Reedições de ícones do design brasileiro reafirmam legados e atualizam clássicos

As reedições de móveis emblemáticos são um caminho para reforçar a presença e a relevância do design. Ao rememorar criações marcantes, narrativas são lembradas e potencializam legados que atravessam décadas, reafirmando que desenhos precisos também são capazes de dialogar com o presente. Em alguns casos, a atualização de materiais é necessária, assim como a de acabamentos e contextos de uso. No entanto, essas alterações não interferem na essência original dos projetos, como você pode conferir nos exemplos a seguir.
Poltrona Arcos, de Sergio Rodrigues
A poltrona desenhada por Sergio Rodrigues na década de 1960 é um ícone do mobiliário moderno brasileiro, concebida originalmente para o Palácio dos Arcos, em Brasíli
Divulgação
Elaborada pelo arquiteto e designer Sergio Rodrigues (1927 – 2014) em 1968, a poltrona Arcos foi criada especialmente para o Palácio dos Arcos, sede do Ministério das Relações Exteriores, em Brasília. A peça integra o conjunto de mobiliário concebido para o edifício que é símbolo da diplomacia brasileira, em diálogo direto com a arquitetura de Oscar Niemeyer (1907 – 2012).
Com estrutura delgada, assento e encosto curvos em forma de meia-lua e rodízios cromados, a Arcos combina leveza visual, ergonomia e sofisticação formal. Seu desenho reflete a busca do mestre do design brasileiro por soluções modernas e funcionais, alinhadas ao caráter institucional do Itamaraty, sem comprometer o conforto.
Projetada em 1968, a peça foi restrita ao ambiente diplomático do Palácio dos Arcos e recentemente reeditada
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Produzida originalmente em pequena escala e destinada exclusivamente ao uso interno do ministério, a poltrona nunca entrou em produção seriada. Sua reedição, realizada sob supervisão do Instituto Sergio Rodrigues, foi motivada pelo convite para uma exposição sobre o trabalho do arquiteto na Embaixada do Brasil em Roma, inaugurada em 2025. “A recuperação do projeto partiu de duas poltronas Arcos originais, pertencentes ao acervo do Palácio dos Arcos. Para isso, a estrutura de madeira foi cuidadosamente desmontada, permitindo compreender o sistema construtivo, os encaixes, as espessuras e as soluções adotadas por Sergio Rodrigues”, detalha Fernando Mendes, presidente do Instituto Sergio Rodrigues e diretor criativo da marca Sergio Rodrigues Atelier.
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De acordo com o designer e marceneiro, que trabalhou com arquiteto por 30 anos, as únicas atualizações ocorreram nos materiais internos de estofamento, como correias elásticas e espumas produzidas com insumos mais modernos. “Mesmo assim, comportamento, conforto e aparência da peça foram mantidos. O desenho seguiu minuciosamente as soluções propostas por Sergio, reafirmando a autenticidade e o caráter histórico do mobiliário”, diz Fernando.
Ele observa ainda que a simplicidade das formas retilíneas suavizadas por contornos arredondados é responsável por trazer acolhimento ao assento. “A poltrona foi desenhada para ser funcional no cotidiano do Itamaraty, mas ao mesmo tempo representar o Brasil por meio do design. E como ocorre em todas as criações de Sergio Rodrigues, carrega uma identidade própria, uma assinatura sutil, perceptível nos detalhes e nas proporções, que não deixa dúvidas do seu traço”, ressalta.

Poltrona GB UL 19, de Geraldo de Barros, na Dpot
A madeira que compõe o encosto é um dos destaques da poltrona
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O raciocínio construtivo do multitalentoso Geraldo de Barros (1923 – 1998) para as diferentes composições do padrão de móveis modulares da Unilabor, fábrica criada pelo próprio na década de 1950, baseava-se na combinação de elementos predefinidos. No caso de cadeiras, poltronas e sofás, as estruturas, em geral, admitiam variações de assentos e braços. Com dimensões e proporções idênticas às da estrutura original de ferro tubular UL 19, a reedição apresentada recentemente pela Dpot apresenta estrutura de madeira maciça. Sobre a base, apoia-se uma concha de madeira laminada que envolve almofadas soltas.
De acordo com Baba Vacaro, diretora de criação da Dpot e responsável pelo projeto de reedições exclusivas da marca, o projeto estava nos planos da empresa desde 2004, quando passaram a relançar o acervo do designer. “Ela foi exposta na mostra que marcou os 50 anos da Unilabor, com curadoria de Mauro Claro, no Centro Universitário Maria Antonia, em São Paulo”, comenta e acrescenta que sempre localiza produtos originais de época por meio de familiares dos autores ou colecionadores.
A poltrona UL19, reeditada pela Dpot, foi desenhada por Geraldo de Barros (1923-1998), um dos precursores do design moderno, da fotografia abstrata e do concretismo no Brasil
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Quanto às particularidades da poltrona GB UL 19 , a diretora de criação reitera o pioneirismo de Geraldo de Barros no que compreende-se como a base do desenho industrial, com os sistemas e a combinação que garantem imensa versatilidade de fabricação e utilização. “Com isso, creio que temos conseguido resgatar e manter viva a memória de iniciativas relevantes de um período muito importante de nossa história, que por muitas razões estiveram esquecidas. Através das reedições, os móveis voltam a cumprir seu papel no cotidiano das pessoas”, destaca.
Luminária Lúmen, de Bernardo Figueiredo, na Schuster Móveis
Reedições dialogam com o presente e preservam a história do design brasileiro
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Desenhada pela primeira vez nos anos 1960, a luminária Lúmen, acompanha a família do arquiteto e designer carioca desde então. Parte da memória afetiva daqueles que conviveram com Bernardo Figueiredo (1934 – 2012), a peça compõe a ambientação na sala da casa da filha Angela Figueiredo e foi um dos artigos que integrou a exposição que homenageou o criativo em 2021, no Museu da Casa Brasileira, em São Paulo. Com proporção adequada para ser posicionada ao lado de sofás e poltronas, a Lúmen proporciona iluminação indireta e, consequentemente, a sensação de acolhimento.
“Cada reedição nasce de um processo lento de grande estudo das peças no chão de fábrica, em fotos ou em croquis, e sobretudo, de muito afeto”, comenta a filha do designer. “O resultado corrobora o caráter atemporal do trabalho de Bernardo contemporâneo de Sergio Rodrigues e Joaquim Tenreiro (1906 – 1992), que juntos, protagonizaram importantes transformações da arquitetura e do design brasileiro”, finaliza.
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