O arquiteto Marko Brajovic fala sobre carreira, natureza e cenografia

Nascido na Croácia e naturalizado brasileiro, o arquiteto e designer Marko Brajovic (@markobrajovic) é, antes de tudo, um apaixonado pela natureza. Desde sua primeira visita ao Brasil, em 2004, ele se dedica a estudos ligados à sustentabilidade para a aplicação em soluções de arquitetura e urbanismo.
Em pesquisas nos biomas brasileiros, aprende como os povos originários e os animais constroem suas casas e como a floresta é resiliente. “As arquiteturas ancestrais já passaram por crises climáticas e ensinam como deve ser a arquitetura contemporânea e futura”, diz o arquiteto, que atua em projetos socioambientais para melhorar a vida nas comunidades carentes e sonha em transformar as cidades em parques.
O templo Ayuru (nome tupi-guarani de um pássaro), que fica na Aldeia Rizoma,em Paraty, RJ
Fabio Lumanke/Divulgação
Graduado em arquitetura pela Universidade de Veneza, na Itália, Marko fez pós-graduação em biomimética e tecnologia interativa digital aplicada à arquitetura em Barcelona, na Espanha, onde abriu seu primeiro escritório. Depois de vivenciar os trópicos, conhecer a Amazônia e se encantar com a “monstruosidade” de São Paulo, mudou-se para o Brasil há 20 anos e montou seu Atelier na capital paulista em 2006.
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Desde então, com a metodologia da biomimética, ele cria projetos inspirados na natureza nas áreas de arquitetura, cenografia e design de interiores e produtos. “Além da biomimética, minhas linhas de trabalho são a comportamental – como o ser humano se relaciona com outras espécies – e a fenomenológica – como nossos sentidos nos fazem entender parte dos fenômenos naturais e nos definem na criação humana”, afirma. A seguir, a entrevista exclusiva que concedeu para Casa e Jardim.
Como era a casa da sua infância?
Meu pai era diretor de uma rede hoteleira na Croácia. Até os 12 anos, vivi em bangalôs junto ao Mar Mediterrâneo. Podia brincar na praia, participar das atividades de ecoturismo e fazer casas na árvore. A infância nos nutre e nos dá força para toda a vida. A conexão com a natureza é importante para mim.
Por que escolheu ser arquiteto?
Até os 17 anos, eu queria estudar arte e filosofia. Na Universidade de Veneza, vi que o curso de Arquitetura juntava todos os meus interesses: o entendimento do mundo pela filosofia e a criação dos mundos pela arte. A arquitetura não é uma profissão, é uma missão de vida. Me defino como um criativo que trabalha com vários formatos: arquitetura, cenografia, design de interiores e produtos.
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Como veio trabalhar no Brasil?
Morei um ano na Costa Rica para acompanhar a obra de uma casa que projetei. De volta à Europa, o sentimento de ter vivido nos trópicos ficou em mim. Me incomodava retornar para um lugar pacato. Os trópicos deram para minha alma uma excitação criativa forte. Em 2004, participei de um projeto de casas na Amazônia e, em 2005, voltei para lá como professor de arquitetura sustentável. Por sugestão de uma aluna, conheci São Paulo e me encantei por esse lindo monstro. Monstruosidade no sentido etimológico: uma beleza em constante transformação. Uma grande inspiração como cidade na relação com a Mata Atlântica e com suas próprias crises que leva a oportunidades criativas de entendimento. Após dar aulas na Escola da Cidade e na FAU-USP, fui contratado por dois anos para ser o diretor do Departamento de Design do Instituto Europeu de Design. Seduzido pela criatividade e pelas pessoas, dois anos viraram 20. Aqui encontrei minha esposa e nossos filhos nasceram.
O projeto de 2024 tem estrutura de bambu e cobertura de telhas inspiradas nas asas do pássaro
Fabio Lumanke/Divulgação
Quais suas referências profissionais?
