As cidades desérticas do norte da Índia fervilham sob o implacável sol de junho, e apenas os viajantes mais determinados se aventuram por Rajasthan. As temperaturas ultrapassam os 40°C, ainda assim alguns visitantes enfrentam o calor para caminhar pelas ruas em tons rosados de Jaipur, a famosa Cidade Rosa. Em quase todo roteiro está o Hawa Mahal. Os visitantes chegam em busca da foto clássica de Jaipur, atraídos por sua intrincada fachada em forma de colmeia que se ergue sobre a rua movimentada. O que muitos não percebem, porém, é que essa é, na verdade, a parte traseira do edifício. O Hawa Mahal é um dos raros edifícios cuja parte de trás é mais fotogênica do que a frente.
Para os poucos que decidem entrar, o local oferece um alívio bem-vindo do sol intenso lá fora. Construída em 1799, a estrutura faz jus ao seu nome — o “Palácio dos Ventos” —, já que o ar fresco circula constantemente por seus interiores. Com cerca de 953 janelas grandes e pequenas, conhecidas como jharokhas, o ar é puxado pela fachada estreita e rendilhada do edifício e conduzido para suas aberturas estreitas. À medida que o vento atravessa essas passagens, o fluxo de ar se acelera, criando um efeito de resfriamento semelhante ao efeito Venturi, da dinâmica dos fluidos. Isso ajuda a manter o interior mais confortável, mesmo no auge do verão de Rajasthan, com temperaturas por vezes 2 a 3 graus mais baixas do que no exterior.
Hawa Mahal, também chamado de Palácio dos Ventos, em Jaipur, na Índia
Danny Lehman/Getty Images
Por toda a sua fama como ícone arquitetônico, o Hawa Mahal também é uma lição de inteligência climática. Sua fachada atende tanto a propósitos estéticos quanto ambientais. Embora sua engenhosidade pareça surpreendentemente moderna, é impressionante pensar que foi construído há mais de 227 anos. Na realidade, o Hawa Mahal pertence a uma linhagem muito mais longa de sabedoria arquitetônica do deserto desenvolvida ao redor do mundo. De fato, as ideias incorporadas em seu projeto fazem parte de uma tradição ainda mais antiga de arquitetura responsiva ao clima. Em todo o Sul da Ásia, Oriente Médio e Norte da África, há exemplos de diversos períodos históricos de sistemas sofisticados, estruturas e planos urbanísticos que permitiram que assentamentos prosperassem em paisagens áridas. Alguns dos primeiros exemplos de construções conscientes em relação ao clima datam de milhares de anos atrás.
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O Mosteiro, ou Ad Deir, na antiga cidade de Petra, na Jordânia
Punnawit Suwuttananun/Getty Images
Petra, a cidade nabateia esculpida em penhascos de arenito na atual Jordânia, foi fundada por volta do século IV a.C. e atingiu seu auge entre o século I a.C. e o século I d.C. As construções ali eram talhadas diretamente na rocha para proporcionar isolamento térmico. A espessa massa de pedra ajudava a estabilizar as temperaturas internas.
Além de arquitetos, os nabateus também eram mestres da engenharia hidráulica. Ao longo do sinuoso cânion nas paredes que cercam Petra, eles escavaram canais na rocha que funcionavam como aquedutos, conduzindo com segurança a água da chuva e das enchentes sazonais para dentro da cidade. Uma rede de represas, tubulações de cerâmica e cisternas subterrâneas coletava e redistribuía a água por toda a cidade, além de protegê-la da evaporação ao ser escavada diretamente na rocha. Estudos arqueológicos sugerem que, no século I d.C., o sofisticado sistema hídrico de Petra sustentava uma população de cerca de 20 mil habitantes. Em uma das paisagens mais áridas da Terra, a cidade prosperou.
Chand Baori, em Abhaneri, é um dos poços em degraus mais antigos e impressionantes da Índia, datado entre os séculos VIII e IX
Mukul Banerjee Photography/Getty Images
De volta à Índia, outra resposta notável à gestão da água no deserto pode ser encontrada nos poços em degraus do oeste do país, especialmente em Rajasthan e Gujarat. Essas monumentais estruturas subterrâneas foram projetadas para captar as chuvas das monções e armazená-las para os longos meses secos que se seguiam. Entre os exemplos mais espetaculares está Chand Baori, na pequena cidade de Abhaneri, a cerca de 95 quilômetros de Jaipur. Datado aproximadamente entre os séculos VIII e IX d.C., durante o governo da dinastia Nikumbha, o vasto poço em degraus desce mais de 20 metros abaixo do solo por meio de uma hipnotizante malha de mais de 3.500 degraus perfeitamente simétricos.
Além do armazenamento de água, esses poços em degraus criavam microclimas naturalmente mais frescos, muitas vezes vários graus abaixo da temperatura externa. Naturalmente, também se tornaram espaços de convivência e encontro para cidades e viajantes.
