Os segredos e detalhes arquitetônicos de uma das igrejas mais icônicas da Bahia

Durante o mês de janeiro, as festividades do Nosso Senhor do Bonfim se destacam em Salvador, na Bahia. Um dos principais espaços vinculado a essas comemorações é a Igreja Nosso Senhor do Bonfim, erguida no alto de uma colina na Península de Itapagipe. A construção consolidou-se como um destaque na paisagem urbana da capital baiana e guarda parte da história, da cultura e da memória do Brasil Colonial.
A estrutura foi construída em meados do século 18, período no qual a sociedade brasileira era pautada pela lógica colonial ainda sob domínio português.
“Tratava-se de uma sociedade escravista, onde a Bahia assumia papel central na colônia, entre outros fatores, pelo açúcar produzido na região do Recôncavo e pela importância do porto de Salvador para a navegação costeira e oceânica”, explica Silvana Andrade dos Santos, professora na Universidade Estadual de Feira de Santana.
Igreja Nosso Senhor do Bonfim, em Salvador, na Bahia, na década de 1860, registrada na fotografia de Gilberto Ferrez
Acervo IMS/Domínio Público
A devoção que levou à construção da igreja
A construção da igreja está diretamente ligada ao estabelecimento da Irmandade do Senhor do Bonfim e à devoção à imagem do Senhor do Bonfim — representação de Jesus Cristo na Igreja Católica. Essa devoção chegou ao Brasil trazida pelo navegador português Teodósio Rodrigues de Faria, que posteriormente se envolveu com o comércio e tráfico de pessoas escravizadas.
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A primeira associação de Teodósio com a figura do Senhor do Bonfim ocorreu após o cumprimento de uma promessa feita ao sobreviver a uma tempestade em um navio que trazia os nomes de Nossa Senhora da Guia e do Senhor do Bonfim.
“No mundo católico desse período, o mar é um local perigoso, por isso, uma prática comum era nomear os navios fazendo uma invocação a Deus ou a santos de proteção”, afirma Cândido Domingues, professor de adjunto de história do Brasil, na Universidade do Estado da Bahia (UNEB).
Teódosio traz uma réplica da figura do Senhor do Bonfim para a Bahia como cumprimento de uma promessa após tempestade no mar. A réplica foi inicialmente colocada na Igreja da Nossa Senhora da Penha
Paul R. Burley/Wikimedia Commons
Para cumprir a promessa, o navegador português trouxe réplicas da figura para a Bahia em 1745. Inicialmente, as imagens não foram colocadas na Igreja do Bonfim, visto que não havia autorização para tal na cidade.
“Inicialmente, Teodósio levou as figuras para a Península de Itapagipe, zona afastada do centro de Salvador e de difícil acesso, onde estavam sendo construídas a Igreja de Nossa Senhora da Penha de França e o Palácio de Verão dos Arcebispos”, diz Mariely Santana, professora da Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal da Bahia (UFBA).
A Colina do Bonfim, como hoje é conhecida o local em que a Igreja Nosso Senhor do Bonfim é sediada, ficava em uma região distante e de difícil acesso de Salvador
Portal da Copa/ME/Wikimedia Commons
No altar lateral da igreja da Penha de França, foram colocadas as imagens trazidas de Portugal. A partir desse momento, a devoção se fortalece com a criação e o estabelecimento da Irmandade do Senhor do Bonfim, que gradualmente conquista espaço na cidade e amplia o número de fiéis. Esse crescimento levou à transferência das figuras para o local onde hoje se ergue a Colina do Bonfim.
Em 1746, após a doação de um terreno por uma integrante da irmandade, iniciam-se as obras da capela dedicada ao Senhor do Bonfim, marco inicial da construção que se tornaria um dos maiores símbolos de fé da Bahia — e do Brasil.
