Revolucionária, modernizadora e reverenciada são alguns dos adjetivos que historicamente descrevem a Escola Bauhaus, criada em 1919 pelo arquiteto alemão Walter Gropius (1883–1969). O manifesto, as produções, o corpo estudantil e docente da instituição são amplamente estudados e considerados referências para a arquitetura e para o design.
Embora a historiografia destaque majoritariamente os homens que participaram da escola, a presença e a produção de artistas e profissionais mulheres foram extremamente significativas, deixando legados múltiplos — porém, ainda pouco reconhecidos, divulgados e estudados.
Com o centenário da Bauhaus em 2019, a trajetória de muitas delas passou a ser revisitada. Agora, em 2026, um movimento semelhante ocorre com a celebração dos 100 anos da sede construída na cidade de Dessau, marco fundamental na história da instituição.
A produção da Bauhaus é considerada referência na arquitetura e no design moderno. Em 1979, obras do artista russo-alemão Wassily Kandinsky foram exibidas em uma das salas de exposição, reafirmando o impacto duradouro da escola
Harry Croner/ullstein bild/Getty Images
Ainda que pouco lembradas, 462 mulheres fizeram parte do cotidiano da Bauhaus como estudantes e mestres em suas três sedes, entre 1919 e 1933. Elas representavam cerca de 30% do corpo discente, como aponta um artigo publicado na coleção Ensaios em Design da Faculdade de Arquitetura, Artes, Comunicação e Design da Unesp (FAAC).
Leia mais
“A visão da historiografia predominante até recentemente foi masculina e branca. Essas mulheres foram invisibilizadas por muito tempo, mas elas existiram e foram muitas”, destaca Ana Beatriz Pereira de Andrade, designer e professora da FAAC. Ela é autora do artigo citado acima, escrito ao lado dos pesquisadores Ana Maria Rebello Magalhães, Paula Rebello Magalhães de Oliveira e Henrique Perazzi de Aquino.
A primeira sede da Escola Bauhaus foi na cidade de Weimar, na Alemanha, em 1919
Flickr/Sludge G/Creative Commons
Breve histórico da Bauhaus
A Bauhaus foi criada com a proposta de acabar com a cisão que se estabelecia entre as artes aplicadas e as belas artes. “Nasceu para ser uma escola que juntava a arte e o artesanato, elevando o artesanato a uma categoria maior, em um contexto de industrialização da Alemanha após a Primeira Guerra Mundial”, explica Aline Kedman, designer de interiores, pesquisadora e fundadora do grupo labmargem, que realiza estudos e experiências focados em design e polícita.
Após a derrota na guerra, a então República de Weimar, o regime democrático alemão que durou de 1919 a 1933, vivia um momento de intensa efervescência cultural, impulsionado pelo desejo de reconstrução e reestruturação. Os ideais socialistas também tiveram papel relevante no nascimento da instituição, em meio a um cenário marcado pelo antagonismo entre a extrema direita e a esquerda.
A sede em Dessau foi a mais duradoura da Escola Bauhaus. A fotografia é de Lucia Moholy, importante fotógrafa que registrou a história da instituição, mas cuja contribuição permaneceu pouco reconhecida por muito tempo
Bauhaus-Archiv Berlin © VG Bild-Kunst, Bonn 2026/Divulgação
“A escola surge pautada nesse projeto ideológico, e depois alinha-se cada vez mais a uma proposta de industrialização, pautada na produção em série, e que se torna a marca do design da Bauhaus, extremamente influente para a área do desenho industrial”, afirma Aline.
A história da Bauhaus é marcada por três períodos fundamentais: o primeiro em Weimar, entre 1919 e 1925; o segundo em Dessau, iniciado em 1925 e estendido até 1932; e o último em Berlim, fase final da escola, que durou apenas um ano, de 1932 a 1933.
