Conheça o Parque Roberto Burle Marx, que revela a história e a arquitetura de SJC

O Parque Roberto Burle Marx, também conhecido como Parque da Cidade, localizado no bairro de Santana, em São José dos Campos, no interior de São Paulo, SP, é uma importante área verde da região, ocupando cerca de 1 milhão m². Para além da importância ambiental, o parque tem uma relevância histórica significativa por ocupar a área da antiga Fazenda Tecelagem Parahyba, primeira indústria têxtil instalada no município e uma das empresas mais importantes do segmento naquele período.
O conjunto do parque ainda abriga a Residência Olivo Gomes, projetada pelo arquiteto ítalo-brasileiro Rino Levi (1901-1965), com jardins de autoria do paisagista brasileiro Roberto Burle Marx (1909-1994). A edificação é um exemplo importante da arquitetura moderna.
“Estamos falando do maior parque de São José dos Campos. Um espaço que é o pulmão da cidade e seu principal centro de convivência e ponto de encontro das famílias. Ele democratiza o acesso à arte e à natureza”, afirma Tom Freitas, presidente da Fundação Cultural Cassiano Ricardo (FCCR) e do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Artístico, Paisagístico e Cultural (Comphac) de São José dos Campos.
Hoje, como parte do grande complexo, do Parque da Cidade de São José dos Campos, está inclusa a Residência Olivo Gomes
ArquivoArq/Nelson Kon/Retirada do Trabalho de Conclusão de Curso “A pedagogia do jardim moderno de Roberto Burle Marx e a paisagem americana: práticas paisagísticas no Brasil, na Venezuela e na Costa Rica”, sob cessão de Ana Cecília de Albuquerque Ventura
O período da Tecelagem Parahyba
Inaugurada em 1925, a fábrica da Tecelagem Parahyba foi fundada por um grupo de empresários portugueses, inclusive, com relações com Francisco de Paula Ramos de Azevedo (1851-1928), engenheiro e arquiteto paulista formado na Bélgica e que desenvolveu diferentes projetos na capital paulista.
Com a crise global econômica de 1929, Olivo Gomes, um empresário atuante na bolsa de valores, foi convidado a analisar os ativos da fábrica e, pouco tempo depois, em 1933, tornou-se o principal acionista, proprietário e presidente da Tecelagem Parahyba.
A antiga Fazenda Sant’ana do Rio Abaixo, atualmente localizada no Parque da Cidade Roberto Burle Marx em São José dos Campos, São Paulo, foi construída em meio ao auge da tecelagem
Themium/Wikimedia Commons
A fábrica foi crescendo gradativamente e, na década de 1940, tornou-se um dos principais empreendimentos do setor, destacando-se, sobretudo, com a venda de cobertores em meio à guerra. “A tecelagem foi uma gigante têxtil que dominou cerca de 70% do mercado nacional de cobertores e exportou para mais de 90 países”, conta Tom.
Além do espaço da fábrica em si, o empreendimento de Gomes destacava-se por uma espécie de vilas operáriasq ue o administrador construía para abrigar o círculo de pessoas envolvidos no cotidiano da indústria.
Hoje, tombada como patrimônio nacional e estadual, a Tecelagem Parahyba construiu um grande complexo na cidade de São José dos Campos, em São Paulo
Themium/Wikimedia Commons
O auge da fábrica veio entre as décadas de 1950 e 1970, quando Olivo já havia falecido, e Clemente Gomes estava à frente da administração. Foi neste período a construção da Fazenda Sant’ana, projetada como uma residência para a família adjacente ao espaço da fábrica.
A fábrica passou por seu declínio a partir de 1982, diante de um cenário de acúmulo de dívidas extensas.
O projeto da Residência Olivo Gomes
Encomendada por Olivo Gomes, o projeto integrava o conjunto de obras da tecelagem e foi construída entre os anos de 1949 e 1951, com uma segunda fase realizada em 1965. A autoria do projeto é de Rino Levi e Roberto Cerqueira César (1917-2003), um dos fundadores do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), parceiro de trabalho de Rino que, inclusive, assumiu o escritório Rino Levi Arquitetos Associados após a morte do fundador.
“É um momento em que Rino se aproxima dessa elite brasileira vinculada à produção industrial, também em função dos contatos de Roberto. Ao mesmo tempo, desenvolve um caminho próprio, aproximando-se da construção civil e do trabalho com aço, inclusive na própria garagem de caminhões da tecelagem”, pontua Renato Anelli, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie e autor do livro Rino Levi, arquitetura e cidade (2019), da Romano Guerra Editora.
