A entrada de marcas de luxo no mercado imobiliário inaugurou um novo tipo de propriedade — o das residências assinadas. São prédios, condomínios e até “bairros” que apostam na união com grandes empresas para agregar prestígio e identidade à arquitetura. Entre as parcerias, é perceptível uma crescente participação de montadoras de carros.
Em janeiro de 2024, a alemã Mercedes-Benz revelou que iria investir cerca de US$ 8,2 bilhões (R$ 43,7 bilhões na cotação atual) em um distrito residencial de 930 mil m² em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. O projeto prevê 13 mil apartamentos distribuídos em 12 torres, cada uma batizada em homenagem a um modelo da fabricante.
O empreendimento, com conclusão prevista para 2029, terá apartamentos de três dormitórios com valores que podem chegar a US$ 5 milhões (R$ 26,65 milhões).
O complexo assinado pela Mercedes-Benz, em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, contará com 12 torres e 13 mil apartamentos
Binghatti for Mercedes-Benz/Divulgação
Outras montadoras de luxo também têm investido em prédios residenciais. A alemã Porsche foi pioneira ao inaugurar, em 2017, a Design Tower em Miami, Estados Unidos, com projeto de arquitetura do escritório Sieger Suarez Architects. Na mesma cidade, a britânica Aston Martin lançou em 2024 seu primeiro empreendimento imobiliário: uma torre de 66 andares, 249 metros de altura e 391 apartamentos, cujo projeto foi conduzido pelo escritório Bodas Miani Anger.
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Já a francesa Bugatti prevê concluir, até 2027, um arranha-céu de 42 andares em Dubai, marcado por uma arquitetura de curvas sinuosas — incluindo uma unidade já vendida ao jogador Neymar Jr. por cerca de R$ 314 milhões.
O empreendimento assinado pela Porsche em Miami, Estados Unidos, aposta em design de alto padrão, tecnologia e exclusividade como diferenciais no mercado imobiliário de luxo
Porsche Lifestyle Group/Divulgação
Essa onda também acontece no Brasil. O estúdio de design Pininfarina, que assina os carros da italiana Ferrari, é o nome por trás de um empreendimentos São Paulo, SP, ainda em desenvolvimento, e dois em Balneário Camboriú, SC — um já entregue em dezembro de 2025 e outro em construção. Em João Pessoa, PB, a Setai Residences contará com um condomínio assinado pela Aston Martin, com projeto do escritório Baggio Pereira e Schiavon Arquitetura.
E isso pode ser só o começo. As residências assinadas se multiplicam pelo mundo e devem chegar a mil projetos até 2030, segundo o relatório The Residence Report 2025/26, da consultoria internacional Knight Frank.
Com três torres assinadas pela Pininfarina, uma ainda em construção, a GT Home aposta em tecnologia e design para atrair investidores de alta renda e consolidar seus empreendimentos como reserva de valor em Balneário Camboriú, SC
GT Home/Divulgação
Imagem e valor para o consumo
No caso das construções assinadas por automotivas, há uma combinação entre design, serviços de requinte e uma boa estratégia de marketing. “As montadoras já entendem que o carro deixa de ser essencial e passa a ser opcional, diante do avanço da economia compartilhada — com aplicativos, táxis e transporte público. Nesse cenário, torna-se um item mais restrito a quem pode e deseja tê-lo”, analisa Giovanni Campari, professor do curso de Arquitetura e Urbanismo do Centro Universitário Belas Artes.
A aposta dessas fabricantes, então, mira-se na diversificação de produtos, mas sem deixar de lado o DNA ligado ao glamour. “É uma combinação ideal: incorporadoras se diferenciam no mercado de luxo, onde há disposição para pagar valores elevados, ao apostar na inovação e na criatividade”, opina o professor.
Projetos como o da Porsche, nos Estados Unidos, mostram como montadoras expandem sua atuação para além dos carros, apostando no mercado imobiliário de luxo
Porsche Lifestyle Group/Divulgação
Segundo Katherine Sresnewsky, coordenadora do Hub de Luxo da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), há um interesse mútuo nessa associação. “As marcas ‘emprestam’ prestígio, ampliam sua atuação e aumentam o valor percebido pelo cliente, desde que essa parceria não comprometa o posicionamento de nenhuma delas”, explica.