Retrato de grupo da turma de tecelagem do mestre Kurt Wanke na Bauhaus Dessau. Na primeira fila, da esquerda para a direita: Lotte Beese (Lotte Stam-Beese), Anni Albers, Ljuba Monastirsky, Rosa Berger, Gunta Stölzl, Otti Berger e o mestre Kurt Wanke. Na fileira superior, da esquerda para a direita: Lisbeth Birmann-Oestreicher, Gertrud Preiswerk, Helene Bergner (Léna Meyer-Bergner) e Grete (Margaretha) Reichardt
Arquivo Bauhaus Berlim/Wikimedia Commons
A participação das mulheres na Bauhaus
No manifesto de criação da Bauhaus, Walter Gropius afirmava que a escola seria aberta a “qualquer pessoa de boa reputação, independentemente da idade ou do sexo”, destacando que não haveria “diferença entre o sexo belo e o sexo forte” — sendo o “sexo belo” uma referência direta às mulheres. Apesar do machismo implícito nesse discurso, um grande número de mulheres buscou se inscrever e participar dos cursos da instituição.
Em um primeiro momento, o número de mulheres inscritas — 84 — superou o de homens, 79. Esse fato, no entanto, provocou uma reação menos inclusiva do que a prometida inicialmente. “Gropius ficou com certo receio, porque esse número maior de mulheres poderia, na visão dele, levar as produções da escola a serem taxadas de forma pejorativa como artesanato ou até como uma escola de mulheres”, informa Aline.
Marianne Brandt foi uma das figuras mais importantes da Bauhaus. Aqui, ela aparece na obra Autorretrato com Lírios, realizado em 1923
Bauhaus-Archiv Berlin © VG Bild-Kunst, Bonn 2026
Guiado por princípios de raízes machistas e misóginas, o diretor passou a instituir políticas que dificultavam o acesso de muitas estudantes a determinadas oficinas. Essas áreas eram vistas como “perigosas”, e as mulheres eram consideradas um risco por, segundo ele, não serem “dotadas de conhecimentos relacionados à tridimensionalidade”.
“O discurso e a prática adotados por Gropius, no entanto, não eram isolados; eram ideias compartilhadas por outros homens da Bauhaus”, ressalta a designer de interiores.
Bule de chá criado por Marianne Brandt em 1924, durante sua participação na Escola Bauhaus
Sailko/Wikimedia Commons
Áreas como a metalurgia, arquitetura e marcenaria eram, sobretudo, as mais desafiadoras para o ingresso das estudantes. “É sobretudo em Dessau que as mulheres têm esse ápice não só quantitativo dentro da escola, como também de diversidade de trabalhos, ao conseguirem acessar outras oficinas”, coloca a pesquisadora Ana Beatriz.
Apesar das resistências impostas, a presença das mulheres na Bauhaus foi múltipla e significativa. Marianne Liebe, conhecida como Marianne Brandt (1893–1983), destacou-se no campo da metalurgia, criando peças icônicas em materiais como latão, prata e ébano. Suas obras sintetizavam a modernidade e a funcionalidade defendidas pela escola, tornando-se referência no design da época.
Marianne Brandt atuou como pintora, fotógrafa e designer. O autorretrato com câmera no estúdio, refletido na esfera, foi realizado na Bauhaus Dessau, em algum momento entre os anos de 1928 e 1929
Bauhaus-Archiv Berlin © VG Bild-Kunst, Bonn 2026/Divulgação
Marianne foi estudante da Bauhaus entre 1924 e 1926 e a única mulher a receber diploma na oficina que escolhera desde o início. Assumiu posições históricas: tornou-se assistente do ateliê em abril de 1927 e, entre abril de 1928 e setembro de 1929, chefiou a oficina de metalurgia. “O título de mestre, concedido aos homens, não era permitido às mulheres que assumiam cargos de liderança na escola”, destaca a pesquisadora.
Nesse período, ela foi promovida a diretora das oficinas de metal e teve projetos produzidos por indústrias de grande relevância em cidades como Berlim e Leipzig. Em 1929, trabalhou no ateliê de Walter Gropius na capital alemã e, de 1930 a 1933, na fábrica de produtos de metal Ruppelwerk, em Gotha. Além disso, Marianne se dedicou à pintura e à fotografia.