A Igreja Nosso Senhor do Bonfim, em Salvador, na Bahia, mistura referências neoclássicas com rococó, último período da tradição barroca
Ednei Fialho Lopes/Wikimedia Commons
Estrutura da construção e os interiores da Igreja Nosso Senhor do Bonfim
“A igreja do Senhor do Bonfim seguiu os padrões das igrejas portuguesas, sobretudo o modelo projetado pelo arquiteto português Manuel Roiz João Pedro para a igreja de Setúbal, erguida em 1689”, afirma Francisco Antonio Nunes Neto, historiador e professor associado da Universidade Federal do Sul da Bahia.
A materialidade da igreja dialoga com a tradição portuguesa do final do século 17. Com estilo neoclássico e a fachada rococó, marcada pelo frontão curvo e pelas torres simétricas, constrói a imagem monumental do santuário. As torres com terminações bulbosas revestidas por azulejos amarelos reforçam a verticalidade e ampliam a visibilidade à distância.
Uma seção lateral da Igreja Nosso Senhor do Bonfim, em Salvador, na Bahia, conta com uma parede de azulejos revelando referências da tradição portuguesa do período
Paul R. Burley/Wikimedia Commons
Um ponto significativo é que o financiamento das obras e da construção não foi feito pela Coroa Portuguesa. Ainda que o envio de verba da Coroa tivesse sido comum na construção de outras igrejas na Bahia, essa prática não foi notada no caso do Senhor do Bonfim.
“A edificação da igreja do Senhor do Bonfim possibilitou-se, não só pela doação do terreno, como também às expensas da décima (dízimo) obtida, primeiramente, entre uma massa de devotos composta por pescadores, negros livres, brancos, pequenos comerciantes e demais moradores da região de Itapagipe”, salienta Francisco. Apesar disso, a administração da irmandade era feita majoritariamente por membros da elite baiana.
O altar-mor da Igreja Nosso Senhor do Bonfim tem grandes marcas das referências de ornamentação barroca
Tetraktys/Wikimedia Commons
Sob a Colina do Bonfim, com a fachada estrategicamente voltada para a Baía de Todos os Santos, a igreja podia ser avistada de diversos pontos da cidade e das estradas que levavam a Salvador. Após 26 anos de obras, sua primeira parte foi entregue em 1754 e a construção concluída em 1772.
O interior, porém, revela que o Bonfim nunca foi uma estrutura fixa: ao longo dos séculos 19 e 20, recebeu reformas e adaptações que introduziram pinturas, ajustes arquitetônicos e novos elementos artísticos. Essas intervenções criaram uma espacialidade marcada pela convivência de diferentes períodos, reforçando efeitos de profundidade, luz e ornamentação característicos da tradição barroca tardia, ainda presente na sensibilidade local.
“A igreja vai materializar a permanência da fé ao longo do tempo, transformando arquitetura e devoção em dimensões indissociáveis”, destaca Mariely.
Ao mesmo tempo, elementos devocionais vindos da Europa foram incorporados ao interior da igreja. Quadros da Via Sacra e imagens sacras, dispostos em espaços de destaque, ampliaram o repertório iconográfico do templo. Em 1927, a Capela foi elevada à condição de Basílica Menor pelo Papa Pio XI.
Festividades vinculadas à Igreja Nosso Senhor do Bonfim
Os festejos ligados à Igreja do Bonfim, entre eles a tradicional Lavagem, reúnem um conjunto de ritos religiosos, cortejos e ocupações do espaço urbano que se expandem do templo para o largo e para a capital baiana. A programação inclui novenas, missas solenes, procissões e o grande cortejo que sobe em direção à Colina Sagrada. Ao redor da igreja, o largo se transforma com a intensa circulação de devotos e visitantes.
Historicamente, as novenas ganharam força ao longo do século 19, com celebrações litúrgicas concorridas, sermões e cânticos. Já o cortejo, que hoje reúne milhares de pessoas, consolidou a ideia de caminhada coletiva até o santuário, tornando o percurso parte essencial da experiência religiosa.
