O truque das camadas: como deixar qualquer ambiente mais sofisticado

Na decoração, cada escolha ajuda a contar a história do espaço. Em vez de pensar o ambiente como um todo acabado desde o início, a construção do projeto acontece de forma mais interessante quando é feita aos poucos. As cores definem a atmosfera, as texturas acrescentam profundidade e conforto, as peças de design conferem identidade, enquanto as obras de arte trazem caráter e emoção. Quando bem orquestradas, essas camadas se conectam de maneira natural, resultando em interiores sofisticados e cheios de significado.
Para entender como aplicar cada uma dessas camadas na decoração do seu lar, a Casa Vogue conversou com o arquiteto João Gabriel, à frente do escritório JG+ Arquitetos, fundador do Sala Preta Mentoria — iniciativa voltada à formação e ao impulsionamento de novos profissionais negros em todo o país — e integrante do Casa Vogue 50. A seguir, ele compartilha orientações práticas para quem deseja criar espaços mais autênticos e bem resolvidos. Confira:
Como começar?
Apartamento assinado pelo arquiteto João Gabriel
Leo Silva
“Eu defino decoração em camadas como construir o ambiente por etapas, como se você estivesse montando a narrativa do espaço. Primeiro vem o que é estrutural, depois o que dá sensação, e por fim o que dá identidade”, explica João Gabriel. Segundo o arquiteto, o ponto de partida deve ser a base do projeto: a definição do layout, dos volumes maiores, dos objetos estruturais, além das cores e dos principais materiais.
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A paleta cromática, em especial, funciona como um fio condutor de todo o projeto. “Ela organiza o olhar e garante unidade mesmo quando você mistura materiais, estilos e objetos. Sem uma paleta clara, a casa pode até ter boas peças, mas vira um conjunto sem direção”, afirma. Em seus projetos, João Gabriel costuma trabalhar com cores neutras — mas nunca sem vida. “Eu gosto de uma base calma que me permita colocar cor com intenção, em pontos estratégicos. Quando eu parto de tons marcantes, é porque o espaço ou a pessoa pedem isso, e porque eu sei onde eu vou “descansar” o olhar depois”, completa.
Com as decisões iniciais definidas, é hora de pensar na iluminação, nos tapetes e nas cortinas, elementos que, segundo ele, “já mudam a sensação” do espaço. Na sequência, entram as obras de arte, os objetos decorativos e as peças carregadas de memória afetiva. Por fim, surgem “os detalhes finos, que são a cereja do bolo”.
O papel do design
Sala de jantar e cozinha do Casa Vogue Experience 2025
André Klotz
“Móveis são camadas estruturais porque definem o ritmo do ambiente. Eles resolvem escala, circulação e uso”, afirma João Gabriel ao destacar a importância do mobiliário e das peças de design, que ele define como o “esqueleto” do projeto. “A partir daí, você veste o espaço com iluminação, tapete, cortina, arte, objetos”.
Nem todos os móveis, no entanto, precisam disputar protagonismo. Peças assinadas e icônicas assumem naturalmente esse papel, enquanto outras entram para apoiar a composição. “Peça icônica é como um ponto de exclamação. Se tiver muitas, vira barulho. Eu gosto de escolher uma ou duas peças com mais presença e deixar o resto ser suporte. E esse suporte não precisa ser sem graça, ele só precisa ser mais silencioso para valorizar a protagonista”, explica.
E as texturas?
Projeto do arquiteto João Gabriel
Leo Silva
Responsáveis por trazer profundidade e aconchego, as texturas são fundamentais para o equilíbrio do ambiente. “Mesmo quando a paleta é mais discreta, a textura segura o projeto. Renda, linho, madeira, cerâmica, palha, pedra, tudo isso cria sombra, cria relevo e dá vontade de ficar”, comenta o arquiteto. Por isso, a escolha criteriosa dos materiais é essencial para transmitir a sensação desejada em cada ambiente.
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Nesse processo, João Gabriel sugere a combinação de materiais quentes e frios para enriquecer a composição: “Madeira com pedra, linho com couro, cerâmica com metal, palha com vidro, cimento com tecido. A chave é ter contraste, mas com repetição inteligente”.
Arte e memória
Sala de música e arte do Casa Vogue Experience 2025
André Klotz
É nesse momento que a identidade do morador se revela por completo. “Arte e objetos são a assinatura do espaço. É onde a casa vira autobiografia. É o que tira o ambiente do genérico. Uma casa pode estar tecnicamente perfeita, mas sem arte e sem objetos que tenham intenção, ela não tem alma”, afirma João Gabriel.
Além das obras de arte, entram em cena peças carregadas de significado pessoal — lembranças de família, viagens ou momentos especiais. “Eu insiro elementos pessoais do cliente como parte da curadoria, não como exceção. Primeiro eu entendo o que é essencial afetivamente, depois eu escolho como isso aparece: às vezes em destaque, às vezes em composição, às vezes em um lugar mais íntimo. O segredo é dar contexto visual para esse item, para ele parecer escolhido, e não jogado”, pontua.
Espaços de respiro
Ambiente projetado por João Gabriel
Leo Silva
Todas as camadas são importantes — inclusive os vazios. Preencher cada canto com móveis, cores, texturas e arte pode comprometer a leitura do espaço. Para evitar excessos, João Gabriel recomenda atenção à composição: “Espaço vazio também é camada. Eu evito repetir informação demais no mesmo campo de visão, controlo quantidade de estampas, e crio hierarquia: o que é protagonista, o que é coadjuvante e o que é fundo”.
Primeiro passo
Espaço assinado pelo arquiteto João Gabriel
Leo Silva
Para quem ainda se sente perdido, o arquiteto sugere começar pelo essencial: “Primeiro, defina uma paleta simples. Depois, resolva o essencial do conforto: um bom tapete, uma cortina que abrace, uma iluminação mais quente. Em seguida, escolha poucas peças com significado, em vez de muitas aleatórias”.
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Por fim, ele reforça que uma casa com identidade se constrói ao longo do tempo. “Casa boa não tem pressa. Na prática isso significa entregar um projeto que já nasce completo, mas com margem para amadurecer”, define. Decorar aos poucos, inclusive, permite que o espaço acompanhe as transformações de quem vive ali. E, diante de cada nova escolha, vale sempre se perguntar: essa peça soma ou apenas ocupa espaço?
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