Memphis Milano: o grupo que contrariou o design moderno e funcionalista

Há quem diga que o pior problema dos anos 1980 foi eles terem existido. Esses certamente não levam em conta a importância da produção do entusiasmante e controverso grupo Memphis, em Milão, na Itália. O coletivo surgiu na noite de 11 de dezembro de 1980, na sala de estar de Ettore Sottsass, que convidara colegas designers e arquitetos para discutir novas formas de expressão.
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O aparelho de som tocava repetidamente a música Stuck Inside of Mobile with the Memphis Blues Again, de Bob Dylan — daí o nome do grupo. A ideia de Sottsass era ir ao encontro do funcionalismo e ao minimalismo reinante no design europeu até então, desde os tempos da Bauhaus.
Designers e arquitetos de diferentes nacionalidades participaram do grupo Memphis, formado em Milão
Memphis/Divulgação
Entre os amigos presentes estavam Martine Bedin, Aldo Cibic, Michele De Lucchi, Nathalie Du Pasquier, Matteo Thun e George J. Sowden. Juntaram-se posteriormente ao grupo Andrea Branzi, Shiro Kuramata, Marco Zanini, Peter Shire, Gerard Taylor, Masanori Umeda, Michael Graves, Hans Hollein, Arata Isozaki e Javier Mariscal, entre outros, que formaram um grupo grande de interessados em romper com o establishment e caminhar rumo ao design pós-moderno.
A cadeira First, de 1983, foi projetada por Michele de Lucchi em homenagem a Alexander Calder
Memphis/Divulgação
Quebrar as regras do design moderno e funcionalista significava dar significado emocional e visual às peças de design e deixar de lado a máxima “a forma segue a função”, estabelecendo trabalhos que evocavam uma espécie de arte escultórica — metas idealizadas pelo grupo.
Luminária Oceanic, de Michele de Lucchi, criada em 1981
Memphis/Divulgação
Para isso, os profissionais usavam cores e padrões vibrantes em diferentes materiais — que podiam ir do laminado plástico à rádica —, muitas vezes estabelecendo contrastes. Também empregavam formas geométricas e assimétricas e tinham como referência o art déco, a pop art e o kitsch.
Na mesa lateral Kristall, de 1981, Michele de Lucchi lançou mão de certa forma zoomórfica
Memphis/Divulgação
Um dos móveis mais icônicos do grupo foi a estante Carlton, com suas formas geométricas coloridas, de Ettore Sottsass. “O design não deve apenas resolver problemas. Ele também deve provocar emoções”, dizia o autor.
Geométricos e coloridos, o sofá e a poltrona da coleção Westside, de Ettore Sottsass, destacam-se em meio ao ambiente claro
Alberto Strada_Set Design/Divulgação | Produção Gaia Marchesini e Giordano Sarno/Divulgação
Em 19 de setembro de 1981, 55 peças de mobiliário, luminárias e cerâmicas foram expostas na galeria Arc ’74, também em Milão. Três meses depois, mais de 400 publicações internacionais celebraram o sucesso do Memphis.
Mas havia sempre quem torcesse o nariz, apontando os objetos como bizarros. Fato é que o Memphis impactou a cultura pop, sendo reinterpretado na moda e na comunicação visual, por exemplo.
O arquiteto e designer Ettore Sottsass ao lado da sua estante Carlton, criada em 1981
Memphis/Divulgação
Passados mais de 40 anos, a produção desse coletivo vira e mexe aparece como tendência em diferentes formas de expressão. O grupo teve começo meio e fim rapidamente. Como disse Sottssas, o movimento não era para durar para sempre, mas, sim, tratava-se “de um momento, de uma explosão”.
Esse novo design respondia às demandas de uma sociedade complexa. Não bastava mais que um objeto fosse meramente “funcional”; agora os objetos eram imbuídos de significado simbólico, poético e emocional.
A luminária Tahiti é considerada uma obra-prima de Ettore Sottsass
Memphis/Divulgação
Com o Memphis, formas que oscilavam entre o pop e certo classicismo, a alta cultura e a cultura popular, fundiram-se em uma mistura lúdica: uma estética disruptiva — como se lê no site oficial do grupo. “Ideias fortes são efêmeras”, disse Sottsass, que deixou o Memphis Milano, como também é chamado o grupo, em 1985.
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O coletivo durou o suficiente para colocar em prática a intensão inicial e revolucionária de criar objetos totêmicos, facilmente desmontáveis e multifuncionais. São peças de design que rompem com a unidade estilística dos interiores e incorporam fortes códigos visuais.

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