Símbolos Adinkra: conheça a herança africana escondida nos portões brasileiros

Presentes em inúmeros portões, gradis, janelas e outros elementos de ferro instalados há décadas — muitas vezes sem que os moradores conhecessem sua origem —, os símbolos Adinkras vêm ganhando uma nova interpretação no Brasil. Impulsionados pelo crescente interesse em ancestralidade e no design afro-brasileiro, esses ideogramas dos povos Akan, da África Ocidental, passam a ser reconhecidos como parte essencial da formação cultural do país.

Os Adinkras vão muito além da estética. Eles carregam filosofia, espiritualidade, história e uma lógica visual que antecede até mesmo os hieróglifos egípcios.
“Expressos nas artes do ferro, da pintura e da cerâmica, os Adinkras são ideogramas que carregam valores morais, filosóficos e étnico-culturais dos povos Akan, em uma região que hoje corresponde a Gana, Costa do Marfim, Togo e Benin, especialmente à nação Asante”, explica arquiteto e escritor Rui Barbosa, autor do livro Adinkras (Pallas Editora).
Os símbolos Adinkra atravessaram séculos e oceanos. Gravados no ferro e na memória, seguem transmitindo valores éticos, espirituais e culturais dos povos Akan
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“Os Adinkras formam um sistema de escrita, o que desmonta a ideia de que a África seria apenas um continente de tradição oral”, acrescenta a pesquisadora Elisa Larkin Nascimento, diretora do Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros (Ipeafro) e autora do livro Adinkra: sabedoria em símbolos africanos (Editora Cobogó).
Cada Adinkra identificado em uma fachada ou portão é mais do que um detalhe decorativo. Eles reafirmam a contribuição da população negra na formação arquitetônica do Brasil
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A origem dos Adrinkas
A origem exata, segundo Rui, se perde na longa duração histórica da África Ocidental: “Não podemos afirmar com certeza seu surgimento. Estudos apontam para a utilização dos símbolos pelos povos Akan em um período anterior ao século 11, enquanto outros indicam que teriam sido originários dos Gyaman, uma nação surgida no século 15. Já no século 19, liderados pelo rei Nana Kofi Adinkra, os Gyaman foram derrotados pelos Asante, que absorveram e reconstituíram sua cultura visual”.
Um dos mais conhecidos símbolos Adrinkas é o Sankofa, existente em duas representações principais: o pássaro que vira a cabeça para trás e o ideograma em forma de coração estilizado com espirais
Pexels/Thiago Giardini/Creative Commons
A denominação “Adinkra” pode ser entendida de duas maneiras: como homenagem ao antigo rei Gyaman, Nana Kofi Adinkra, ou em seu significado literal — “adeus” ou “despedida”, na língua Twi, do povo Asante. A associação do termo com rituais fúnebres, memória e ancestralidade conferiu aos símbolos um papel profundo nas sociedades Akan.
O portão de ferro, desenhado pelo escritório da arquiteta Lucilla Almeida e executado pela Oficina Godói, tem clara inspiração nos símbolos Adinkra, incorporando ideogramas que remetem à ancestralidade africana e à tradição dos mestres ferreiros
Pamella Ratti/Divulgação
Como os Adinkras chegaram ao Brasil
A herança africana na formação arquitetônica brasileira é profunda — e muitas vezes invisibilizada. Os símbolos Adinkras se espalharam especialmente por áreas marcadas pela presença negra no período colonial, como Bahia, Minas Gerais e Rio de Janeiro, sobretudo em seus centros históricos e periferias.

Esse repertório visual não chegou apenas pela memória, mas pelas mãos de artesãos altamente especializados. “Pessoas escravizadas — mestres ferreiros, escultores, artesãos e arquitetos — trouxeram consigo um repertório. Encontramos Adinkras incorporados em ferro, madeira, ouro e outros materiais nas obras arquitetônicas coloniais”, fala Elisa.
São João del-Rei, em Minas Gerais, é uma das cidades brasileiras onde há forte presença dos símbolos Adinkra, especialmente em grades, portões e elementos de ferro das construções históricas
Flickr/Sylvio Bazote/Creative Commons
Segundo Rui, o ferro foi o principal veículo dessa permanência no Brasil. “A quase totalidade de sua incidência se dá nos gradis de portões e janelas, nas portinholas, nos guarda-corpos e nas grades que separam as casas. Sabemos da atuação dos mestres ferreiros Asante no Brasil colonial, ainda na época do ferro forjado, mas esse design permaneceu mesmo após a chegada da otimização do ferro laminado”, ele pontua.
Há registros da presença de símbolos Adinkra em São João del-Rei, MG, incluindo no entorno do Cemitério das Mercês, onde elementos de ferro forjado em portões e gradis apresentam padrões associados a essa tradição africana
Halley Pacheco de Oliveira/Wikimedia Commons
Em resgate à memória
Identificar um Adinkra em portões ou fachadas não significa apenas perceber um detalhe decorativo. É reconhecer uma presença que atravessou séculos, resistiu à violência colonial e continua a transmitir valores éticos, filosóficos e espirituais.
“Aplicar esses símbolos hoje é lidar com uma herança estética carregada de filosofia, história e espiritualidade”, comenta Elisa.
Amostra com alguns símbolos Adrinkas, que carregam significados filosóficos, espirituais e sociais, sendo usados em tecidos, esculturas, portões e fachadas
Bosomba Amosah/Wikimedia Commons
Rui destaca a complexidade envolvida no reconhecimento histórico dos símbolos: “Acredito que os maiores desafios desse trabalho — de visibilidade e formulação de diretrizes para a patrimonialização dos Adinkra em nossas cidades — estão diretamente ligados à legitimidade da produção intelectual da população negra, dentro e fora da academia”.
Para ele, essa dificuldade decorre de um imaginário brasileiro moldado por uma “visão eurocêntrica, que impede o pleno reconhecimento da complexidade das culturas africanas”.
No quintal, as cadeiras têm encostos que remetem aos símbolos Adrinkas, principalmente o Sankofa, que lembra um ‘coração’
Evelyn Müller/Divulgação | Projeto dos arquitetos André Motta e André Braz
O escritor ainda ressalta que compreender o significado dos símbolos é essencial para evitar usos distorcidos ou apropriação cultural: “Isso nos permite adotar uma abordagem apropriada, cuidadosa e respeitosa.”
Assim, quando surgem nas fachadas das casas brasileiras, os Adinkra deixam de ser meros elementos visuais e retomam seu papel original: carregar, na superfície, a memória de um povo inteiro.

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