O balcão, antes visto como espaço de passagem ou refúgio para clientes solitários, vem conquistando protagonismo nos restaurantes brasileiros. Ele deixa de ser apenas um detalhe de layout ou uma solução para otimizar espaço e se transforma em palco da experiência gastronômica, onde a refeição ganha dimensão sensorial, social e pedagógica. Nesse contexto, os clientes não apenas comem — eles observam, aprendem, interagem e se conectam com os chefs, vivendo o jantar de uma maneira que a mesa tradicional dificilmente proporciona.
Após mudar de endereço, o restaurante Boia adicionou um balcão com quatro lugares ao seu espaço
Funway
No Boia, em Salvador, essa proximidade com a cozinha resulta em experiências intimistas e humanas. Focado em pescados provenientes da pesca sustentável, o restaurante ajusta seus menus conforme a oferta da estação. Em agosto de 2024, ao mudar-se para o Horto Florestal, o Boia adicionou um balcão para quatro pessoas ao seu espaço, uma escolha intuitiva do chef Kaywa Hilton. Para ele, o balcão é disputado pelos “apaixonados por gastronomia”, que podem acompanhar cada preparo, conversar com os cozinheiros e absorver detalhes sobre técnicas e ingredientes. “Costumo brincar que é como uma sala VIP: você acompanha o ‘show’ de outro ângulo”, diz.
O Bao de Siri é um dos pratos servidos no Boia, comandado pelo chef Kaywa Hilton
Funway
Essa interação não beneficia apenas o cliente: também funciona como um aprendizado para a equipe, que passa a compreender melhor postura, comunicação e execução dos pratos. “Poucos cozinheiros têm contato direto com os clientes, e acho isso fundamental para o crescimento deles. Formar pessoas é uma das minhas maiores missões hoje, e esse contato ajuda muito nesse processo”, comenta Kaywa.
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No Lasai, os clientes podem observar o preparo dos pratos de perto
Divulgação/Lasai
No Rio de Janeiro, o Lasai, restaurante estrelado do chef Rafa Costa e Silva, reforça essa lógica. Após reduzir e tornar o empreendimento mais intimista em 2022, com capacidade para apenas 10 pessoas sob reserva, o Lasai transformou o balcão em uma extensão da cozinha, aproximando clientes e chefs em um formato que remete a encontros entre amigos, mas com precisão e rigor de um restaurante premiado. “Estamos lotados todos os dias desde que adotamos este modelo. Para mim, é a maior prova de que as pessoas realmente gostam do que oferecemos”, afirma Rafa.
O cardápio do Lasai valoriza produtos brasileiros, apresentando mudanças de acordo com sazonalidade e criatividade do chef Rafa Costa e Silva
Divulgação/Lasai
Trazendo um menu-degustação com foco na gastronomia brasileira contemporânea, o modelo permite utilizar ao máximo produtos frescos e orgânicos, testar combinações de sabores e criar um cardápio em constante movimento, de acordo com a disponibilidade de ingredientes e novas ideias. “Conseguimos cozinhar de forma mais criativa e mudar o cardápio constantemente. Temos uma horta que abastece quase 100% do restaurante”, explica o chef.
No Standing Susi Bar, o grande protagonista é o balcão, onde os clientes podem degustar pratos exclusivos em pé
Divulgação/Standing Sushi Bar
Em São Paulo, o empresário Bruno Erlinger segue tendência similar no Standing Sushi Bar, inaugurado em março deste ano em Pinheiros. Inspirado em restaurantes japoneses, o conceito privilegia comer em pé diante do sushiman, transformando o balcão no “camarote” da cozinha. “O balcão é o coração da experiência do Standing Sushi Bar — eu costumo chamá-lo de ‘palco’”, compartilha Bruno sobre a casa de 46 lugares, onde o balcão para 14 pessoas é o espaço mais disputado.
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Sushis, peixes frescos e opções quentes compõem o cardápio servido no balcão do Standing Sushi Bar
Divulgação/Standing Sushi Bar
Alguns pratos são exclusivos do balcão, como sushis com algas, que devem ser consumidos rapidamente, e peixes fresquíssimos maturados pelo sushiman Rodrigo Santos. Há ainda opções quentes, como o donburi de wagyu, uma carne grelhada no carvão sobre cama de shari, com gema curada. “Esperávamos que a rotatividade no balcão fosse maior, mas na prática a diferença é menor do que imaginávamos”, comenta.
