Planta africana com nome ‘diabólico’ promete eliminar suas dores crônicas de vez

Diretamente das areias do Deserto do Kalahari, na África, uma planta de nome exótico tem revolucionado o tratamento de dores ao redor do mundo. Embora o nome popular assuste, a garra-do-diabo (Harpagophytum procumbens) conquistou a ciência moderna graças ao poder terapêutico e medicinal concentrado em suas raízes.
“O nome faz alusão ao formato dos frutos, que lembram garras. Além disso, o nome científico vem do grego ‘harpago’, que significa ‘gancho’. A planta tem sido estudada com mais afinco na Alemanha desde o pós-guerra”, conta Tainá de Osti Palma Rocha, farmacêutica da Oficina das Ervas.
A garra-do-diabo é cultivada no Brasil?
A garra-do-diabo não é cultivada comercialmente no Brasil; trata-se de uma planta rasteira e perene, nativa das regiões áridas do sul da África. Dificilmente veremos plantações dessa espécie em solo brasileiro pois, por ter evoluído na escassez africana, a erva não tolera a alta umidade e a composição dos solos nacionais.
O fruto da garra-do-diabo é lenhoso, ramoso e coberto por ganchos afiados que grudam em animais para dispersar sementes, daí o seu nome popular
Olga Ernst e Hp. Baumeler/Wikimedia Commons
O rigor climático de seu habitat é, inclusive, o que garante o poder terapêutico da planta, tornando seu isolamento geográfico uma necessidade biológica para a produção de seus ativos.
Assim, a indústria nacional prioriza a importação por ser economicamente mais vantajosa e eficaz do que investir no complexo processo de aclimatação da espécie no Brasil.
A garra-do-diabo é uma espécie rasteira que pode atingir dois metros, caracterizada por folhas carnosas verde-acinzentadas com bordas irregulares e flores tubulares em tons de rosa, púrpura ou vermelho
Dr. Alexey Yakovlev/Wikimedia Commons
Essa dependência do extrativismo, contudo, fomenta debates essenciais sobre exploração sustentável e comércio justo com as comunidades da Namíbia e da África do Sul, guardiãs do conhecimento ancestral sobre o manejo da espécie.
O poder medicinal da raiz e o segredo de seus compostos bioativos
A planta tem uma matriz química rica em compostos bioativos, localizados em suas raízes secundárias (tubérculos), os grandes responsáveis por suas propriedades terapêuticas comprovadas.
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“Os princípios ativos mais importantes da garra-do-diabo são os heterosídeos iridóides, como harpagosídeos e procumbina”, destaca Tainá.
As raízes secundárias secas da garra-do-diabo são a principal fonte medicinal da planta, devido ao alto teor de harpagosídeos, marcador essencial para sua ação anti-inflamatória
Rilke/Wikimedia Commons
Essas substâncias atuam em diversas vias biológicas simultaneamente, criando uma sinergia que diferencia a planta dos anti-inflamatórios comuns. “Elas agem por meio de outras etapas e vias inflamatórias, e alguns trabalhos sugerem que o extrato completo pode ser mais ativo do que o harpagosídeo isolado”, complementa Oliver Ulson, médico especialista em Ortopedia.
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Para que serve a garra-do-diabo
Devido a atuação diferenciada, a garra-do-diabo é reconhecida mundialmente por reduzir inflamações e dores, com aplicações que variam desde casos leves até quadros crônicos, se destacando como uma importante ferramenta na ortopedia.
“Serve principalmente para aliviar dor e rigidez de origem musculoesquelética, sendo indicada para lombalgia inespecífica e artrose de joelho, quadril ou coluna. Por seu efeito anti-inflamatório e analgésico, também apresenta resultados em tendinite, bursite e dor nas costas”, afirma o médico.
A planta garra-do-diabo atua reduzindo inflamações articulares e dores nas costas, sendo um fitoterápico com eficácia comprovada no tratamento de dores crônicas e agudas
Freepik/Creative Commons
Mais do que um tratamento isolado, a planta funciona como um suporte para reduzir a dose de analgésicos, e não como um substituto. “Assim, a garra-do-diabo entra como parte de um plano maior — que inclui fortalecimento, perda de peso, sono e fisioterapia —, visando diminuir a dose ou a frequência dos AINEs (anti-inflamatórios)”, ele esclarece.
Formas de uso da garra-do-diabo
A substância está disponível em diversos formatos — pó, comprimidos, cápsulas e chás — e a escolha deve considerar a intensidade do quadro clínico. “Os extratos padronizados em cápsulas ou comprimidos são preferíveis quando o objetivo é ter dose previsível. O chá/decocto existe como uso tradicional, mas tem limitações importantes e, por isso, não costumo usar na minha prática clínica”, comenta Oliver.