A natureza, que é um designer de 3,8 bilhões de anos. Fica aperfeiçoando, errando e evoluindo o próprio processo de design. A natureza me ensina que não tem um produto final e sim um processo de co-evolução. Assim vejo a arquitetura e o design, que co-evoluem na relação com o ecossistema, o ser humano e outras espécies. Minhas referências não estão na arquitetura, mas nas artes clássica e contemporânea, na biologia, na ecologia e na filosofia, como forma de entender e prospectar mundos.
RETRATO | O arquiteto Marko Brajovic fala sobre carreira, natureza e cenografia em entrevista exclusiva para a Casa e Jardim
Wesley Diego/Editora Globo
Mas há pessoas que te influenciam?
No Brasil, minhas influências estão na arquitetura das civilizações indígenas, ancestrais e atuais. Me interessa como cada uma se adapta aos próprios biomas e ecossistemas. Pesquiso materiais, técnicas e estratégias. A sensibilidade ao entorno socioambiental é exclusiva da arquitetura indígena no país. Sobre pessoas, cito o arquiteto Richard Buckminster Fuller, o poeta Ailton Krenak, o artista Friedensreich Hundertwasser, a bióloga Lynn Margulis e os filósofos Emanuele Coccia e Martin Heidegger.
A arquitetura não é uma máquina, ideia que vem do modernismo, mas um organismo que se adapta, que dialoga e que é permeável às transformações.”
De 2022, o projeto do Mirante do Madadá, em construção às margens do Rio Negro, propõe imersão na floresta em hospedagens na forma de “casulos” com estruturas leves e permeáveis e implantação inspiradas nas sementes
Render Atelier Marko Brajovic/Divulgação
Já fez muitos projetos na floresta?
Construímos várias casas na Aldeia Rizoma, em Paraty, que é um lugar de experimentação. Há 15 anos testamos materiais e técnicas construtivas na busca do entendimento de como habitar o planeta com a combinação da arquitetura ancestral e dos materiais futuristas. Hoje temos projetos importantes em fase de construção. O Mirante do Madadá, a duas horas de Manaus, no Amazonas, é o de maior relevância. É um portal de transformação pensado na sensibilidade socioambiental com criações de novas narrativas inspiradas nas arquiteturas ribeirinhas indígenas do Rio Negro. São vários habitáculos horizontais e verticais integrados na floresta com espaços grandes para eventos e lazer, articulados por trilhas. Uma arquitetura biomimética baseada na estrutura de sementes e na implantação delas como plantas no território. Urbanismo interconectado e sensível à topografia, à flora e à fauna.
As duas construções maiores são espaços de cura, eventos e lazer
Render Atelier Marko Brajovic/Divulgação
Com quais materiais trabalha?
Me interessa encontrar novos materiais e usar os comuns de forma diferente. Pesquisamos os biomateriais. Gosto de juntar materiais orgânicos e estruturas tecnológicas. Produtos contemporâneos inteligentes, práticos e resistentes, que dão visão futura de como habitar de forma leve os ambientes. São elementos pré-fabricados que têm capacidade de modulação. Isso dá a leveza que me interessa na arquitetura. Não gosto do concreto pelo impacto ambiental e por outras conotações negativas. É inevitável usá-lo em componentes técnicos da obra, mas não como elemento principal e narrativo do projeto. Me atraem materiais como a terra em formas ancestrais e contemporâneas. A criação de blocos e outros elementos feitos sem queima por pessoas locais, que estudo usar em projetos na Amazônia, no Cerrado e na Caatinga.
As duas construções maiores são espaços de cura, eventos e lazer
Render Atelier Marko Brajovic/Divulgação
Minhas influências estão na arquitetura das civilizações indígenas. O que me interessa está na ancestralidade e no futurismo. Tudo o que criamos é inspirado pela natureza que está no entorno.”
RETRATO | O arquiteto Marko Brajovic fala sobre carreira, natureza e cenografia em entrevista exclusiva para a Casa e Jardim
Wesley Diego/Editora Globo
Como são essas estruturas tecnológicas?