Projeto da Residência Olivio Gomes, na cidade de São José dos Campos, tem autoria do arquiteto Rino Levi, e jardins desenhados e projetados por Roberto Burle Marx
Acervo da Biblioteca da FAU-USP
A residência foi setorizada em três partes principais: social, íntima e de serviços. Foram projetados oito dormitórios, com um banheiro para cada dois quartos, escritório, salão de jogos, piscina, garagem com seis vagas cobertas e área de serviço com dois dormitórios para empregados.
Do ponto de vista estrutural, a edificação aposta na combinação de concreto armado, com cobertura de telhas de fibrocimento e pilares cilíndricos de concreto no pavimento inferior.
O interior da Residência Olivio Gomes revela a influência modernista na construção. Na imagem, a escada helicoidal, que dá acesso ao terraço do pavimento superior da casa
Flickr/Prefeitura de São José dos Campos-Claudio Vieira/Creative Commons
“O projeto também inclui elementos como pilotis, uma vez que a casa apresenta uma parte mais elevada, e uma escada helicoidal, que dá acesso ao terraço do pavimento superior. São colocadas também janelas em fita, com essa grande abertura direta para o jardim”, indica Ana Cecília de Albuquerque Ventura, arquiteta urbanista, formada pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
Esses elementos e o projeto da residência de forma mais ampla alinha-se à estética moderna, presente no trabalho dos arquitetos naquele período. “O que vemos nesse projeto é não só uma síntese da arquitetura moderna, mas também do paisagismo e da relação direta entre essas duas instâncias”, indica Ana Cecília. “A casa está aberta para o antigo Vale do Rio Paraíba, com vista para a serra e para o rio em si. É como se a residência tivesse sido feita em função dessa perspectiva”, complementa Renato.
A Residência Olivo Gomes, na cidade de São José dos Campos, tem uma estética modernista que pode ser percebida pelos materiais, pela estrutura e pelo desenho arquitetônico
Halley Pacheco de Oliveira/Wikimedia Commons
A concepção do jardim ficou a cargo de Roberto Burle Marx, com quem Rino já havia trabalhado e seguiu trabalhando em diferentes períodos da carreira. “Os anos 1950 foram muito produtivos, com o desenvolvimento de um número significativo de projetos importantes que deram continuidade à exploração e à experimentação plástica de formas, ao uso de espécies nativas e à aplicação de elementos como painéis e obras artísticas em seus jardins”, explica Gustavo Leivas, arquiteto paisagista e sócio-diretor do Escritório Burle Marx.
Os jardins são amplos e com formas orgânicas, que complementam e contrastam com as linhas mais formais e retas da arquitetura. “Eles apresentam grandes manchas de forrações e arbustos com cores e texturas variadas. A composição também dialoga com a paisagem do entorno”, afirma Gustavo.
O projeto da Residência Olivo Gomes previa uma grande interligação entre a arquitetura e o paisagismo moderno. Fotografia de Nelson Kon
ArquivoArq/Nelson Kon/Retirada do Trabalho de Conclusão de Curso “A pedagogia do jardim moderno de Roberto Burle Marx e a paisagem americana: práticas paisagísticas no Brasil, na Venezuela e na Costa Rica”, sob cessão de Ana Cecília de Albuquerque Ventura
As formas dos canteiros e elementos como espelhos d’água, assim como painéis artísticos, reforçam o diálogo entre as duas esferas do projeto da residência. “A integração entre o paisagismo de Burle Marx e a arquitetura de Rino Levi surpreende pela ousadia e pela sintonia”, ressalta Gustavo.
O projeto pode ser visto como um exemplo que retoma a pedagogia do jardim defendida por Roberto Burle Barx, como colocado por Ana Cecília e sua orientadora Ana Rita Sá Carneiro, professora e coordenadora do Laboratório da Paisagem, ambos na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFPE.
“O jardim tem três principais funções: higiene, educação e arte. Essa era uma base que Burle Marx aplicava a diferentes projetos, inclusive este em São José dos Campos. É como se o jardim fosse um convite ao alívio, um espaço onde é possível se desligar da atenção da cidade, do urbano”, explica Ana Rita.