Lilly Reich iniciou sua carreira como costureira industrial e, ao longo do tempo, desenvolveu móveis e projetos arquitetônicos, tornando-se uma das figuras centrais do design moderno
design TOP 100/Wikimedia Commons
Lilly Reich (1885–1947), designer de interiores, também teve uma trajetória marcante na Bauhaus. Desde 1908, atuava na Wiener Werkstätte, comunidade de arquitetos, artistas e designers de Viena, na Áustria. Antes da Primeira Guerra, manteve em Berlim um estúdio voltado ao design de interiores, arte decorativa e moda, e posteriormente abriu um segundo espaço em Frankfurt dedicado ao design de exposições e moda.
Seu trabalho ganhou grande destaque na Exposição Universal de 1929, quando já colaborava com o arquiteto Ludwig Mies van der Rohe (1886–1969), com quem manteve uma relação pessoal e que viria a assumir a direção da terceira fase da instituição.
A cadeira Barcelona, criada por Ludwig Mies van der Rohe e Lilly Reich para o Pavilhão Alemão na Exposição Internacional de Barcelona de 1929, tornou-se um dos móveis mais icônicos do modernismo
vicens/Wikimedia Commons
Embora Ludwig tenha conquistado grande proeminência, hoje se questiona a autoria de algumas obras e o apagamento de Lilly, como no caso da famosa cadeira Barcelona. “O que especialistas têm apontado é que muitos trabalhos poderiam ter sido de autoria exclusiva de Lilly ou, ao menos, contaram com sua colaboração. Um ponto significativo é que, após o fim da parceria afetiva, Ludwig não manteve a mesma profusão de obras que antes”, ressalta Aline.
Na oficina de escultura em madeira, Alma Siedhoff-Buscher (1899–1944) se destacou com uma produção numerosa, ainda hoje referência sobretudo em brinquedos educativos infantis. Antes da Bauhaus, ela havia estudado na Escola de Artes Aplicadas vinculada ao Museu de Artes Decorativas de Berlim.
Alma Siedhoff-Buscher foi uma designer alemã que se destacou na Bauhaus, especialmente pela criação de esculturas e brinquedos de madeira
chinnian/Wikimedia Commons
Com o apoio de Georg Muche (1895–1987), arquiteto e pintor, e Joseph Hartwig (1880–1956), escultor — ambos ligados à Bauhaus — Alma foi aceita na oficina de escultura em madeira. Seus estudos sobre desenvolvimento infantil foram aplicados já na primeira exposição da escola, em 1923, quando projetou decoração, mobiliário e brinquedos educativos. O sucesso foi tamanho que alguns desses itens passaram a ser comercializados pela Pestalozzi-Fröebel-Verlag, associação alemã dedicada à infância, o que desagradou Walter Gropius.
A produção inicial de Alma foi incluída no Catálogo de Modelos da Bauhaus, reconhecendo sua concepção inovadora sobre a habitação moderna e o papel da criança na percepção do mundo.
Em 2018, o Museu Judaico de Nova York apresentou uma exposição dedicada às peças têxteis de Anni Albers, destacando sua importância como pioneira da arte têxtil moderna e seu legado dentro e fora da Bauhaus
Flickr/Steve Bowbrick/Creative Commons
Mesmo nas oficinas associadas à ideia de “feminilidade”, como a de arte têxtil, houve uma produção significativa que se manteve ao longo do tempo. Um exemplo é a artista Anni Albers (1899–1994), que construiu uma carreira internacional de destaque e uma ampla produção têxtil.
Entre 1922 e 1931, permaneceu na Bauhaus, onde, impedida de seguir na pintura, voltou-se para o universo dos tecidos e tapeçarias. Suas criações se destacavam tanto pelas propriedades acústicas quanto pelas múltiplas possibilidades de percepção oferecidas ao público.
