A capital planejada de Goiás foi um dos primeiros municípios do país a incorporar esse estilo marcado por linhas geométricas, simetria e monumentalidade. Em 1933, sua construção começou por iniciativa do político Pedro Ludovico Teixeira (1891–1979), com projeto urbanístico de Attílio Corrêa Lima (1901–1943), engenheiro-arquiteto formado pela Escola Nacional de Belas Artes (ENBA), no Rio de Janeiro, e o primeiro brasileiro formado em Urbanismo pela Sorbonne – Instituto de Urbanismo da Universidade de Paris.
Hoje, Goiânia é considerada a maior referência da arquitetura art déco em território brasileiro, com mais de 22 construções desse tipo tombadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Conheça mais dessa história a seguir!
Inaugurada em 1950, a antiga Estação Ferroviária de Goiânia foi projetada pelo arquiteto e urbanista Attílio Corrêa Lima e se destaca como um dos mais importantes exemplares da arquitetura em estilo art déco na cidade
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O que é o art déco?
Do ponto de vista estético, o art déco se caracteriza pelo uso de formas geométricas marcantes, linhas retas, simetria, verticalidade e padrões repetitivos. O movimento ganhou projeção internacional com a Exposição Internacional de Artes Decorativas e Industriais Modernas, realizada em Paris em 1925, em um contexto de intensas transformações econômicas e culturais após a Primeira Guerra Mundial.
“Se durante a guerra temos um período de crise e dificuldades econômicas, o art déco surge nos anos 1920 e 1930 justamente para simbolizar a superação dessas adversidades e expressar a riqueza e a pujança de algumas sociedades”, explica Marcelo Bautista Pliger, professor de História do Design da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).
Projetado por Attílio Corrêa Lima, o Palácio das Esmeraldas foi construído entre 1933 e 1937 na Praça Cívica, consolidando-se como um dos principais exemplares da arquitetura em estilo art déco em Goiânia
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O art déco no Brasil e em Goiás
No Brasil, a chegada do art déco foi impulsionada pela forte influência cultural da França. As ideias de modernidade associadas ao estilo foram incorporadas especialmente durante a primeira Era Vargas (1930–1945), período em que o governo federal buscava projetar ao exterior uma imagem de progresso.
Além das capitais, o movimento expandiu-se para o interior, acompanhando o processo de ocupação e consolidando-se como símbolo da modernização no país. “Goiânia foi planejada e construída para ser a capital de Goiás, por iniciativa do político goiano Pedro Ludovico Teixeira, em consonância com a Marcha para o Oeste – estratégia desenvolvida no final dos anos 1930, pelo governo de Getúlio Vargas, para acelerar o desenvolvimento e incentivar a ocupação do Centro-Oeste”, informa o site do Iphan.
O Palácio das Esmeraldas, localizado na Praça Cívica, é a sede oficial do governo de Goiás e também a residência oficial do governador
Gutto Lemes/Divulgação
A arquiteta e urbanista Beatriz Otto de Santana, da Superintendência do Iphan em Goiás, ressalta que a proposta era construir uma cidade salubre, com edificações bem ventiladas e planejada para o automóvel, estruturada por um desenho urbano que hierarquizava as vias públicas.
Esse planejamento resultou em um traçado característico: enquanto o art déco define a estética das construções, o conjunto urbanístico de Goiânia é considerado exemplo de urbanismo racionalista — em que cada área tem função clara (habitação, trabalho, lazer, circulação). “Foi uma página em branco que possibilitou o surgimento da capital, alinhada ao que havia de mais recente sendo discutido na Europa naquele momento”, ela complementa.
A antiga Chefatura de Polícia de Goiânia, localizada na Praça Cívica, foi projetada pelo urbanista Attílio Corrêa Lima e integra o conjunto arquitetônico em estilo art déco que marcou a fundação da capital goiana
Goiânia Art Déco Festival/Divulgação
“A Praça Cívica é o grande coração desse desenho urbano. Até a própria lógica de sua ocupação está ligeiramente em uma cota topográfica mais elevada, e as principais vias convergem até ela, conferindo-lhe um caráter monumental. É notoriamente o ponto central da nova capital”, comenta a arquiteta.