Na Residência Olivo Gomes, projeto dos arquitetos Rino Levi e Roberto Cerqueira César, o paisagista Roberto Burle Marx propôs murais que reforçam a dimensão artística também presente em seu trabalho
Flickr/Fernando Stankuns/Creative Commons
A dimensão da higiene pode ser percebida pelo uso de espécies nativas, inclusive de autóctones, que se tornaram uma marca do trabalho do paisagista. Já o aspecto da arte pode ser visto tanto no desenho do jardim em si, quanto nas produções artísticas que desenvolvia em paralelo. Na casa da Residência Olivo Gomes, os murais nas paredes feitos por Burle Marx reforçam esse aspecto do tripé articulado pela pedagogia do trabalho do paisagista.
“É através desses conjuntos de elementos que Burle Marx guia não só o olhar, mas a experiência de viver e sentir o espaço, e cria jardins que se transformam em ricas experiências sensoriais”, ressalta Gustavo.
Transformação do conjunto da fábrica em parque
O complexo foi transformado em parque municipal em 1996. Neste mesmo ano, o processo de tombamento foi aberto pela Prefeitura de São José dos Campos. A residência, inicialmente de uso privado, passou a integrar o conjunto do parque.
“Sua transformação em parque público da cidade de São José torna o espaço ainda mais relevante pelo fato de Burle Marx enfatizar a importância dos espaços públicos de lazer nos grandes centros. Também vale enfatizar a importância deste complexo frente à relevância de Rino Levi e Burle Marx para o movimento modernista”, ressalta Gustavo.
Preservação, tombamento e contexto atual
Em 2013, o Parque da Cidade foi tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo (Condephaat). Também há diretrizes municipais de preservação estabelecidas pelo Comphac.
Em nível nacional, o tombamento do conjunto da Tecelagem Parahyba e da Fazenda Sant’ana do Rio Abaixo aconteceu em 10 de novembro de 2021. A decisão foi tomada durante uma reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, órgão vinculado ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). De caráter permanente, a preservação proposta pelo órgão garante que todas as propostas de intervenção sejam previamente autorizadas pelo Instituto.
O Parque da Cidade Roberto Burle Marx, em São José dos Campos, SP, já esteve sob administração municipal e agora foi concedido à iniciativa privada
Flickr/Fundação Cassiano Ricardo/Creative Commons
“O tombamento é imprescindível para manter essa memória viva. O patrimônio é algo que você estima, e, para além disso, relaciona à vida cotidiana de quem está lá, de quem frequenta esses espaços”, ressalta Ana Cecília.
A preservação e a manutenção da residência, do conjunto da antiga fábrica e do parque em si seguem sendo dois dos grandes desafios no cenário atual. “Por ser uma composição paisagística com grandes áreas ajardinadas, os jardins têm sofrido com a falta de manutenção ao longo dos anos. A recuperação dos jardins e de elementos como espelhos d’água e painéis artísticos é fundamental para a preservação deste importante patrimônio arquitetônico e paisagístico nacional”, diz Gustavo.
Atualmente, a Residência Olivo Gomes tem passado por uma série de reparos e uma etapa de restauração para a recuperação do espaço e a instalação do Museu da Casa Brasileira
Flickr/Fundação Cassiano Ricardo/Creative Commons
A fundação administradora afirma que as medidas necessárias tem sido tomadas em prol da preservação do espaço. “As antigas instalações da Fazenda e da Tecelagem foram adaptadas para receber a sede da FCCR, oficinas culturais, o Museu do Folclore e espaços de lazer. A residência passou por processos de restauro para manter suas características originais de 1951, enquanto o parque recebeu infraestrutura de segurança, pistas de caminhada e iluminação”, indica Tom.
Seu patrimônio é tombado pelo Comphac – Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Artístico, Paisagístico e Cultural. A Residência Olivo Gomes e os jardins de Burle Marx são tombados pelo Condephaat.
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Antes sob administração municipal, em 2025, o parque foi concedido para a iniciativa privada. A decisão foi aprovada na Câmara da cidade e autoriza a concessão por até 35 anos. A administradora responsável no presente momento, em 2026, é a Fundação Cultural Cassiano Ricardo.
Recentemento, foi anunciado que a Residência Olivo Gomes será a nova sede do Museu da Casa Brasileira, após negociação com o governo estadual, com a Associação Pinacoteca Arte e Cultura, a Fundação e a Prefeitura de São José dos Campos. Diante disso, iniciou-se uma etapa de restauração e reparo da residência.

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