Contra a pasteurização: arquiteto defende o retorno das pastilhas

Sempre fui apaixonado por pastilhas, esses revestimentos cerâmicos de tamanho pequeno, cujas linhas nas juntas conectam e organizam o xadrez das peças. Para mim, quanto menores, mais elegante o conjunto. As pastilhas ainda permitem revestir formas curvas, moldam-se ao desenho das paredes, dos pisos e das lajes mais orgânicos. Formam efeitos de cor e perspectivas, a depender da escala em que são usadas.
A graça da arquitetura de interiores na fase de obras é justamente essa brincadeira de elementos internos, que se mesclam à construção, dialogam com a fachada e fogem ao óbvio da marcenaria e da marmoraria.
As pastilhas eram comuns na época de ouro das construções modernistas, aplicadas em áreas internas e externas, inclusive para revestir mobiliário. Grandes mestres das artes plásticas como Cândido Portinari, Burle Marx e Paulo Werneck têm em seus trabalhos composições com esses elementos de diferentes cores.
A aplicação carrega ainda a beleza de um trabalho artesanal, a inserção de cada elemento garante movimento e contraste às obras.
Projeto do escritório Felipe Hess Arquitetos, esse edifício no Leblon, Rio de Janeiro, usou dos azulejos com pinturas de pássaros, de Adriana Varejão, para revestir as floreiras na fachada
Felipe Hess Arquitetos/Divulgação
A Vidrotil foi a maior fabricante de pastilhas de vidro no país, e garantiu o charme da irregularidade em cada peça. Participou da execução de obras de grandes muralistas modernos brasileiros, além de milhares de edifícios modernistas pelo país. Quando fechou as portas em 2018, com a quebra de seu forno, deixou um grande vazio no mercado, e faz falta até para a manutenção das obras existentes.
Com isso, a explosão de peças maiores e o avanço da tecnologia do porcelanato reduziu ainda mais o uso das pastilhas, mesmo nas fachadas dos edifícios.
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Recentemente, a estética vintage trouxe de volta ao mercado opções menores. As inspirações em plaquetas de estações de metrô também foram responsáveis pelo retorno dos azulejos, que por um bom tempo eram palavra proibida na arquitetura. Para mim, um azulejo branco 15 x 15cm, daqueles bem comuns de açougue, segue sendo das coisas mais charmosas para revestir áreas molhadas.
Revestimentos esmaltados pequenos, que sumiram do mercado, retornam agora com propostas mais rústicas. As variações de tonalidade conferem ares de produtos feitos a mão ou remetem a elementos da natureza, com tons de verde, azul e terrosos.
Nessa cozinha, os ladrilhos hidráulicos em pequeno formato na cor rosa, da Linha da Metro Arquitetos, contrastam com os tons neutros da cozinha
Tita Leke/Divulgação | Projeto do escritório Daniel Bolson Arquitetura
Após sermos massificados com impressões em porcelanatos e um visual fake carregado, em uma repetição de veios marcados, parece que o mercado evoluiu. Hoje, encontra-se maior pureza na granulação dos revestimentos, com mais refinamento e fidelidade nas texturas.
Com a ideia de criar um monólito, a ilha desse apartamento foi construída em alvenaria e revestida de pastilha cerâmicas
Renata Freitas/Divulgação | Projeto do escritório Sensum Arquitetura
A cerâmica como tela para pintura também aparece em trabalhos maravilhosos, como os azulejos com pinturas de pássaros de Adriana Varejão. Motivos de natureza também inspiram os azulejos de Walmor Correa.
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Em um mercado que parece caminhar para a neutralidade, a padronização das estéticas e a pasteurização de cores, o que mais vemos é a repetição dos mesmos elementos, como uma espécie de busca por pertencimento. Encontrar materiais que consigam fugir ao óbvio, brincar com a funcionalidade e a beleza faz projetos se tornarem referência e inspiração – mostra a importância da diversidade de estilos em um meio onde tudo acaba ficando igual e logo perde a graça.

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