São membranas de fechamento. No Mirante do Madadá, experimentamos estrutura metálica com lona tensionada. Em vez de paredes, colocamos as membranas, que são leves e nos conectam melhor com a natureza. Na Caatinga, usamos a terra e outros materiais locais com estrutura pré-fabricada de aço. Na Mata Atlântica, utilizamos a madeira engenheirada, como a MLC – Madeira Laminada Colada –, que permite criar estruturas complexas. Gosto de saber a origem dos materiais. É fundamental que o arquiteto vá ao local ver o manejo e entender a responsabilidade em relação às madeiras que usa.
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Seus projetos estão em todo o país?
Tenho projetos nos cinco biomas brasileiros que eu estudo. Cada bioma tem sua especificidade. A Caatinga é fascinante como exemplo de regeneração, pela capacidade de renascer, se adaptar e se transformar. Na Amazônia, fizemos os projetos de bibliotecas flutuantes e escolas comunitárias do Rio Negro. É um esforço coletivo. Doamos o projeto para ser interpretado e construído pelas comunidades. Muitas aproveitam madeiras de áreas queimadas e a mistura de vários tipos parece marchetaria. A consequência de algo terrível é transformado em algo belo. Criamos condições para que a arquitetura se manifeste pelas pessoas que vão construir e habitar o lugar. O processo é mais permeável.
Projeto Escolas Comunitárias do Rio Negro, no Amazonas, construídas de 2021 a 2025 por moradores com madeiras, algumas de queimadas
Render Atelier Marko Brajovic/Divulgação
Quais os desafios com as mudanças climáticas?
O grande desafio da arquitetura é entrar no fluxo dos movimentos da natureza e não combatê-los. O modernismo fazia grandes lajes suspensas, se sobrepondo às forças da gravidade e manifestando a supremacia do ser humano. Hoje o importante é a capacidade de adaptação e de entender as formas e as estruturas, que não derivam de visão tectônica que se impõe em cima da natureza por peso, mas que trabalham com elasticidade, tração e elementos trançados. Precisamos aprender com arquiteturas ancestrais que passaram por crises climáticas e levar o conhecimento para a contemporânea e a futura.
Como aplicar seus estudos em projetos urbanos?
Os modelos mecanicistas, modernistas, de pensar a cidade como uma máquina ou sistema que se regula por decisões de mercado e eficiência funcional, colapsam nas metrópoles. Precisamos aprender com a floresta, com a resiliência. Nosso estudo é da cidade floresta, onde seres humanos coexistem com não humanos. Por que cães queimam as patas no asfalto e os pássaros morrem batendo no vidro de prédios? Temos que mudar a forma de habitar a cidade. O ser humano deve se relacionar com o ecossistema de maneira menos suicida. Penso a cidade com parques que transbordam seus limites.
RETRATO | O arquiteto Marko Brajovic segura um nicho de pássaro, do acervo de objetos de estudo, em seu escritório em Pinheiros, São Paulo
Wesley Diego/Editora Globo
A casa é uma segunda pele, que se relaciona com a biosfera, como se o corpo fosse se expandir através da arquitetura. A pessoa deve se sentir parte da natureza.”
De 2023, o projeto Laboratório Criativo da Amazônia, no Pará, é composto de módulos desmontáveis e transportáveis com estrutura geodésica de conectores de aço envolvida por membrana de polímeros
Amazonia 4.0/Divulgação
Isso é possível acontecer em São Paulo?
A cidade precisa mudar rápido por onde a natureza queira fluir e florescer. Meu fascínio por São Paulo é entender como a cidade dialoga com o potencial da Mata Atlântica, que retomaria esse lugar com vontade. É importante reflorestar a cidade, limpar os rios e transformar os terrenos baldios em hortas urbanas. A partir da biomimética, pensar em materiais e tecnologia para as superfícies dos prédios, que ventilariam melhor, usariam menos o ar-condicionado e teriam proteções para a colisão de pássaros, e pisos interessantes não só para o ser humano. Aplicar na arquitetura, no design e no urbanismo o conceito da cidade como floresta. A arquitetura não é uma máquina, ideia que vem do modernismo, mas um organismo vivo que se adapta, dialoga e é permeável às transformações. Com a fenomenologia aplicada à arquitetura, deixamos fluir a inteligência das sensações.
