faria Lima
Anais do Museu Paulista/Reprodução
O piso original, no entanto, já começou a entrar em risco de extinção no mandato seguinte, de Paulo Maluf, quando as calçadas em pedra portuguesa foram substituídas por outras em ladrilho hidráulico, mantendo a estampa.
O desenho reaparece em ladrilho hidráulico na inauguração da avenida Faria Lima em 1970. “Os primeiros registros da imprensa que ressaltam a criadora e a entrevistam surgem com a chegada desta nova avenida”, relata Pablo.
O apagamento de Mirthes Bernardes
Nascida em Barretos, Mirthes era formada em pedagogia e serviço social e, à época do concurso, era funcionária pública da prefeitura de São Paulo. “Por mais que não tivesse essa formação, ela atuava como desenhista industrial da prefeitura, onde aprendeu a desenhar com colegas e arquitetos que faziam desenhos técnicos”, detalha o pesquisador.
Depois da passagem pela prefeitura, ela seguiu atuando como artista plástica. Sua arte seguiu uma pegada figurativa e com uma técnica de esmaltação em cobre – considerada diferente do desenho icônico das calçadas da capital paulista.
Modelo original do desenho elaborado por Mirthes Bernardes para as calçadas de São Paulo
Anais do Museu Paulista/Reprodução
Quando venceu o concurso, ela não recebeu nenhum incentivo financeiro pela criação, o prêmio era ter o seu desenho reproduzido pela cidade. Diversos fatores contribuíram para esse apagamento, como a questão de gênero e a demora no registro da propriedade intelectual.
“Ela não conhecia seus direitos e nem pôde usufruir da própria criação como propriedade intelectual. Esse apagamento revela uma relação desigual de poder, em que artistas e desenhistas têm seus trabalhos apropriados, replicados e explorados economicamente sem reconhecimento ou retorno”, conta Pablo.
Foi depois de 2008 que Mirthes chegou a ter alguma recompensa financeira. Com mais espaço na mídia, ela conseguiu o licenciamento do desenho com algumas marcas. “Foi a primeira vez que ela recebeu um valor justo. Foi no final de sua vida, antes disso, muitas reproduções foram feitas sem pagar nada a ela.”
Conservação e futuro dos pisos paulistas
Muitas calçadas perderam o desenho do piso – como a Consolação e a Faria Lima, que marcaram a história do piso. Ainda é possível ver as bandeiras do estado espalhadas pelo calçamento da Avenida São Luís, no cruzamento entre a Ipiranga e a São João, e no entorno do Ibirapuera. Porém, nem sempre bem conservadas.
Os especialistas apontam que a prefeitura prioriza o uso do desenho em regiões históricas e próximas a pontos turísticos, enquanto outras calçadas ganham um piso cimentado. “A padronização das calçadas ocorre de forma pontual. Em algumas vias comerciais, como a Rua Oscar Freire, os próprios comerciantes se articularam para implementar um projeto único de pavimentação — diferente da pedra portuguesa”, exemplifica José.
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O autor do estudo revela que o piso não é tombado em nenhuma instância. “Acredito que seria importante, ele faz parte da história de São Paulo e deveria ser preservado pelo menos em pontos icônicos da cidade”, opina Pablo. “Vemos tantas calçadas mal cuidadas e um projeto visualmente interessante poderia estar mais presente”, complementa.

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