Cartão de identificação de Gunta Stölzl na Bauhaus, onde a palavra “estudante” foi riscada e substituída por “mestre”. À direita, tapeçaria criada por ela entre 1927 e 1928
Sascha-Wagner/Wikimedia Commons; Flickr/Jennifer May/Creative Commons | Montagem: Casa e Jardim
Em 1925, Anni casou-se com Josef Albers (1888–1976), então professor da Bauhaus. Com a ascensão do nazismo, o casal migrou para os Estados Unidos, onde ela atuou como professora, artista e freelancer associada ao Black Mountain College, importante escola de design na Carolina do Norte. Em 1949, tornou-se a primeira mulher a realizar uma exposição individual no Museum of Modern Art (MoMA), em Nova York. Ainda em vida, ela recebeu amplo reconhecimento, com 111 exposições realizadas ao redor do planeta.
Outro nome de destaque é Gunta Stölzl (1897–1983), única professora mulher da Bauhaus. Dedicada sobretudo ao têxtil, transformou a oficina em uma das mais rentáveis da instituição, combinando métodos artesanais com técnicas avançadas de produção industrial. Sua formação também incluiu estudos em pintura decorativa, pintura em vidro, cerâmica, história da arte e estilo na Kunstgewerbeschule, escola de artes aplicadas de Munique.
Muitas das mulheres da Bauhaus ainda têm suas histórias e produções pouco conhecidas na atualidade. Na foto de 1927, durante uma aula de tecelagem de Oskar Schlemmer na escadaria da Bauhaus, aparecem — do topo da escada, descendo de baixo para cima — Gunta Stölzl, Margaretha Reichardt, Ljuba Monastirskaja, Otti Berger, Elisabeth Müller, Lis Beyer-Volger, Rosa Berger, Lena Meyer-Bergner, Ruth Hollós-Consemüller e Lisbeth Oestreicher (Lisbeth Birmann-Oestreicher)
Wulf Herzogenrath/Oskar Schlemmer/Wikimedia Commons
Apagamento histórico que permanece
Os nomes aqui destacados representam apenas um recorte da participação das 462 mulheres na Bauhaus e de sua produção artística. Poucas receberam reconhecimento ainda em vida, enquanto muitas enfrentaram dificuldades para se consolidar em suas práticas devido à invisibilidade diante da produção de companheiros homens, em meio a uma sociedade patriarcal. Esse cenário foi agravado pelo contexto do nazismo e pela perseguição a diversos setores da população após a Segunda Guerra Mundial.
Leia mais
Desse total, 367 biografias podem ser encontradas no site da Bauhaus Cooperation, associação sem fins lucrativos criada no centenário da Bauhaus, a qual visa recuperar a história sobre a escola e seus personagens, principalmente as mulheres.
As mulheres na Bauhaus enfrentaram resistências institucionais e estruturais que contribuíram para seu esquecimento na historiografia por muito tempo. Na foto, por volta de 1920, aparecem no telhado da Bauhaus em Weimar: Josef Albers, Hinnerk Scheper, Georg Muche, László Moholy-Nagy, Herbert Bayer, Joost Schmidt, Walter Gropius, Marcel Breuer, Wassily Kandinsky, Paul Klee, Lyonel Feininger, Gunta Stölzl (a única mulher) e Oskar Schlemmer
Apic/Bridgeman via Getty Images
A recuperação dessas histórias ganhou força principalmente a partir dos anos 1990, com a tese de doutorado de Anja Bohnhof em 1994, que investigou a relação entre gênero, arte e artesanato na Bauhaus. Posteriormente, autores como Ulrike Müller, Patrick Rössler e Elizabeth Otto publicaram livros que retomam o trabalho, os nomes e o legado das mulheres na escola.
“À medida que as mulheres foram entrando na academia e ocupando espaços em instituições de poder e de reescrita da história, suas trajetórias também passaram a ganhar evidência”, pontua Aline. “Desde o final do século 20, esse campo se fortalece, trazendo questionamentos à historiografia sobre as contribuições e o apagamento das mulheres não apenas na Bauhaus e no design, mas em diferentes áreas do conhecimento”, complementa Ana Beatriz.