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Ecossistema da cidade inteligente Oxagon, parte do projeto NEOM, na Saudi Arabia
quantic69/Getty Images
Quando as pessoas imaginam hoje o futuro das cidades no Oriente Médio, frequentemente visualizam skylines reluzentes surgindo abruptamente do deserto. Imagens da paisagem vertical de Dubai, do ambicioso NEOM, na Arábia Saudita, e de vastas instalações de energia renovável dominam a mídia global. Esses empreendimentos são apresentados como visões radicais de “futurismo do deserto”, lugares onde a tecnologia avançada transforma um dos ambientes mais hostis do planeta em polos de inovação, luxo e poder econômico.
Skyline de Dubai com vista do Burj Khalifa
owngarden/Getty Images
Hoje, arranha-céus de vidro, aço e amplos planos urbanísticos definem as cidades do deserto do século XXI; por vezes, há uma desconexão visível entre arquitetura e ambiente. Os materiais usados nesses edifícios altos podem reter a radiação solar, exigindo enormes quantidades de energia para resfriá-los.
Em contraste, nas áreas periféricas dessas mesmas cidades, bairros residenciais de baixa altura são construídos com materiais que refletem a luz solar. Eles são mais frescos do que os centros urbanos densos e se beneficiam das propriedades inerentes do deserto, projetadas para acompanhar esse ciclo diurno, absorvendo o calor lentamente durante o dia e liberando-o gradualmente à noite.
Chefchaouen, conhecida como a “Cidade Azul” de Marrocos
Francesco Riccardo Iacomino/Getty Images
No urbanismo, o termo “cidade inteligente” tornou-se uma das palavras da moda do século XXI. No entanto, séculos atrás, pode-se argumentar que muitas cidades do deserto eram mais inteligentes. Medinas históricas como Fez (789 d.C.) e Marrakech (1070 d.C.) desenvolveram morfologias urbanas especificamente adaptadas aos climas desérticos e semiáridos. Ruas estreitas e sinuosas, ladeadas por casas e lojas, criavam avenidas continuamente sombreadas — um uso eficiente da sociografia muito antes de o termo sequer existir.
As residências individuais dessas medinas eram organizadas em torno de pátios internos que resfriavam a casa de forma passiva. Esses pátios frequentemente abrigavam pequenas áreas de vegetação e, nas moradias mais abastadas, fontes que reduziam ainda mais a temperatura do ar que circulava pela casa.
As cidades tradicionais do deserto evoluíram lentamente, moldadas por materiais locais, conhecimento climático e padrões de vida social. Suas formas representam gerações de adaptação ambiental. Sob essa perspectiva, o futurismo do deserto pode estar menos ligado à invenção de soluções inteiramente novas e mais à redescoberta da sabedoria arquitetônica acumulada em regiões que prosperaram em climas extremos durante séculos. Suas cidades não tinham aparência futurista. Mas eram futuristas em sua função, ao contrário dos megaprojétos modernos erguidos rapidamente e em escala enorme, movidos pela ambição econômica e pelo branding global.
*Matéria originalmente publicada na Architectural Digest Oriente Médio
Para os poucos que decidem entrar, o local oferece um alívio bem-vindo do sol intenso lá fora. Construída em 1799, a estrutura faz jus ao seu nome — o “Palácio dos Ventos” —, já que o ar fresco circula constantemente por seus interiores. Com cerca de 953 janelas grandes e pequenas, conhecidas como jharokhas, o ar é puxado pela fachada estreita e rendilhada do edifício e conduzido para suas aberturas estreitas. À medida que o vento atravessa essas passagens, o fluxo de ar se acelera, criando um efeito de resfriamento semelhante ao efeito Venturi, da dinâmica dos fluidos. Isso ajuda a manter o interior mais confortável, mesmo no auge do verão de Rajasthan, com temperaturas por vezes 2 a 3 graus mais baixas do que no exterior.
Hawa Mahal, também chamado de Palácio dos Ventos, em Jaipur, na Índia
Danny Lehman/Getty Images
Por toda a sua fama como ícone arquitetônico, o Hawa Mahal também é uma lição de inteligência climática. Sua fachada atende tanto a propósitos estéticos quanto ambientais. Embora sua engenhosidade pareça surpreendentemente moderna, é impressionante pensar que foi construído há mais de 227 anos. Na realidade, o Hawa Mahal pertence a uma linhagem muito mais longa de sabedoria arquitetônica do deserto desenvolvida ao redor do mundo. De fato, as ideias incorporadas em seu projeto fazem parte de uma tradição ainda mais antiga de arquitetura responsiva ao clima. Em todo o Sul da Ásia, Oriente Médio e Norte da África, há exemplos de diversos períodos históricos de sistemas sofisticados, estruturas e planos urbanísticos que permitiram que assentamentos prosperassem em paisagens áridas. Alguns dos primeiros exemplos de construções conscientes em relação ao clima datam de milhares de anos atrás.
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O Mosteiro, ou Ad Deir, na antiga cidade de Petra, na Jordânia
Punnawit Suwuttananun/Getty Images
Petra, a cidade nabateia esculpida em penhascos de arenito na atual Jordânia, foi fundada por volta do século IV a.C. e atingiu seu auge entre o século I a.C. e o século I d.C. As construções ali eram talhadas diretamente na rocha para proporcionar isolamento térmico. A espessa massa de pedra ajudava a estabilizar as temperaturas internas.
