A trajetória e as principais criações do arquiteto e designer Carlos Motta

Ética e estética caminham em paralelo na carreira de 50 anos do arquiteto e designer Carlos Motta (@ateliercarlosmotta_oficial). Ele foi precursor no uso de madeiras de demolição e sustentáveis para criar seus projetos arquitetônicos e de mobiliário. “No design, o mais difícil é desenhar assentos”, opina ele, que estuda profundamente a relação do corpo com o objeto a fim de chegar a um resultado satisfatório para uma peça de determinado uso. Um ou dois graus a mais ou a menos no encosto de uma cadeira, por exemplo, pode fazer toda a diferença, segundo o profissional.
Carlos formou-se em Mogi das Cruzes, SP, em 1976, onde começou a desenvolver seus primeiros protótipos. Uma simplicidade sofisticada, desde então, norteia seu mobiliário. Entre suas referências mais fortes está a convivência com caiçaras, nativos da mata e caipiras, com os quais aprendeu muito. Sem contar as viagens ao redor do mundo, onde surfou, sem deixar de perceber o que de bom havia no design de cada localidade.
O autor participou de eventos e exposições no Brasil e no exterior, como uma mostra em Nova York, na galeria Espasso, em que exibiu peças únicas feitas exclusivamente de peroba-rosa de demolição. A longevidade de suas peças é uma marca forte, distante de modismos. “Essa característica construtiva é ergonômica e estética, e isso me incentiva a trabalhar”, diz ele, na entrevista a seguir, concedida direto da Mata Atlântica, onde vive atualmente.
O arquiteto Carlos Motta em seu ateliê na Vila Madalena, em São Paulo, que é aberto ao público
Mayra Azzi
Como se dá o início de seu processo de criação de uma peça?
Pré-requisitos como funcionalidade, emoção e a matéria-prima a ser usada vêm todos juntos, em uma relação simbiótica. É um processo intuitivo. No mobiliário, o arranque é o conforto. As peças mais difíceis de desenhar são os assentos, por causa da ergonomia. Como a madeira é cara, trabalhar com ela é um ofício nobre. Por isso, sempre quero que as peças sejam muito longevas. Tenho de adotar uma técnica construtiva adequada, que resulte em uma estética purista e verdadeira.
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A simplicidade foi uma opção sua desde sempre?
Sim, e em geral não está apenas no mobiliário e na arquitetura. Na vida, eu gosto de coisas simples, e isso não quer dizer que não haja sofisticação.
Você foi um dos pioneiros no uso de madeira de demolição e sustentável. Como vê o cenário brasileiro hoje em relação a isso?
Muitas pessoas começaram a trabalhar com a madeira de demolição para não haver necessidade de derrubar uma árvore. Isso é importante. Foram feitos plantios de madeiras exóticas, aquelas que não são nativas do Brasil, como pinus, eucalipto, teca, mogno-africano, cedro-australiano. Mas tenho dificuldade em lidar com elas. Essas acabaram indo mais para a indústria. É muito difícil vê-las na banca de um marceneiro. Quanto à madeira de reúso, encontra-se bastante peroba-rosa, utilizada na construção civil. Usou-se muito em coberturas de casas, prédios, galpões. Quando comecei a trabalhar com ela, cinquenta anos atrás, havia em abundância e custava barato; hoje é uma madeira relativamente cara. Dá para chegar a um resultado brilhante com essa espécie.
Ícones da carreira de Carlos Motta
Divulgação
Ícones da carreira de Carlos Motta
Divulgação
Na sua opinião, o que torna o design brasileiro único?
A madeira não deixa de ser algo quase exclusivo nosso, porque temos madeiras amazônicas e até do próprio Cerrado que ninguém mais tem no mundo. Mas acho que não é isso que caracteriza nosso mobiliário. Veja Sergio Rodrigues, por exemplo. A poltrona Mole originalmente era de jacarandá-da-Bahia, que representava o Brasil. Hoje ela é feita de madeira alternativa que não tem a mesma beleza do jacarandá, mas nunca se vendeu tanto daquela poltrona. É pelo desenho em si. É claro que a madeira tem um carisma, mas o que mais caracteriza o design brasileiro é o nosso jeito de ser. Ele nos influencia de determinada maneira que acaba sendo cristalizada no design e na arquitetura. Isso acaba sendo um diferencial. Eu me lembro que, quando fui para a Finlândia, fiquei maravilhado com o design de lá, um desenho tão limpo e tão enxuto, mas tão estéril que, em comparação com o brasileiro, não carrega nada da emoção e da sensualidade.
Peças de design manual encontram e sempre encontrarão seu espaço?
Não tenho a menor dúvida de que sim. A indústria está aí para garantir coisas mais baratas e acessíveis, pelo próprio processo industrial que otimiza a produção, mas a procura pelo artesanal é cada vez maior. Hoje vejo o momento em que mais se procuram trabalhos com esse viés, porque ficou tudo tão efêmero, sem propósito, sem força, sem dignidade. Os trabalhos feitos à mão empregam técnicas muitas vezes milenares.
Em busca da longevidade dos móveis, tenho de adotar uma técnica construtiva adequada, que resulte em uma estética purista e verdadeira.”
Conte um pouco de sua formação e quais referências foram essenciais nela.
Minha formação acadêmica existiu, e eu fui estudar arquitetura em Mogi das Cruzes, SP. Tinha um lado positivo, que era sair do centro urbano de trem e ir para uma área quase rural. Havia uma marcenaria da escola. Ali comecei a fazer meus primeiros objetos e protótipos. Na faculdade aprendi, sim, mas o mais forte foi o lado empírico da convivência com caiçaras, nativos das montanhas, caipiras, com os quais pude apreender um modo de fazer muito mais interessante para o meu desenvolvimento. Viajar pelo mundão surfando também foi relevante. Minhas influênciasmais importantes vieram do litoral e da Mata Atlântica.
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Como lidar com a inteligência artificial no processo criativo e que conselhos daria em relação a isso aos jovens?
A própria palavra já diz: artificial. A mim não causa interesse. Gosto das coisas como elas são. À nova geração indico que não deixe de olhar qual é a origem das coisas, de ir atrás do real. Por exemplo, ao pesquisar o palmito-juçara, entra-se na IA e lá há tudo sobre essa espécie. Agora imagine vir à Mata Atlântica, ver com os seus olhos e tocar com suas mãos, sentir o cheiro dela. É uma experiência tão absurdamente diferente, que traz resultados mais concretos, profundos e, mais do que tudo, afetivos. Isso é muito prazeroso.

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