Embora a historiografia destaque majoritariamente os homens que participaram da escola, a presença e a produção de artistas e profissionais mulheres foram extremamente significativas, deixando legados múltiplos — porém, ainda pouco reconhecidos, divulgados e estudados.
Com o centenário da Bauhaus em 2019, a trajetória de muitas delas passou a ser revisitada. Agora, em 2026, um movimento semelhante ocorre com a celebração dos 100 anos da sede construída na cidade de Dessau, marco fundamental na história da instituição.
A produção da Bauhaus é considerada referência na arquitetura e no design moderno. Em 1979, obras do artista russo-alemão Wassily Kandinsky foram exibidas em uma das salas de exposição, reafirmando o impacto duradouro da escola
Harry Croner/ullstein bild/Getty Images
Ainda que pouco lembradas, 462 mulheres fizeram parte do cotidiano da Bauhaus como estudantes e mestres em suas três sedes, entre 1919 e 1933. Elas representavam cerca de 30% do corpo discente, como aponta um artigo publicado na coleção Ensaios em Design da Faculdade de Arquitetura, Artes, Comunicação e Design da Unesp (FAAC).
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“A visão da historiografia predominante até recentemente foi masculina e branca. Essas mulheres foram invisibilizadas por muito tempo, mas elas existiram e foram muitas”, destaca Ana Beatriz Pereira de Andrade, designer e professora da FAAC. Ela é autora do artigo citado acima, escrito ao lado dos pesquisadores Ana Maria Rebello Magalhães, Paula Rebello Magalhães de Oliveira e Henrique Perazzi de Aquino.
A primeira sede da Escola Bauhaus foi na cidade de Weimar, na Alemanha, em 1919
Flickr/Sludge G/Creative Commons
Breve histórico da Bauhaus
A Bauhaus foi criada com a proposta de acabar com a cisão que se estabelecia entre as artes aplicadas e as belas artes. “Nasceu para ser uma escola que juntava a arte e o artesanato, elevando o artesanato a uma categoria maior, em um contexto de industrialização da Alemanha após a Primeira Guerra Mundial”, explica Aline Kedman, designer de interiores, pesquisadora e fundadora do grupo labmargem, que realiza estudos e experiências focados em design e polícita.
Após a derrota na guerra, a então República de Weimar, o regime democrático alemão que durou de 1919 a 1933, vivia um momento de intensa efervescência cultural, impulsionado pelo desejo de reconstrução e reestruturação. Os ideais socialistas também tiveram papel relevante no nascimento da instituição, em meio a um cenário marcado pelo antagonismo entre a extrema direita e a esquerda.
A sede em Dessau foi a mais duradoura da Escola Bauhaus. A fotografia é de Lucia Moholy, importante fotógrafa que registrou a história da instituição, mas cuja contribuição permaneceu pouco reconhecida por muito tempo
Bauhaus-Archiv Berlin © VG Bild-Kunst, Bonn 2026/Divulgação
“A escola surge pautada nesse projeto ideológico, e depois alinha-se cada vez mais a uma proposta de industrialização, pautada na produção em série, e que se torna a marca do design da Bauhaus, extremamente influente para a área do desenho industrial”, afirma Aline.
A história da Bauhaus é marcada por três períodos fundamentais: o primeiro em Weimar, entre 1919 e 1925; o segundo em Dessau, iniciado em 1925 e estendido até 1932; e o último em Berlim, fase final da escola, que durou apenas um ano, de 1932 a 1933.
