Origem nordestina: três designers que transformam o território em mobiliário

Durante muito tempo, o design produzido no Nordeste foi enquadrado quase automaticamente como artesanato. Não como escolha conceitual ou reconhecimento legítimo, mas como uma forma de não nomeá-la como realmente é. Este rótulo funcionou como um desvio confortável: ao chamar de artesanato, evita-se nomear como projeto ou como pensamento contemporâneo.
Esse enquadramento criou uma hierarquia silenciosa, onde o que vinha do Nordeste era visto como expressão cultural, enquanto o que surgia em outros centros era tratado como inovação. O resultado foi um apagamento do processo criativo, como se essas produções não partissem de decisões claras sobre forma, função, material e linguagem. Mas essa leitura nunca se sustentou no tempo.
Hoje, designers nordestinos transformam matéria e referência em mobiliário autoral que dialoga com o presente e aponta para o futuro. Reconhecer essas criações como design é reposicionar o olhar sobre o que entendemos como produção brasileira. Nesta coluna, apresento três designers que mostram que o design feito no Nordeste não precisa ser renomeado para existir. Ele já é design, e é parte fundamental do que estamos construindo agora.
Giovanna Arruda
A designer Giovanna Arruda com o Banquinho Oricuri, com assento tramado à mão em palha natural
MAVI/Divulgação
Giovanna Arruda Conceição, conhecida como Gio Arruda, tem 29 anos, nasceu em Surubim, no interior de Pernambuco, e vive atualmente em Aracaju, Sergipe. Vinda da arquitetura, sua aproximação com o design de mobiliário nasce de um percurso afetivo e territorial, atravessado desde cedo por referências femininas.
Na infância, observando a avó e as tias costurando, bordando ou sendo inventivas/criativas com o que tinham disponível, Gio compreendeu o fazer manual como pensamento e construção. O mobiliário surge então como um espaço onde ela articula arquitetura, matéria e memória, resultando em peças que se comportam como pequenas estruturas carregadas de história e identidade. Hoje, esse fazer também se constrói em diálogo com artesãs, em processos conduzidos majoritariamente por mulheres.
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“Meu caminho até o design de mobiliário não foi apenas técnico, foi sobretudo afetivo. O lugar de onde eu vim moldou quem sou hoje e se reflete diretamente no meu trabalho”, afirma. Essa origem aparece no uso de fibras naturais, palhas, madeiras e técnicas tradicionais, como a palha de oricuri e a taboa, que trazem uma inteligência construtiva ancestral. Seu trabalho parte de geometrias simples, atravessadas por matérias vivas e processos feitos a muitas mãos.
Ao projetar o futuro, Gio imagina um design nordestino reconhecido não como regional, mas como design brasileiro contemporâneo, potente e profundamente conectado ao território
Érico Gondim
O designer Érico Gondim e a Poltrona Sucuri, com curvas que rementem a silhueta da cobra sucuri, feitos em trançado de palha de carnaúba
Divulgação
Érico Gondim é designer, artista e artesão. Cearense, nascido e criado em Fortaleza, atua a partir de um estúdio que também funciona como galeria, onde desenvolve produtos autorais, projetos industriais e artesanais, além de trabalhos em expografia, cenografia e arte contemporânea.
Sua trajetória começou nas artes visuais de forma autodidata. Passou pelo design gráfico, pela publicidade, pela moda e se formou em design pelo Instituto Dragão do Mar. Essa trajetória diversa foi o que o levou à tridimensionalidade como linguagem central, entendendo o mobiliário como um campo onde ideia, matéria e cultura se tornam corpo.
“O que sempre me motivou foi a minha cultura, as histórias em torno dos objetos e a maneira criativa que o Nordeste encontra para lidar com a escassez e as adversidades”, afirma. O Nordeste aparece em seu trabalho não como tema, mas como essência. Está nas referências à arte popular, ao folclore, à arquitetura colonial, às tradições indígenas, às fibras naturais, ao litoral, às serras e ao sertão. Sua linguagem se constrói a partir da multiplicidade, do ritmo, da textura e da interação, valorizando materiais muitas vezes desconsiderados e ressignificando técnicas e iconografias locais.
Para Érico, o mobiliário precisa contar uma história, provocar emoção e convidar ao toque. Quando pensa no futuro, acredita que o design nordestino ganha força justamente quando assume sua identidade, narra suas próprias histórias e se posiciona no mundo não pela cópia, mas pela potência do que é.
Caio Lobo
O designer Caio Lobo sentado em sua Poltrona Contra, que apresenta um conceito de “ser do contra”, ao fugir de padrões de uma cadeira comum
Renato Moraes/Divulgação
Caio Lobo é designer pernambucano, nascido em Garanhuns, no Agreste, e hoje vive no Recife. Criativo e espontâneo, constrói sua trajetória a partir de uma relação íntima com a arte, o artesanato e a decoração, universos que sempre estiveram presentes em sua vida por influência familiar. Embora tenha se formado em Administração pela UFPE, foi apenas no final da graduação que percebeu que os móveis que admirava tinham autoria, conceito e discurso. A partir desse despertar, tudo aconteceu de forma orgânica. Em 2012, desenhou sua primeira peça, a poltrona Vazio e, desde então, passou a entender o mobiliário como um campo de expressão pessoal, com identidade, memória e cotidiano se converidos em forma física.
O Nordeste atravessa seu trabalho de maneira natural, quase intuitiva. Está nos nomes das peças, como a poltrona Paêbirú, o rack Agreste ou o porta discos Tramela. Caio traduz paisagens, músicas, deslocamentos e observações do dia a dia em móveis que equilibram o artesanal e o conceitual. Seu processo mistura experimentação manual com rigor de projeto, criando uma linguagem própria que une o popular ao contemporâneo.
Para ele, o design nordestino vive um momento promissor, justamente por essa capacidade de criar a partir da mistura e da autenticidade, ampliando o repertório do design brasileiro e ocupando novos espaços sem abrir mão de suas raízes.
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Ao acompanhar essas trajetórias, fica evidente que o design feito no Nordeste não pede mais permissão para existir. Ele acontece, se afirma e se transforma a partir de experiências reais, de processos consistentes e de uma relação honesta com o território. Não há esforço em se encaixar em modelos externos, mas sim em expandir o que entendemos como design brasileiro, ampliando suas referências, materiais e narrativas.

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