Entre 1933 e 1937 ocorre a primeira fase da fundação e implantação de Goiânia, com foco em prédios governamentais e infraestrutura básica, alguns já incorporando elementos do art déco e organizados segundo uma hierarquia.
O Coreto da Praça Cívica, projetado por Jorge Félix de Souza em estilo art déco, é um dos marcos históricos de Goiânia e foi tombado pelo Iphan en 2003
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Por exemplo, o Palácio das Esmeraldas, projetado por Attílio, é a sede do governo estadual e ocupa posição de destaque no centro da praça. Ao redor estão as demais construções públicas relevantes, como a antiga Chefatura de Polícia e o Coreto (também projetados por Attílio), e o então Departamento de Imprensa e Propaganda — hoje Museu Zoroastro Artiaga, o qual foi idealizado pelo engenheiro polonês Kazimierz Bartoszewski (1901–1981). Esses quatro projetos são tombados pelo Iphan.
O Museu Zoroastro Artiaga homenageia o geógrafo, historiador, jornalista e professor goiano que lhe dá nome. O edifício foi projetado pelo engenheiro polonês Kazimiers Bartoszevsky
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O urbanista Attílio atuou no desenvolvimento da cidade até 1935, deixando a função em razão de desentendimentos políticos e dificuldades práticas na execução do plano. No ano seguinte, o governo estadual convidou o urbanista Armando de Godoy (1876–1944) para dar continuidade ao trabalho.
Suas principais contribuições incluíram a criação de um sistema de áreas verdes e ruas curvas, inspirado nos princípios de cidades-jardim, conceito criado pelo urbanista inglês Ebenezer Howard (1850–1928), além de uma maior integração entre espaços residenciais e áreas públicas. Ele também ajustou o projeto de Attílio da antiga Secretaria-Geral (atual Centro Cultural Marieta Telles), localizado na Praça Cívica, também tombado pelo Iphan.
Símbolo da segunda fase do art déco em Goiânia, o Teatro Goiânia foi inaugurado em 1942 durante o Batismo Cultural. Mais do que um espaço artístico, tornou-se ícone da consolidação cultural da nova capital
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Em 1942, houve o chamado Batismo Cultural de Goiânia, evento que marcou a inauguração oficial da nova capital durante o Estado Novo e reforçou o ideal de modernidade associado à cidade planejada.
Nesse cenário, foi inaugurado o Teatro Goiânia, projetado pelo arquiteto Jorge Félix (datas de nascimento e morte não confirmadas em registros públicos), marco frequentemente interpretado como início da segunda fase de consolidação do município.
Características do art déco em Goiânia
De acordo com o Iphan, Goiânia representa o segundo maior conjunto de arquitetura art déco do mundo, ficando atrás apenas de Miami, nos Estados Unidos. Além disso, é dita como a capital art déco do Brasil.
São “22 edifícios e monumentos públicos, concentrados em sua maioria no centro da cidade, e o núcleo pioneiro de Campinas, antigo município e atual bairro da capital goiana”, descreve o site do Iphan.
O Obelisco da Praça Cívica, em Goiânia, é um dos marcos simbólicos da fundação da capital. Construído na década de 1930, integra o conjunto arquitetônico em estilo art déco projetado por Attílio Corrêa Lima
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Attílio Corrêa Lima, Armando de Godoy e Jorge Félix são reconhecidos como os três nomes centrais ligados aos projetos da construção da nova capital goiana. Ainda assim, a autoria de diversos edifícios art déco do município não está claramente registrada, visto que muitos foram concebidos por equipes técnicas vinculadas ao governo estadual.
O Estádio Olímpico Pedro Ludovico Teixeira passou pro um processo de reconstrução que perdurou por volta de dez anos, sendo rreinagurado em 2016
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Entre eles estão o Tribunal de Justiça de Goiás, erguido nos anos 1930; o trampolim do lago do Parque das Rosas e o Estádio Olímpico Pedro Ludovico, ambos da década seguinte; e o Mercado Central de Goiânia, dos anos 1950. Todos estes, juntamente com os da Praça Cívica, integram o Roteiro Turístico Art Déco de Goiânia, lançado oficialmente pela Prefeitura em janeiro de 2024, visando resgatar e preservar esse legado. O percurso tem aproximadamente 10 km de extensão.