Retrato de grupo da turma de tecelagem do mestre Kurt Wanke na Bauhaus Dessau. Na primeira fila, da esquerda para a direita: Lotte Beese (Lotte Stam-Beese), Anni Albers, Ljuba Monastirsky, Rosa Berger, Gunta Stölzl, Otti Berger e o mestre Kurt Wanke. Na fileira superior, da esquerda para a direita: Lisbeth Birmann-Oestreicher, Gertrud Preiswerk, Helene Bergner (Léna Meyer-Bergner) e Grete (Margaretha) Reichardt
Arquivo Bauhaus Berlim/Wikimedia Commons
A participação das mulheres na Bauhaus
No manifesto de criação da Bauhaus, Walter Gropius afirmava que a escola seria aberta a “qualquer pessoa de boa reputação, independentemente da idade ou do sexo”, destacando que não haveria “diferença entre o sexo belo e o sexo forte” — sendo o “sexo belo” uma referência direta às mulheres. Apesar do machismo implícito nesse discurso, um grande número de mulheres buscou se inscrever e participar dos cursos da instituição.
Em um primeiro momento, o número de mulheres inscritas — 84 — superou o de homens, 79. Esse fato, no entanto, provocou uma reação menos inclusiva do que a prometida inicialmente. “Gropius ficou com certo receio, porque esse número maior de mulheres poderia, na visão dele, levar as produções da escola a serem taxadas de forma pejorativa como artesanato ou até como uma escola de mulheres”, informa Aline.
Marianne Brandt foi uma das figuras mais importantes da Bauhaus. Aqui, ela aparece na obra Autorretrato com Lírios, realizado em 1923
Bauhaus-Archiv Berlin © VG Bild-Kunst, Bonn 2026
Guiado por princípios de raízes machistas e misóginas, o diretor passou a instituir políticas que dificultavam o acesso de muitas estudantes a determinadas oficinas. Essas áreas eram vistas como “perigosas”, e as mulheres eram consideradas um risco por, segundo ele, não serem “dotadas de conhecimentos relacionados à tridimensionalidade”.
“O discurso e a prática adotados por Gropius, no entanto, não eram isolados; eram ideias compartilhadas por outros homens da Bauhaus”, ressalta a designer de interiores.
Bule de chá criado por Marianne Brandt em 1924, durante sua participação na Escola Bauhaus
Sailko/Wikimedia Commons
Áreas como a metalurgia, arquitetura e marcenaria eram, sobretudo, as mais desafiadoras para o ingresso das estudantes. “É sobretudo em Dessau que as mulheres têm esse ápice não só quantitativo dentro da escola, como também de diversidade de trabalhos, ao conseguirem acessar outras oficinas”, coloca a pesquisadora Ana Beatriz.
Apesar das resistências impostas, a presença das mulheres na Bauhaus foi múltipla e significativa. Marianne Liebe, conhecida como Marianne Brandt (1893–1983), destacou-se no campo da metalurgia, criando peças icônicas em materiais como latão, prata e ébano. Suas obras sintetizavam a modernidade e a funcionalidade defendidas pela escola, tornando-se referência no design da época.
Marianne Brandt atuou como pintora, fotógrafa e designer. O autorretrato com câmera no estúdio, refletido na esfera, foi realizado na Bauhaus Dessau, em algum momento entre os anos de 1928 e 1929
Bauhaus-Archiv Berlin © VG Bild-Kunst, Bonn 2026/Divulgação
Marianne foi estudante da Bauhaus entre 1924 e 1926 e a única mulher a receber diploma na oficina que escolhera desde o início. Assumiu posições históricas: tornou-se assistente do ateliê em abril de 1927 e, entre abril de 1928 e setembro de 1929, chefiou a oficina de metalurgia. “O título de mestre, concedido aos homens, não era permitido às mulheres que assumiam cargos de liderança na escola”, destaca a pesquisadora.
Nesse período, ela foi promovida a diretora das oficinas de metal e teve projetos produzidos por indústrias de grande relevância em cidades como Berlim e Leipzig. Em 1929, trabalhou no ateliê de Walter Gropius na capital alemã e, de 1930 a 1933, na fábrica de produtos de metal Ruppelwerk, em Gotha. Além disso, Marianne se dedicou à pintura e à fotografia.