O Varanda D.inner, comandado pelo chef Fábio Lazzarini desenvolveu um “Omakase da Carne”
Henrique Peron
O conceito também se aplica à gastronomia do Varanda D.inner, onde o chef Fábio Lazzarini desenvolveu um “Omakase da Carne”, baseado na tradição japonesa de menus-degustação oferecidos no balcão, em que o chef tem carta branca para criar e servir os pratos. Ali, os clientes acompanham o preparo de cortes nobres, aprendendo sobre sabor, origem e técnicas. “Essa intimidade cria confiança e uma conexão verdadeira – o cliente não está apenas comendo, está participando da experiência”, ressalta Fábio.
Com referência à culinária asiática, o cardápio do Varanda D.inner traz o foco para as carnes
Henrique Peron
Atendendo apenas seis pessoas por noite, sempre com reserva, Fábio utiliza ingredientes da terra e do mar para preparar os pequenos bocados com primor técnico e criatividade. “Se pensarmos bem, a carne nunca esteve no balcão — sempre foi serviço à mesa. Nosso omakase quebra esse paradigma: o cliente consegue tirar todas as dúvidas sobre sabor, cortes e procedência na hora, enquanto aprecia”, completa.
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O balcão veio para ficar?
O que une essas experiências é a transformação do balcão em elemento central da narrativa do restaurante. Ele aproxima o cliente do alimento, de quem o prepara e de outros frequentadores, criando um ambiente social dinâmico. Mas será que o balcão veio para ficar?
O balcão é o “camarote” da cozinha no Standing Sushi Bar
Divulgação/Standing Sushi Bar
Segundo o chef Rafa Costa e Silva, essa experiência já é consolidada em países da Ásia, Estados Unidos e Europa, e também possui exemplos sólidos no Brasil. Para o empresário Bruno Erlinger, o balcão não é futuro, é presente: “Esse movimento já acontece lá fora há muito tempo, e no Brasil vemos cada vez mais restaurantes explorando o serviço de balcão como ferramenta”. Kaywa Hilton concorda, ressaltando que a percepção sobre o espaço mudou: “Hoje, não é mais lugar de espera. Virou prioridade. Muita gente reserva querendo estar ali”.
Fábio Lazzarini acredita que o balcão se consolidará como uma experiência. “O brasileiro gosta da mesa, da celebração coletiva, mas está cada vez mais aberto a vivências gastronômicas exclusivas e intimistas. O balcão é um espaço de confiança, onde o cliente entrega o jantar nas mãos do chef. Esse serviço pode ser diferencial, mas só faz sentido se for bem executado”, conclui.
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Após mudar de endereço, o restaurante Boia adicionou um balcão com quatro lugares ao seu espaço
Funway
No Boia, em Salvador, essa proximidade com a cozinha resulta em experiências intimistas e humanas. Focado em pescados provenientes da pesca sustentável, o restaurante ajusta seus menus conforme a oferta da estação. Em agosto de 2024, ao mudar-se para o Horto Florestal, o Boia adicionou um balcão para quatro pessoas ao seu espaço, uma escolha intuitiva do chef Kaywa Hilton. Para ele, o balcão é disputado pelos “apaixonados por gastronomia”, que podem acompanhar cada preparo, conversar com os cozinheiros e absorver detalhes sobre técnicas e ingredientes. “Costumo brincar que é como uma sala VIP: você acompanha o ‘show’ de outro ângulo”, diz.
O Bao de Siri é um dos pratos servidos no Boia, comandado pelo chef Kaywa Hilton
Funway
Essa interação não beneficia apenas o cliente: também funciona como um aprendizado para a equipe, que passa a compreender melhor postura, comunicação e execução dos pratos. “Poucos cozinheiros têm contato direto com os clientes, e acho isso fundamental para o crescimento deles. Formar pessoas é uma das minhas maiores missões hoje, e esse contato ajuda muito nesse processo”, comenta Kaywa.
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No Lasai, os clientes podem observar o preparo dos pratos de perto
Divulgação/Lasai
No Rio de Janeiro, o Lasai, restaurante estrelado do chef Rafa Costa e Silva, reforça essa lógica. Após reduzir e tornar o empreendimento mais intimista em 2022, com capacidade para apenas 10 pessoas sob reserva, o Lasai transformou o balcão em uma extensão da cozinha, aproximando clientes e chefs em um formato que remete a encontros entre amigos, mas com precisão e rigor de um restaurante premiado. “Estamos lotados todos os dias desde que adotamos este modelo. Para mim, é a maior prova de que as pessoas realmente gostam do que oferecemos”, afirma Rafa.