Nascida da resistência de pessoas negras escravizadas que se apoiaram no sincretismo religioso para cultuar os orixás, a participação das baianas é uma demonstração de fé espontânea e orgânica durante as festividades da Lavagem do Bonfim
Adenilson Nunes/AGECOM; Max Haack/AGECOM | Montagem: Casa e Jardim
Nesse contexto, a festa tornou-se um dos exemplos mais emblemáticos da aproximação entre tradições católicas e matrizes afro-brasileiras na Bahia. Embora pesquisadores ressaltem que não há equivalência direta entre divindades, a presença de grupos ligados aos terreiros, o uso do branco e a participação histórica de mulheres negras — sobretudo das baianas — na preparação e condução dos ritos contribuíram para que o evento fosse compreendido, ao longo do tempo, como um território de diálogo religioso e cultural.
A contínua elaboração da memória de Teodósio Rodrigues de Faria
Nos debates recentes sobre a história da Igreja do Senhor do Bonfim, tem se destacado a necessidade de complexificar a imagem de Teodósio. Popularmente lembrado como o capitão que trouxe a imagem do Senhor do Bonfim para a Bahia, ele vem sendo revisitado por pesquisas que ressaltam aspectos menos conhecidos de sua trajetória.
Segundo Cândido, essa memória costuma ser romantizada. “Há, ainda hoje, a manutenção da imagem de Teodósio enquanto navegador português, detentor do título de capitão-de-mar-e-guerra da marinha portuguesa, em detrimento do seu papel como traficante de pessoas escravizadas”, pontua o historiador.
O teto da Igreja Nosso Senhor do Bonfim, em Salvador, na Bahia, traz uma pintura que coloca em evidência a figura de Teodósio na cena, que retrata sua aproximação com Senhor do Bonfim
Paulo SP/Wikimedia Commons
Fontes históricas destacadas por iniciativas como o projeto Salvador Escravista — que busca mapear referências ao passado escravista da cidade em seus monumentos e espaços públicos, e do qual Cândido participou — apontam para a atuação do navegador também no comércio local. Estabelecido em Salvador na década de 1740, Teodósio investiu no tráfico de africanos escravizados e participou ativamente da economia colonial.
Essa memória complexa também se reflete na visualidade interna da igreja. A pintura do teto, encomendada décadas após a construção, retrata um grupo de marinheiros oferecendo ao Senhor do Bonfim um quadro com a imagem de um navio. Produzido entre 1818 e 1820, o painel é uma das obras mais notáveis do interior e traduz, em forma artística, a promessa náutica que deu origem ao culto.
“A interpretação recorrente é que essa figura represente o próprio Teodósio, transformando a pintura em registro simbólico da promessa que justificou a implantação do culto”, explica Cândido.
A praça na frente da Igreja Nosso Senhor do Bonfim, em Salvador, na Bahia, ainda traz uma homenagem direta à Teodósio
Flickr/Celso Castro Júnior/Creative Commons
A área externa também guarda marcas desse passado. A praça em frente ao templo e uma rua próxima levam o nome de Teodósio Rodrigues de Faria, cujo corpo está sepultado dentro da própria basílica.
Esse debate integra um contexto mais amplo de reflexão sobre como a sociedade brasileira, ainda hoje, enfrenta e ressignifica sua herança escravista. “Não se trata de um caso específico, mas de um caso que se insere em um contexto mais amplo e em um debate latente, que é produto das transformações e demandas do atual momento da sociedade brasileira”, explica Silvana.
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Ela destaca que compreender figuras como Teodósio requer desnaturalizar narrativas consolidadas no imaginário coletivo, visto que a história oficial frequentemente omite ou suaviza os vínculos com a escravidão.
“Se houve a construção de determinado contexto histórico, em outro cenário é possível fazer a desconstrução e a reconstrução. Quando se fala de pessoas e instituições com vínculos com a escravidão, esse debate é especialmente sensível, porque há um senso comum de que a escravidão é algo distante, que ficou no passado”, aponta a historiadora. Dessa maneira, reconhecer essa complexidade não significa apagar tradições, mas compreender melhor o passado e suas implicações no presente.

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