Lilly Reich iniciou sua carreira como costureira industrial e, ao longo do tempo, desenvolveu móveis e projetos arquitetônicos, tornando-se uma das figuras centrais do design moderno
design TOP 100/Wikimedia Commons
Lilly Reich (1885–1947), designer de interiores, também teve uma trajetória marcante na Bauhaus. Desde 1908, atuava na Wiener Werkstätte, comunidade de arquitetos, artistas e designers de Viena, na Áustria. Antes da Primeira Guerra, manteve em Berlim um estúdio voltado ao design de interiores, arte decorativa e moda, e posteriormente abriu um segundo espaço em Frankfurt dedicado ao design de exposições e moda.
Seu trabalho ganhou grande destaque na Exposição Universal de 1929, quando já colaborava com o arquiteto Ludwig Mies van der Rohe (1886–1969), com quem manteve uma relação pessoal e que viria a assumir a direção da terceira fase da instituição.
A cadeira Barcelona, criada por Ludwig Mies van der Rohe e Lilly Reich para o Pavilhão Alemão na Exposição Internacional de Barcelona de 1929, tornou-se um dos móveis mais icônicos do modernismo
vicens/Wikimedia Commons
Embora Ludwig tenha conquistado grande proeminência, hoje se questiona a autoria de algumas obras e o apagamento de Lilly, como no caso da famosa cadeira Barcelona. “O que especialistas têm apontado é que muitos trabalhos poderiam ter sido de autoria exclusiva de Lilly ou, ao menos, contaram com sua colaboração. Um ponto significativo é que, após o fim da parceria afetiva, Ludwig não manteve a mesma profusão de obras que antes”, ressalta Aline.
Na oficina de escultura em madeira, Alma Siedhoff-Buscher (1899–1944) se destacou com uma produção numerosa, ainda hoje referência sobretudo em brinquedos educativos infantis. Antes da Bauhaus, ela havia estudado na Escola de Artes Aplicadas vinculada ao Museu de Artes Decorativas de Berlim.
Alma Siedhoff-Buscher foi uma designer alemã que se destacou na Bauhaus, especialmente pela criação de esculturas e brinquedos de madeira
chinnian/Wikimedia Commons
Com o apoio de Georg Muche (1895–1987), arquiteto e pintor, e Joseph Hartwig (1880–1956), escultor — ambos ligados à Bauhaus — Alma foi aceita na oficina de escultura em madeira. Seus estudos sobre desenvolvimento infantil foram aplicados já na primeira exposição da escola, em 1923, quando projetou decoração, mobiliário e brinquedos educativos. O sucesso foi tamanho que alguns desses itens passaram a ser comercializados pela Pestalozzi-Fröebel-Verlag, associação alemã dedicada à infância, o que desagradou Walter Gropius.
A produção inicial de Alma foi incluída no Catálogo de Modelos da Bauhaus, reconhecendo sua concepção inovadora sobre a habitação moderna e o papel da criança na percepção do mundo.
Em 2018, o Museu Judaico de Nova York apresentou uma exposição dedicada às peças têxteis de Anni Albers, destacando sua importância como pioneira da arte têxtil moderna e seu legado dentro e fora da Bauhaus
Flickr/Steve Bowbrick/Creative Commons
Mesmo nas oficinas associadas à ideia de “feminilidade”, como a de arte têxtil, houve uma produção significativa que se manteve ao longo do tempo. Um exemplo é a artista Anni Albers (1899–1994), que construiu uma carreira internacional de destaque e uma ampla produção têxtil.
Entre 1922 e 1931, permaneceu na Bauhaus, onde, impedida de seguir na pintura, voltou-se para o universo dos tecidos e tapeçarias. Suas criações se destacavam tanto pelas propriedades acústicas quanto pelas múltiplas possibilidades de percepção oferecidas ao público.
