Relógio público da Praça Antônio Prado completa 90 anos

Entre as décadas de 1920 e 1930, São Paulo vivia um intenso processo de modernização urbana, crescimento populacional e expansão comercial. Apesar de caminhar para se consolidar como metrópole, a cidade ainda carecia de equipamentos urbanos básicos, como relógios públicos acessíveis à população. Nessa época, os relógios de pulso e de bolso apresentavam ainda um valor elevado.
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“Relógios de pulso eram raros, e os de bolso tinham custo elevado. Os poucos relógios existentes estavam concentrados em igrejas, fachadas de edifícios ou estações ferroviárias”, explica o professor Guilherme Michelin, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie.
O modelo idealizado por Octavio de Nichile era uma novidade em um período no qual relógios públicos eram escassos
Biblioteca Nacional/A Tribuna/Reprodução; Sturm/Wikimedia Commons; Biblioteca Nacional/A Gazeta (SP)/Reprodução | Montagem: Casa e Jardim
Octavio De Nichile, dono de uma pequena agência de publicidade, idealizou a instalação de relógios públicos em pontos estratégicos da cidade. “Além de oferecer a hora certa à população, os relógios funcionariam como suporte para anúncios comerciais”, recorda seu filho, o jornalista e psicólogo, Gilberto de Nichile.
A proposta era que os equipamentos não tivessem custo à gestão municipal e sua viabilização seria garantida a partir da arrecadação dos anúncios publicitários veiculados no próprio relógio. A construção e a administração seriam feitas pela empresa Eco Ltda do publicitário e seu sócio, Raphael Perrone.
Octávio apresentou a ideia ao engenheiro e prefeito da época, José Pires do Rio, que a aprovou integralmente, desde que fosse executada apenas com recursos privados.
A solução unia utilidade pública e viabilidade econômica, sem custos para o município. “Quando Octavio propôs seus relógios para São Paulo, alinhou-se a uma prática já consolidada internacionalmente, adaptando-a ao contexto local com o uso de estruturas verticais próprias e financiamento por publicidade”, complementa Guilherme.
Os relógios foram posicionados em regiões estratégicas da cidade com grande circulação de pessoas, como a Praça da Sé
Biblioteca Nacional/Correio de S.Paulo/Reprodução
Arquitetura, publicidade e inovação urbana
Para viabilizar o projeto, Octavio levantou empréstimos bancários e se associou à fábrica Micheline, referência na fabricação de mecanismos de relógio. O projeto arquitetônico ficou a cargo de Amleto Nipotte, arquiteto e engenheiro ítalo-brasileiro, conhecido por seu trabalho em São Paulo nesse período, associado a projetos emblemáticos como o edifício das Classes Laboriosas.
Os relógios, em estilo art nouveau, combinavam base de cimento armado, coluna de ferro fundido e mostradores voltados para diferentes direções. “A iluminação elétrica interna permitia a leitura noturna e reforçava a presença simbólica do equipamento na paisagem urbana”, diz Guilherme.
Gilberto relembra que as inaugurações dos relógios eram verdadeiros acontecimentos urbanos. “Cada instalação tinha discurso do prefeito, banda de música e cobertura da imprensa. Era uma novidade para a cidade”, diz o jornalista.
À esquerda, reportagem do jornal Correio Paulistano de 1930 noticiando a novidade dos relógios criados por Octavio de Nichile. No canto superior direito, Octavio de Nichile acompanha a manutenção do relógio instalado na orla do Guarujá em 1941. Já no canto inferior, cartão postal da orla de santos onde também foi instalado um exemplar do equipamento
Biblioteca Nacional/Correio Paulistano/Reprodução; Novo Milênio/Imagem cedida por Mario de Nichile/Reprodução; Novo Milênio/Ary O. Céllio/Reprodução | Montagem: Casa e Jardim
A construção dos primeiros relógios começou ainda em 1930, com inaugurações no Largo do Arouche e na Estação Roosevelt, atual Brás. A rápida aceitação popular estimulou a expansão do projeto para outros pontos importantes da cidade, como a Praça Ramos de Azevedo, a Praça da Sé e, em 1935, a Praça Antônio Prado.
O projeto ultrapassou os limites da capital paulista. Relógios semelhantes foram instalados no bairro do Gonzaga, em Santos, e no bairro de Pitangueiras, no Guarujá.
O desaparecimento dos relógios da paisagem urbana
O auge do projeto ocorreu entre 1930 e 1935. Com o crescimento acelerado da cidade, a abertura de novas avenidas e grandes obras viárias, os relógios começaram a ser retirados. O equipamento do Largo do Arouche foi o primeiro a ser demolido, em 1933, justamente o primeiro a ser inaugurado, sob o argumento de renovação urbanística daquele espaço.
Naquele momento, ainda não havia uma política por parte da gestão municipal que entendia aqueles relógios enquanto parte de preservação do patrimônio urbano. “Os equipamentos foram removidos sem preocupação com sua guarda ou reaproveitamento”, diz o professor.
O relógio da Praça Antônio Prado, em meio a edifícios históricos do centro de São Paulo, foi o único remanescente e completa 90 anos em 2025
Flickr/Gabrielle Idealli/Creative Commons
Apenas o relógio da Praça Antônio Prado permaneceu. Mesmo assim, ele quase foi removido durante as obras do metrô. O equipamento foi preservado graças a um parecer do Departamento do Patrimônio Histórico, que o reconheceu como monumento da modernização paulistana e promoveu seu tombamento.
Uma história mantida pela família
Até sua morte, aos 83 anos, Octavio De Nichile cuidou pessoalmente do relógio. Depois, a preservação ficou a cargo do engenheiro Mário De Nichile, um de seus filhos. Após sua morte, a responsabilidade passou para Gilberto.
Formado em jornalismo em 1958, Gilberto atuou em diversas redações e trabalha há mais de 50 anos na Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo. Desde 2000, também exerce a profissão de psicólogo.
A família de Nichile tem sido, desde a criação do relógio, a principal mantenedora do bem
Mateus Hidalgo/Wikimedia Commons
Ao longo dos anos, a família foi fazendo e arcando com os pequenos reparos necessários no mecanismo e na estrutura original do relógio, que se mantém até hoje. “O relógio ficou como um testemunho da São Paulo dessa época. Mantê-lo é uma forma de preservar a memória da cidade, mas também de meu pai”, afirma Gilberto.
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Restauração e novas possibilidades
Em 2025, o relógio completou 90 anos de existência. Apesar de ter tido o seu tombamento declarado pelo Conpresp (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo) em 1992, protegendo-o como bem cultural de interesse histórico e tecnológico para a cidade, a sua manutenção e revitalização por parte do poder público ainda é escassa.
Gilberto conta que, em conversas recentes com a empresa JCDecaux e intermédio da SPObras, foi mencionado o interesse em auxiliar no reparo do relógio, com a substituição do granito dos degraus e a tentativa de viabilizar novamente os espaços publicitários. Uma das expectativas do atual mantenedor do equipamento é que o relógio volte a ser iluminado à noite, retomando uma de suas funções originais e contribuindo para a valorização do centro histórico.
A permanência do relógio da Praça Antônio Prado, próximo a pontos turísticos e históricos como os edifícios Altino Arantes e Martinelli, faz com que o equipamento vá além da sua função original e assuma também um papel simbólico. “O relógio se tornou uma âncora de memória em um centro marcado por transformações constantes. Com políticas públicas de preservação, pode assumir papel importante na requalificação do espaço urbano”, reflete Guilherme.

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