O Lyceu de Goiânia, projetado pelo arquiteto e urbanista Attílio Corrêa Lima, recentamente foi reaberto como escola de ensino integral, reafirmando sua relevância histórica e educacional
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Quais são os 22 projetos art déco tombados de Goiânia?
Antiga Escola Técnica de Goiânia
Antiga Subprefeitura e Fórum de Campinas
Antigo Grande Hotel
Antigo Palace Hotel
Chefatura de Polícia (atual Subsecretaria Estadual de Cultura)
Colégio Estadual Lyceu de Goiânia
Conjunto da Praça Cívica
Coreto da Praça Cívica
Delegacia Fiscal (futura sede do Iphan/GO)
Departamento Estadual de Informação (atual Museu Zoroastro Artiaga)
Estação Ferroviária de Goiânia
Fontes luminosas da Praça Cívica
Fórum e Tribunal de Justiça (atual Procuradoria Geral do Estado)
Mureta e Trampolim do Lago das Rosas
Obeliscos com luminárias da Praça Cívica
Palácio das Esmeraldas
Residência de Pedro Ludovico (atual Museu Pedro Ludovico)
Secretaria Geral (atual Centro Cultural Marieta Telles)
Teatro de Goiânia
Torre do Relógio
Traçado Viário dos Núcleos Urbanos Pioneiros
Tribunal Regional Eleitoral
Goiânia Art Déco Festival
Também com o intuito de valorizar esse patrimônio arquitetônico, surgiu o Goiânia Art Déco Festival, idealizado pelo artista visual, produtor cultural e guia de turismo Gutto Lemos. O evento, o único do tipo na América Latina, estrutura-se em três eixos — cultura, educação e turismo —, incluindo exposições, concursos, palestras, tours, caminhadas e mais atividades, todas sempre gratuitas.
A ideia, de acordo com Gutto, é fortalecer o senso de pertencimento da população e aproximar os moradores da história e identidade de Goiânia. “Em 2015, criei o primeiro mapa art déco da cidade, com roteiro para city tours e passeios pedagógicos. Em 2018, decidi reunir mais de uma década de experiências em prol desse patrimônio e lançar o festival”, ele conta.
O trampolim do Lago das Rosas, inaugurado em 1941, é um exemplar em estilo art déco. Integrado ao parque, tornou-se símbolo da modernidade urbana e do lazer na nova capital
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Ainda assim, ele lamenta a falta de políticas públicas e mais iniciativas para preservar essas edificações. “As várias trocas de administração prejudicaram o não seguimento de projetos de recuperação visual de prédios particulares do centro pioneiro, com a retirada de outdoors e propagandas irregulares. Ainda não sabemos a exata dimensão do conjunto privado art déco no centro devido à poluição visual”, relata.
Nesse sentido, o Iphan garante a proteção legal dos bens tombados, definindo normas de preservação e fiscalizando intervenções. A Prefeitura é responsável pela manutenção urbana do entorno, como praças e vias públicas. Já o Governo de Goiás cuida da conservação dos prédios estaduais tombados, como o Palácio das Esmeraldas e o antigo Tribunal de Justiça.
Vista por um novo ângulo, a Estação Ferroviária revela como a chegada da ferrovia dialogava com a modernidade do art déco, símbolo do desenvolvimento e da nova Goiânia
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Conforme observa a arquiteta Beatriz, o art déco absorve elementos próprios de cada contexto em que se insere. Em Goiânia, o estilo incorpora referências à história de ocupação do Centro-Oeste — marcada pelo ciclo do ouro e pela chegada da ferrovia —, além de traços da cultura regional, da presença indígena e da paisagem do cerrado.
Nesse sentido, iniciativas como o festival e o roteiro turístico tornam-se fundamentais, pois contribuem não apenas para a difusão do conhecimento artístico, mas também para a preservação da memória goiana (e brasileira).