Cartão de identificação de Gunta Stölzl na Bauhaus, onde a palavra “estudante” foi riscada e substituída por “mestre”. À direita, tapeçaria criada por ela entre 1927 e 1928
Sascha-Wagner/Wikimedia Commons; Flickr/Jennifer May/Creative Commons | Montagem: Casa e Jardim
Em 1925, Anni casou-se com Josef Albers (1888–1976), então professor da Bauhaus. Com a ascensão do nazismo, o casal migrou para os Estados Unidos, onde ela atuou como professora, artista e freelancer associada ao Black Mountain College, importante escola de design na Carolina do Norte. Em 1949, tornou-se a primeira mulher a realizar uma exposição individual no Museum of Modern Art (MoMA), em Nova York. Ainda em vida, ela recebeu amplo reconhecimento, com 111 exposições realizadas ao redor do planeta.
Outro nome de destaque é Gunta Stölzl (1897–1983), única professora mulher da Bauhaus. Dedicada sobretudo ao têxtil, transformou a oficina em uma das mais rentáveis da instituição, combinando métodos artesanais com técnicas avançadas de produção industrial. Sua formação também incluiu estudos em pintura decorativa, pintura em vidro, cerâmica, história da arte e estilo na Kunstgewerbeschule, escola de artes aplicadas de Munique.
Muitas das mulheres da Bauhaus ainda têm suas histórias e produções pouco conhecidas na atualidade. Na foto de 1927, durante uma aula de tecelagem de Oskar Schlemmer na escadaria da Bauhaus, aparecem — do topo da escada, descendo de baixo para cima — Gunta Stölzl, Margaretha Reichardt, Ljuba Monastirskaja, Otti Berger, Elisabeth Müller, Lis Beyer-Volger, Rosa Berger, Lena Meyer-Bergner, Ruth Hollós-Consemüller e Lisbeth Oestreicher (Lisbeth Birmann-Oestreicher)
Wulf Herzogenrath/Oskar Schlemmer/Wikimedia Commons
Apagamento histórico que permanece
Os nomes aqui destacados representam apenas um recorte da participação das 462 mulheres na Bauhaus e de sua produção artística. Poucas receberam reconhecimento ainda em vida, enquanto muitas enfrentaram dificuldades para se consolidar em suas práticas devido à invisibilidade diante da produção de companheiros homens, em meio a uma sociedade patriarcal. Esse cenário foi agravado pelo contexto do nazismo e pela perseguição a diversos setores da população após a Segunda Guerra Mundial.
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Desse total, 367 biografias podem ser encontradas no site da Bauhaus Cooperation, associação sem fins lucrativos criada no centenário da Bauhaus, a qual visa recuperar a história sobre a escola e seus personagens, principalmente as mulheres.
As mulheres na Bauhaus enfrentaram resistências institucionais e estruturais que contribuíram para seu esquecimento na historiografia por muito tempo. Na foto, por volta de 1920, aparecem no telhado da Bauhaus em Weimar: Josef Albers, Hinnerk Scheper, Georg Muche, László Moholy-Nagy, Herbert Bayer, Joost Schmidt, Walter Gropius, Marcel Breuer, Wassily Kandinsky, Paul Klee, Lyonel Feininger, Gunta Stölzl (a única mulher) e Oskar Schlemmer
Apic/Bridgeman via Getty Images
A recuperação dessas histórias ganhou força principalmente a partir dos anos 1990, com a tese de doutorado de Anja Bohnhof em 1994, que investigou a relação entre gênero, arte e artesanato na Bauhaus. Posteriormente, autores como Ulrike Müller, Patrick Rössler e Elizabeth Otto publicaram livros que retomam o trabalho, os nomes e o legado das mulheres na escola.
“À medida que as mulheres foram entrando na academia e ocupando espaços em instituições de poder e de reescrita da história, suas trajetórias também passaram a ganhar evidência”, pontua Aline. “Desde o final do século 20, esse campo se fortalece, trazendo questionamentos à historiografia sobre as contribuições e o apagamento das mulheres não apenas na Bauhaus e no design, mas em diferentes áreas do conhecimento”, complementa Ana Beatriz.