Além de arquitetos, os nabateus também eram mestres da engenharia hidráulica. Ao longo do sinuoso cânion nas paredes que cercam Petra, eles escavaram canais na rocha que funcionavam como aquedutos, conduzindo com segurança a água da chuva e das enchentes sazonais para dentro da cidade. Uma rede de represas, tubulações de cerâmica e cisternas subterrâneas coletava e redistribuía a água por toda a cidade, além de protegê-la da evaporação ao ser escavada diretamente na rocha. Estudos arqueológicos sugerem que, no século I d.C., o sofisticado sistema hídrico de Petra sustentava uma população de cerca de 20 mil habitantes. Em uma das paisagens mais áridas da Terra, a cidade prosperou.
Chand Baori, em Abhaneri, é um dos poços em degraus mais antigos e impressionantes da Índia, datado entre os séculos VIII e IX
Mukul Banerjee Photography/Getty Images
De volta à Índia, outra resposta notável à gestão da água no deserto pode ser encontrada nos poços em degraus do oeste do país, especialmente em Rajasthan e Gujarat. Essas monumentais estruturas subterrâneas foram projetadas para captar as chuvas das monções e armazená-las para os longos meses secos que se seguiam. Entre os exemplos mais espetaculares está Chand Baori, na pequena cidade de Abhaneri, a cerca de 95 quilômetros de Jaipur. Datado aproximadamente entre os séculos VIII e IX d.C., durante o governo da dinastia Nikumbha, o vasto poço em degraus desce mais de 20 metros abaixo do solo por meio de uma hipnotizante malha de mais de 3.500 degraus perfeitamente simétricos.
Além do armazenamento de água, esses poços em degraus criavam microclimas naturalmente mais frescos, muitas vezes vários graus abaixo da temperatura externa. Naturalmente, também se tornaram espaços de convivência e encontro para cidades e viajantes.
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Ecossistema da cidade inteligente Oxagon, parte do projeto NEOM, na Saudi Arabia
quantic69/Getty Images
Quando as pessoas imaginam hoje o futuro das cidades no Oriente Médio, frequentemente visualizam skylines reluzentes surgindo abruptamente do deserto. Imagens da paisagem vertical de Dubai, do ambicioso NEOM, na Arábia Saudita, e de vastas instalações de energia renovável dominam a mídia global. Esses empreendimentos são apresentados como visões radicais de “futurismo do deserto”, lugares onde a tecnologia avançada transforma um dos ambientes mais hostis do planeta em polos de inovação, luxo e poder econômico.
Skyline de Dubai com vista do Burj Khalifa
owngarden/Getty Images
Hoje, arranha-céus de vidro, aço e amplos planos urbanísticos definem as cidades do deserto do século XXI; por vezes, há uma desconexão visível entre arquitetura e ambiente. Os materiais usados nesses edifícios altos podem reter a radiação solar, exigindo enormes quantidades de energia para resfriá-los.
Em contraste, nas áreas periféricas dessas mesmas cidades, bairros residenciais de baixa altura são construídos com materiais que refletem a luz solar. Eles são mais frescos do que os centros urbanos densos e se beneficiam das propriedades inerentes do deserto, projetadas para acompanhar esse ciclo diurno, absorvendo o calor lentamente durante o dia e liberando-o gradualmente à noite.
Chefchaouen, conhecida como a “Cidade Azul” de Marrocos
Francesco Riccardo Iacomino/Getty Images
No urbanismo, o termo “cidade inteligente” tornou-se uma das palavras da moda do século XXI. No entanto, séculos atrás, pode-se argumentar que muitas cidades do deserto eram mais inteligentes. Medinas históricas como Fez (789 d.C.) e Marrakech (1070 d.C.) desenvolveram morfologias urbanas especificamente adaptadas aos climas desérticos e semiáridos. Ruas estreitas e sinuosas, ladeadas por casas e lojas, criavam avenidas continuamente sombreadas — um uso eficiente da sociografia muito antes de o termo sequer existir.
As residências individuais dessas medinas eram organizadas em torno de pátios internos que resfriavam a casa de forma passiva. Esses pátios frequentemente abrigavam pequenas áreas de vegetação e, nas moradias mais abastadas, fontes que reduziam ainda mais a temperatura do ar que circulava pela casa.
As cidades tradicionais do deserto evoluíram lentamente, moldadas por materiais locais, conhecimento climático e padrões de vida social. Suas formas representam gerações de adaptação ambiental. Sob essa perspectiva, o futurismo do deserto pode estar menos ligado à invenção de soluções inteiramente novas e mais à redescoberta da sabedoria arquitetônica acumulada em regiões que prosperaram em climas extremos durante séculos. Suas cidades não tinham aparência futurista. Mas eram futuristas em sua função, ao contrário dos megaprojétos modernos erguidos rapidamente e em escala enorme, movidos pela ambição econômica e pelo branding global.
*Matéria originalmente publicada na Architectural Digest Oriente Médio



