Terminal Princesa Isabel: o legado de João Walter Toscano ameaçado em São Paulo

Sempre fico desconfiado quando a palavra revitalização aparece acompanhada de mapas cheios de demolições. A cidade precisa mudar, isso é inevitável, mas a experiência mostra que muitas intervenções substituem camadas vivas por imagens de ordem que funcionam melhor em apresentações do que na vida real.
A proposta de transferir a sede do governo estadual para os Campos Elíseos e remover o Terminal Princesa Isabel me trouxe exatamente essa inquietação, porque ali existe uma obra de João Walter Toscano que ajuda a entender um momento importante da arquitetura paulista.
A arquitetura moderna brasileira teve um compromisso forte com o cotidiano. Toscano pertence a uma geração que tratou infraestrutura como arquitetura, entendendo que terminais, escolas e equipamentos públicos são espaços fundamentais para a vida urbana. O terminal, projetado nos anos 1990, é um exemplo claro dessa postura.
Com cobertura metálica leve e modulada, ele cria uma grande área sombreada e ventilada, adequada ao clima e ao uso intenso. A estrutura organiza fluxos sem fechar o espaço e mantém a continuidade visual com a praça, permitindo que o lugar seja atravessado e apropriado de diferentes maneiras.
O arquiteto João Walter Toscano na Casa de Frontaria Azulejada, em Santos
Victor Hugo Mori/Divulgação
Do ponto de vista técnico, trata-se de uma arquitetura de sistema, baseada em repetição modular, racionalização construtiva e economia de material. Esses princípios não aparecem apenas como discurso, mas como forma construída. O desenho deriva do uso, e não de um gesto formal arbitrário. O resultado é um espaço legível, funcional e ao mesmo tempo generoso do ponto de vista urbano. Esse tipo de qualidade é mais raro do que parece, especialmente quando se observa o panorama brasileiro recente de equipamentos públicos.
Há ainda um aspecto que costuma passar despercebido. Obras em estrutura metálica com a precisão e a clareza construtiva presentes nos projetos de Toscano são pouco comuns no Brasil. O uso do aço em equipamentos urbanos exige domínio técnico, coordenação entre projeto e execução, e uma cultura construtiva que nem sempre está disponível. Por isso, o terminal não é apenas um bom exemplo da arquitetura moderna, mas também um registro de um momento em que o Estado investia em soluções industrializadas de qualidade para o espaço público.
Quando se propõe a remoção de um edifício assim, não se perde apenas um objeto físico. Perde-se uma forma de pensar a relação entre arquitetura e infraestrutura. O terminal funciona como um espaço aberto, acolhendo passageiros, trabalhadores, comerciantes e moradores do entorno. É um lugar onde a cidade acontece sem filtros, onde diferentes grupos sociais compartilham o mesmo espaço. Essa dimensão pública raramente aparece nos novos projetos, que tendem a privilegiar controle, setorização e imagem institucional.
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A proposta do novo centro administrativo nos Campos Elíseos é apresentada como uma estratégia de requalificação do centro. A concentração de secretarias hoje dispersas pode trazer ganhos logísticos e econômicos, e a presença de milhares de servidores pode gerar movimento na região.
No entanto, o desenho urbano sugerido aponta para grandes quadras institucionais e edifícios de grande escala com funcionamento predominantemente em horário comercial. Experiências semelhantes mostram que conjuntos administrativos desse tipo costumam produzir espaços monofuncionais que se esvaziam fora do expediente e que dialogam pouco com o entorno.
Essa discussão se torna mais complexa quando se considera o histórico das intervenções no centro de São Paulo. Processos de valorização fundiária associados a grandes investimentos públicos frequentemente resultam na substituição de populações de baixa renda. Pensões, cortiços e ocupações passam a ser vistos como obstáculos ao projeto urbano, e não como parte da dinâmica local. O resultado é a expulsão de moradores para áreas mais distantes, sem que a infraestrutura acompanhe esse deslocamento.
A cobertura metálica leve e modulada do terminal projetado por João Walter Toscano cria sombra, ventilação e um espaço aberto que dialoga com a cidade de São Paulo
Acervo João Walter Toscano/Divulgação
Falar em revitalização sem enfrentar essa dimensão social é tratar o território como um espaço abstrato. A cidade real é feita de permanências, conflitos e sobreposições. O terminal de Toscano representa justamente essa urbanidade complexa, porque funciona como uma extensão da praça e não como um enclave fechado. É um lugar de passagem e de encontro, onde a arquitetura serve ao uso e não o contrário.
Preservar não significa impedir transformações, significa reconhecer valor e incorporar o que já existe aos novos projetos. Um terminal pode ser adaptado, reprogramado ou integrado a outras funções. O que não deveria ocorrer é o desaparecimento silencioso de uma obra relevante sem que se discuta sua importância arquitetônica, técnica e urbana. A arquitetura moderna brasileira ainda sofre com a falta de políticas de preservação, ficando num limbo entre o novo e o histórico.
Se a transferência do governo vier acompanhada de habitação social, comércio local e permanência dos moradores atuais, haverá uma oportunidade real de requalificação. Caso contrário, corre-se o risco de criar um enclave administrativo cercado por valorização imobiliária e exclusão.
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Como arquiteto, acredito que a transformação da cidade deve partir do reconhecimento do que já funciona e do que tem valor, mesmo quando esse valor não se apresenta de forma monumental. O terminal de João Walter Toscano mostra que a boa arquitetura pode estar nos espaços mais cotidianos, justamente nesses lugares que a cidade encontra respiro.

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