De 2023, o projeto Laboratório Criativo da Amazônia, no Pará, é composto de módulos desmontáveis e transportáveis com estrutura geodésica de conectores de aço envolvida por membrana de polímeros
Amazonia 4.0/Divulgação
Na biomimética, como é uma casa na cidade?
Projetamos em São Paulo uma casa com argila que veio do lugar de origem do cliente. São signos e materialidades. Associados aos tecnológicos, os materiais de fora habitam a cidade de outra forma. Nessa casa, usamos estrutura metálica e MLC. Em outro projeto na cidade, produzimos brises com folhas de carnaúba comprimidas. A linha comum desses projetos é a sensibilidade com o bioma da Mata Atlântica; a importância da pessoa se sentir parte da natureza. A casa é uma segunda pele permeável, que se relaciona à biosfera, como se o corpo fosse se expandir através da arquitetura.
Fachada com revestimento Biomas, da Decortiles
Render Atelier Marko Brajovic/Divulgação
Como são as formas dessas casas urbanas?
A forma não é necessariamente biomórfica. O orgânico não tem que ser curvo. Os parâmetros de uma arquitetura orgânica são os materiais, os comportamentos e os fenômenos que a arquitetura gera entre o usuário e o entorno que ele habita. Estamos reformando uma casa em São Paulo que terá arcos, que derivam da arquitetura do Oriente Médio. A materialidade vai transformar este signo em uma arquitetura brasileira com espacialidade de casa pátio, que não é endêmica do país.
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Já criou produtos para o mercado de design?
Desenhamos os revestimentos Biomas para Decortiles. Entre 2024 e este ano, lançamos seis séries com padrões visuais, táteis e sensoriais inspirados nos biomas brasileiros. Já produzimos objetos, como cadeiras e bancos de bambu, além de peças para os interiores que projetamos.
Projetos na Aldeia Rizoma, criados por Marko Brajovic na Mata Atlântica. A Casa Arca, de 2015, tem estrutura autoportante com módulos de galvalume
Victor Affaro/Divulgação
O que ainda quer projetar?
Estou feliz de trabalhar em projetos que causam impacto positivo às comunidades. Gostaria de continuar nesse caminho da arquitetura inspirada pelos contextos socioambientais. Projetar espaços multissensoriais, de conexão e entendimento da força, beleza, poesia e importância dos biomas e seus povos. A riqueza da arquitetura é projetar infraestruturas que potencializam as relações.
Projetos na Aldeia Rizoma, criados por Marko Brajovic na Mata Atlântica. A Casa Arca, de 2015, tem estrutura autoportante com módulos de galvalume
Victor Affaro/Divulgação
Como vê o uso da inteligência artificial?
Não coloco a inteligência artificial como um valor moral. A natureza é a maior tecnologia que temos. Não vejo contradição com a tecnologia digital. A cibernética nasce do entendimento ecológico do mundo. Usamos software paramétrico para simular e modelar objetos inspirados na natureza. E depois produzimos artesanalmente e imprimimos elementos em 3D. Gosto desse movimento high-tech, onde a natureza e a tecnologia navegam juntas.
Projetos na Aldeia Rizoma, criados por Marko Brajovic na Mata Atlântica. A Casa Macaco, de 2020, é inspirada na verticalidade da floresta na forma, com estrutura de madeira intertravada revestida por pele de galvalume
Noon Creative Studio/Divulgação
Qual legado deixará para as futuras gerações?
Coragem, sensibilidade, ética e amor. Ser ousado em experimentar e não se render ao que o mercado pede. Ser sensível e ter coragem de transformar pelo amor aos seres vivos. Se inspirar na natureza, porque as respostas estão nela.

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