As raízes tuberosas da ‘Harpagophytum procumbens’ são cortadas na diagonal antes da secagem e processadas para uso em extratos, cápsulas e comprimidos
H. Zell/Wikimedia Commons
A padronização assegura a eficiência técnica, enquanto a personalização ajusta o formato do tratamento às necessidades individuais de cada paciente. “Para casos mais graves, o extrato seco padronizado é o mais indicado, por haver maior concentração de ativos. Caso seja na forma de chá, a melhor opção é a decocção, onde se ferve a raiz por cerca de cinco minutos, depois coa e toma”, destaca Tainá.
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Essa escolha, porém, esbarra no paladar. A farmacêutica ressalta que a planta apresenta um sabor amargo intenso, com notas terrosas e adstringentes. Essa intensidade sensorial costuma favorecer a escolha pelas cápsulas, que oferecem maior neutralidade e praticidade.
Como consumir garra-do-diabo de forma segura
No uso medicinal, a pureza do extrato da garra-do-diabo é um fator mais determinante para o sucesso do tratamento do que a quantidade de comprimidos consumida. Como existe uma grande variação entre os produtos vegetais, a escolha deve ser baseada na concentração do ativo principal — o harpagosídeo — para garantir que o tratamento não sofra com subdosagens ou efeitos indesejados.
“O jeito mais seguro é pensar em ‘dose de marcador’ e não em quantas cápsulas. A dose recomendada é de 30 a 100 mg/dia de harpagosídeo como faixa prática em extratos padronizados. E a frequência geralmente é definida pelo fabricante conforme a concentração do extrato”, indica o médico especialista.
O tratamento deve ser validado em ciclos de oito a 12 semanas, não excedendo seis meses devido à falta de dados de longo prazo, e interrompido se não houver melhora. Já o alívio da dor varia conforme o quadro, seja uma crise aguda, seja uma condição crônica.
Contraindicações da garra-do-diabo
O uso da planta garra-do-diabo, embora terapêutico, exige atenção a restrições específicas. “É contraindicado para gestantes, lactantes, pacientes com insuficiência renal e hepática. Para pessoas com gastrite pode causar desconforto gástrico”, diz Tainá.
Os princípios ativos presentes na raiz seca e lenhosa da garra-do-diabo exercem uma ação intensa no sistema digestivo, podendo desencadear efeitos gastrointestinais severos
Pexels/Rocket team/Creative Commons
“Deve evitar o uso em casos de úlcera gástrica ou duodenal ativa e alergia/hipersensibilidade ao produto. Existem também situações que exigem cautela como a presença de cálculos biliares. O uso também não é recomendado para menores de 18 anos, por ausência de evidência adequada”, alerta Oliver.
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Embora os efeitos colaterais costumem ser leves, o paciente não deve negligenciar reações adversas. “Deve interromper e procurar orientação se ocorrer reação alérgica, como urticária, inchaço de face e falta de ar; sintomas gastrointestinais fortes ou persistentes, como dor abdominal vômitos repetidos, diarréia intensa/desidratação, e piora clara dos sintomas ao longo do uso”, pontua o médico.
Interação da garra-do-diabo com outros medicamentos
De acordo com os principais órgãos de saúde europeus como European Medicines Agency (EMA) e European Scientific Cooperative on Phytotherapy (ESCOP), não existem registros de interações medicamentosas negativas com o uso da garra-do-diabo, o que reforça a segurança do seu uso em conjunto com outros tratamentos.
Muitas farmácias de manipulação e marcas de suplementos vendem formulações prontas de cúrcuma e garra-do-diabo, contendo os dois ativos juntos para potencializar o efeito anti-inflamatório
Pexels/Ksenia Chernaya/Creative Commons
No entanto, a prática clínica sugere cautela com anticoagulantes para evitar complicações pela ação combinada dos fármacos. “Se o paciente usa anticoagulante/antiagregante, antidiabéticos, tem úlcera, ou usa muitos remédios contínuos, o ideal é não iniciar por conta própria e alinhar com o médico/farmacêutico”, pondera Oliver.
Por outro lado, a farmacêutica considera que o uso combinado em contextos específicos de suplementação pode ser benéfico. “Ele pode ser associado a outros fitoterápicos e até mesmo a vitaminas e minerais. Alguns exemplos incluem a cúrcuma, o colágeno tipo II ou o magnésio. Essa associação, escolhida conforme a necessidade individual, gera uma sinergia”, acrescenta Tainá.
Onde comprar e recomendações
A garra-do-diabo pode ser adquirida em farmácias em formato de suplementos ou em lojas de produtos naturais, onde é vendida em cápsulas e a granel para chás. Para dosagens personalizadas, as farmácias de manipulação são a opção ideal, enquanto sites e marketplaces garantem a praticidade da compra online.
O especialista reforça que a procedência é o que dita a segurança do paciente. “Como a planta muda conforme a origem, colheita e armazenamento, o uso de extratos certificados garante menor risco de contaminação por fungos, troca de espécies ou misturas indevidas — problemas em pós vendidos a granel. Por isso, é fundamental priorizar o rótulo e a rastreabilidade, buscando sempre fontes confiáveis”, finaliza o médico ortopedista.

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