O cardápio do Lasai valoriza produtos brasileiros, apresentando mudanças de acordo com sazonalidade e criatividade do chef Rafa Costa e Silva
Divulgação/Lasai
Trazendo um menu-degustação com foco na gastronomia brasileira contemporânea, o modelo permite utilizar ao máximo produtos frescos e orgânicos, testar combinações de sabores e criar um cardápio em constante movimento, de acordo com a disponibilidade de ingredientes e novas ideias. “Conseguimos cozinhar de forma mais criativa e mudar o cardápio constantemente. Temos uma horta que abastece quase 100% do restaurante”, explica o chef.
No Standing Susi Bar, o grande protagonista é o balcão, onde os clientes podem degustar pratos exclusivos em pé
Divulgação/Standing Sushi Bar
Em São Paulo, o empresário Bruno Erlinger segue tendência similar no Standing Sushi Bar, inaugurado em março deste ano em Pinheiros. Inspirado em restaurantes japoneses, o conceito privilegia comer em pé diante do sushiman, transformando o balcão no “camarote” da cozinha. “O balcão é o coração da experiência do Standing Sushi Bar — eu costumo chamá-lo de ‘palco’”, compartilha Bruno sobre a casa de 46 lugares, onde o balcão para 14 pessoas é o espaço mais disputado.
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Sushis, peixes frescos e opções quentes compõem o cardápio servido no balcão do Standing Sushi Bar
Divulgação/Standing Sushi Bar
Alguns pratos são exclusivos do balcão, como sushis com algas, que devem ser consumidos rapidamente, e peixes fresquíssimos maturados pelo sushiman Rodrigo Santos. Há ainda opções quentes, como o donburi de wagyu, uma carne grelhada no carvão sobre cama de shari, com gema curada. “Esperávamos que a rotatividade no balcão fosse maior, mas na prática a diferença é menor do que imaginávamos”, comenta.
O Varanda D.inner, comandado pelo chef Fábio Lazzarini desenvolveu um “Omakase da Carne”
Henrique Peron
O conceito também se aplica à gastronomia do Varanda D.inner, onde o chef Fábio Lazzarini desenvolveu um “Omakase da Carne”, baseado na tradição japonesa de menus-degustação oferecidos no balcão, em que o chef tem carta branca para criar e servir os pratos. Ali, os clientes acompanham o preparo de cortes nobres, aprendendo sobre sabor, origem e técnicas. “Essa intimidade cria confiança e uma conexão verdadeira – o cliente não está apenas comendo, está participando da experiência”, ressalta Fábio.
Com referência à culinária asiática, o cardápio do Varanda D.inner traz o foco para as carnes
Henrique Peron
Atendendo apenas seis pessoas por noite, sempre com reserva, Fábio utiliza ingredientes da terra e do mar para preparar os pequenos bocados com primor técnico e criatividade. “Se pensarmos bem, a carne nunca esteve no balcão — sempre foi serviço à mesa. Nosso omakase quebra esse paradigma: o cliente consegue tirar todas as dúvidas sobre sabor, cortes e procedência na hora, enquanto aprecia”, completa.
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O balcão veio para ficar?
O que une essas experiências é a transformação do balcão em elemento central da narrativa do restaurante. Ele aproxima o cliente do alimento, de quem o prepara e de outros frequentadores, criando um ambiente social dinâmico. Mas será que o balcão veio para ficar?
O balcão é o “camarote” da cozinha no Standing Sushi Bar
Divulgação/Standing Sushi Bar
Segundo o chef Rafa Costa e Silva, essa experiência já é consolidada em países da Ásia, Estados Unidos e Europa, e também possui exemplos sólidos no Brasil. Para o empresário Bruno Erlinger, o balcão não é futuro, é presente: “Esse movimento já acontece lá fora há muito tempo, e no Brasil vemos cada vez mais restaurantes explorando o serviço de balcão como ferramenta”. Kaywa Hilton concorda, ressaltando que a percepção sobre o espaço mudou: “Hoje, não é mais lugar de espera. Virou prioridade. Muita gente reserva querendo estar ali”.
Fábio Lazzarini acredita que o balcão se consolidará como uma experiência. “O brasileiro gosta da mesa, da celebração coletiva, mas está cada vez mais aberto a vivências gastronômicas exclusivas e intimistas. O balcão é um espaço de confiança, onde o cliente entrega o jantar nas mãos do chef. Esse serviço pode ser diferencial, mas só faz sentido se for bem executado”, conclui.
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