Ruibarbo: cultivo difícil recompensa com sabor e propriedades medicinais

De cor intensa e sabor marcante, o ruibarbo (Rheum rhabarbarum) é a nova aposta da gastronomia brasileira. Frequentemente confundido com fruta, a hortaliça une um passado medicinal a uma resiliência rara: só floresce sob o frio rigoroso.
É em um cenário de geadas que está a única produção em larga escala deste ingrediente versátil no país: na Fazenda da Cria, em São Francisco de Paula, no Rio Grande do Sul. Nas altitudes da Serra Gaúcha, a família Martini Müller cultiva cerca de 35 mil exemplares da planta.
“O ruibarbo é uma das plantas mais versáteis do mundo. Dele se fazem medicamentos, cosméticos, tortas, geleias, risotos, drinques, cervejas, hidromel; enfim, uma infinidade de produtos”, afirma Isaura Martini Müller, agricultora e filha dos proprietários Sadi Erno Noer Mülller e Clarice Inês Martini Müller da Fazenda da Cria.
Características do ruibarbo
O ruibarbo apresenta longos talos avermelhados ou rosados coroados por grandes folhas verdes, formando touceiras robustas que se destacam pelo forte contraste cromático entre a base colorida e a folhagem opaca
Dieter Weber/Wikimedia Commons
Originário da Ásia, o ruibarbo é uma herbácea perene da família Polygonaceae. A planta cresce a partir de um rizoma (caule subterrâneo) espesso, carnudo com interior amarelado, que atua como reserva de energia para o seu rebrote anual.
Sua estrutura é composta por talos suculentos e semicilíndricos que sustentam no topo uma folhagem rugosa, nervurada e de bordas onduladas. “São folhas grandes com talos que variam entre o verde e o vermelho — onde pega mais sol, fica mais vermelho”, descreve Isaura.
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Ao atingir a maturidade, a planta pode emitir hastes florais longas e ocas, que sustentam pequenas flores agrupadas de tom branco-esverdeado. “A flor vem no outono. Mas não são todos os pés de ruibarbo que produzem esse pendão”, ressalta Isabel.
As flores do ‘Rheum rhabarbarum’ surgem no topo de hastes robustas que podem atingir até dois metros de altura, formando plumas densas com pequenas flores estreladas geralmente em tons branco-esverdeados
Luc.T/Wikimedia Commons
Após a floração do ruibarbo, a planta produz sementes, que podem ser consideradas seus “frutos”, de formato triangular e bordas aladas, típicas deste gênero botânico.
Cultivo do ruibarbo e desafios
O cultivo do ruibarbo no Brasil enfrenta desafios climáticos e biológicos, pois a planta exige o frio intenso das zonas temperadas para prosperar. Por isso, sua produção concentra-se na região sul, onde o clima ideal favorece o desenvolvimento de talos vigorosos para a alta gastronomia.
O ruibarbo emerge do solo no início da primavera, assemelhando-se a pequenos “nódulos” ou botões compactos que ganham volume rapidamente enquanto se desenvolvem
Nic McPhee/Wikimedia Commons
“O ruibarbo gosta de clima frio e úmido, porém sem exagero, como o típico europeu da Serra Gaúcha. Ele precisa de adubação e irrigação caso não chova. A poda consiste retirar as folhas que não são utilizadas. A movimentação para afofar a terra também é importante”, detalha Isabel.
O rebrote ocorre entre setembro e dezembro e depende de um equilíbrio térmico sutil: o solo precisa aquecer, mas o clima deve manter o frescor típico da região, sem calor excessivo.
Embora prefira climas amenos ou frios, o ruibarbo necessita de sol pleno, muita água e solos férteis bem drenados para se desenvolver plenamente
Chris.urs-o/Wikimedia Commons
Fora das zonas frias, o calor excessivo prejudica o ruibarbo. Para contornar isso, produtores adotam o cultivo anual, concentrado no inverno, ou utilizam técnicas de sombreamento para proteger a planta das altas temperaturas.
O cultivo em vasos é viável, porém exige cuidados específicos. “Se for um vaso bem grande, o ruibarbo se adapta. Contudo, não pode ficar exposto somente ao sol. Ele precisa de sombra também”, pondera a agricultora da Fazenda da Cria.
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Além das barreiras climáticas, Isabel destaca que enfrenta a falta de suporte técnico. “O desafio principal é não ter ninguém para tirar dúvidas quando aparece algo novo, como uma doença, por exemplo, não se encontra um agrônomo que conheça a cultura”, ela aponta.
Da horta à alta gastronomia
Conhecido no exterior como ‘pie plant’ (planta de torta) e protagonista da tradicional torta alemã Rhabarber, o ruibarbo chegou ao ocidente pela Rota da Seda e agora conquista o Brasil. Por aqui, é classificado como uma PANC (Planta Alimentícia Não Convencional), mas apenas seus talos são comestíveis; as folhas devem ser descartadas devido à sua toxicidade.
Os talos do ruibarbo são a única parte da planta segura para o consumo humano e são amplamente utilizados na culinária, especialmente em sobremesas, devido ao seu sabor ácido e textura fibrosa
Jeremy Keith/Wikimedia Commons
Com um sabor predominantemente azedo, ele vai do doce ao salgado com facilidade, sendo ideal para quebrar a gordura de pratos principais ou conferir frescor a bebidas. “O sabor é ácido, mas muito gostoso. A textura é bem fibrosa”, define Isabel.
A versatilidade do ingrediente permite que ele seja explorado além do fogão, aproveitando sua crocância natural em preparos rápidos. “Pode ser consumido cru na salada, no suco ou até mesmo mergulhado no açúcar e consumido como petisco”, diz a agricultora.
As tortas de ruibarbo são famosas justamente por esse “jogo” entre a acidez aguda do talo e a doçura do preparo
Jeremy Bronson/Wikimedia Commons
Para Isabel, as possibilidades de uso acompanham a criatividade de quem cozinha. “O paladar é muito pessoal. Há quem goste mais doce, em geleias, bolos e tortas; agridoce, em molho para carnes e chutney, ou até mesmo salgado, no risoto. Inclusive, vários drinques e bebidas feitos com ele são um sucesso”, ela exemplifica.
Propriedades medicinais do ruibarbo
O Rheum rhabarbarum é uma planta medicinal milenar, consagrada por sua ação adstringente, digestiva e, principalmente, por seu potente efeito laxante. As partes da planta que possuem propriedades medicinais são principalmente o rizoma (raiz) e, em menor escala, o talo.
“É composto por substâncias denominadas antraquinonas, taninos, estilbenos, catequinas e flavonoides. Essa planta auxilia na digestão e na motilidade intestinal, sendo usada também como antiparasitária – quando associada a outras plantas como a hortelã e a nogueira – e como adjuvante como vermífugo”, revela Tainá de Osti Palma Rocha, farmacêutica da Oficina das Ervas.
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Somado aos benefícios digestivos, o ruibarbo possui também ação antioxidante. “Melhora o sistema imunológico, pois contém vitaminas e minerais como vitamina A e Selênio”, acrescenta Tainá. Esse potencial se estende ao uso tópico: suas raízes agem como cicatrizantes e antissépticos naturais, acelerando a regeneração tecidual e prevenindo infecções.
Preparos fitoterápicos de ruibarbo e dosagens
Disponível em diversas formas fitoterápicas, o ruibarbo pode ser adquirido em farmácias de manipulação ou lojas de produtos naturais. “Os formatos mais seguros são as tinturas vegetais (forma farmacêutica preconizada pela Farmacopéia Brasileira) e cápsulas, porque há uma padronização, tornando-o mais seguro em relação à dosagem. Na decocção não há tanta padronização, mas é um uso popular comum”, justifica Tainá.
Embora os rizomas sejam a base da fitoterapia, eles exigem cautela. Assim como as folhas, podem tornar-se prejudiciais devido à presença de ácido oxálico, o que demanda atenção rigorosa ao preparo e à quantidade ingerida. “Em dosagens mais altas pode causar diarreias indesejadas. O uso não deve ser prolongado, porque apresenta certa toxicidade”, adverte Tainá.
Essa restrição ocorre porque as antraquinonas presentes na planta irritam a mucosa intestinal. “Isso explica o motivo da ação laxativa. No entanto, se usado por muito tempo, pode tornar o intestino ‘preguiçoso’ fazendo com que ele pare de funcionar sem o estímulo da planta. Além disso, causa perda de potássio propiciando o surgimento de câimbra e arritmia cardíaca. Pode causar também insuficiência renal se usado em abundância”, esclarece a farmacêutica.
Contraindicações de uso e interações medicamentosas
O uso do ruibarbo possui contraindicações importantes devido aos seus princípios ativos (antraquinonas e ácido oxálico) e à sua potente ação laxativa. “O ruibarbo é contraindicado durante a gravidez e a lactação; em casos de insuficiência renal e hepática; para pessoas com cálculos renais; inflamação e obstrução intestinal ativa”, alerta Tainá.
Além disso, por apresentar interações medicamentosas significativas — especialmente com fármacos que afetam os níveis de potássio, a função renal ou a coagulação sanguínea — seu uso complementar a outros tratamentos deve ser sempre acompanhado por um médico.
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Curiosidades sobre o ruibarbo
Ainda hoje, o cultivo mantém aspectos fascinantes, como no Rhubarb Triangle (Triângulo do Ruibarbo), na Inglaterra. Ali, as plantas são forçadas a crescer no escuro absoluto e de forma tão acelerada que, no silêncio dos galpões, é possível ouvir o som dos talos estalando e rangendo enquanto se expandem.
O Triângulo do Ruibarbo (Rhubarb Triangle) é uma região de aproximadamente 23 km² localizada em West Yorkshire, na Inglaterra, famosa por cultivar o ruibarbo em galpões escuros para obter talos macios, doces e de cor carmesim
Kevin Waterhouse/Wikimedia Commons
No entanto, sua história também carrega episódios sombrios: durante a Primeira Guerra Mundial, o alto nível de ácido oxálico em suas folhas causou envenenamentos fatais na Europa. “Devido à escassez de alimentos, as autoridades inglesas incentivaram o consumo das folhas da planta, o que desencadeou envenenamento e óbito, devido o consumo em excesso”, relata Tainá.
Conhecido na medicina chinesa como Da Huang, o ruibarbo foi legalmente classificado como fruta em 1947 por um tribunal de Nova York para reduzir impostos de importação. Essa manobra jurídica acabou por consolidar definitivamente o seu uso na confeitaria americana e britânica.

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