Do ponto de vista urbano, alguns especialistas analisam a chegada desses empreendimentos prestigiados como ícones para as cidades que se instalam. Entre elementos que esses condomínios carregam está a ousadia técnica, arquitetônica, tecnológica, o estilo contemporâneo e a presença de uma ampla estrutura de bem-estar e lazer. “Esses grandes empreendimentos apontam caminhos para o futuro das cidades, com soluções cada vez mais autônomas de iluminação, ventilação e climatização, controladas por celular”, diz Giovanni.
O Bentley Residences, em Miami, EUA, leva o universo da marca britânica para o mercado imobiliário, com apartamentos de alto padrão e soluções exclusivas, como elevadores para carros
Bentley Residences/Divulgação
Estética futurista
Esse movimento também dialoga com uma mudança no perfil do consumidor brasileiro de alto padrão. Se nas décadas de 1980 e 1990 predominava uma estética neoclássica nas construções, hoje há uma busca por arquitetura contemporânea, tecnologia e referências internacionais — reflexo de um público mais globalizado.
O prédio em desenvolvimento assinado pela Pininfarina em São Paulo, por exemplo, tem a proposta de ser o mais alto da cidade, com 210 metros de altura. Já em Dubai, a visão da Mercedes-Benz é criar uma cidade inteira, com parques, áreas culturais, instalações esportivas e restaurantes.
Enquanto isso, em Miami, o Bentley Residences — da construtora Dezer Development, do escritório Sieger Suarez Architects e assinado pela fabricante britânica Bentley — terá 62 andares e será a torre residencial mais alta à beira-mar dos Estados Unidos. Cada um dos 216 apartamentos contará com varanda, piscina, sauna privativa e um elevador exclusivo para carros, eliminando a necessidade de garagens coletivas.
Elevadores exclusivos para carros levam os veículos diretamente aos apartamentos no Bentley Residences, eliminando garagens coletivas e reforçando a proposta de privacidade e conveniência
Bentley Residences/Divulgação
Impacto urbanístico
“Por outro lado, esses edifícios tendem a atrair moradores de alto poder aquisitivo, com unidades amplas, geralmente acima de 300 m²”, aponta Giovanni. De acordo com um estudo da consultoria Savills, residênciais assinadas tem um valor de imóvel 30% mais alto no mundo. A média de valorização na América Latina é ainda maior, chegando a 63%.
Segundo ele, essas construções também reforçam processos de gentrificação — fenômeno que valoriza uma região e estimula a chegada de novas infraestruturas, mas também intensifica a especulação imobiliária e transforma o espaço em reduto das classes mais altas.
Para Katherine, o impacto no entorno também envolve mudanças no perfil de circulação e no uso da região, podendo reforçar dinâmicas de exclusividade, ainda que responda a uma demanda real do mercado.
Áreas privativas com piscina, sauna e espaços de bem-estar reforçam a proposta de exclusividade e conforto nos apartamentos do Bentley Residences
Bentley Residences/Divulgação
A exclusividade da proposta deixa de lado elementos que valorizam a conexão entre moradia e cidade. “Os empreendimentos tendem a priorizar o que é exclusivo, sem incorporar contrapartidas urbanas como fachadas ativas ou habitação de interesse social. O público-alvo busca privacidade, o que se traduz em térreos controlados por guarita e áreas de lazer de uso restrito, que poderão ser patrocinadas, como um spa assinado por uma empresa de beleza”, esclarece o professor.
Com 66 andares, o Aston Martin Residences, em Miami, marcou a estreia da marca britânica no mercado imobiliário
Phillip Pessar/Wikimedia Commons
O lar do amanhã em voga
Vale citar que o movimento não se restringe ao setor automotivo. As grifes Armani e Versace, e redes hoteleiras, como Four Seasons e Aman, também já assinam residenciais em países como Estados Unidos, Inglaterra, Japão e Emirados Árabes Unidos, ampliando a presença do luxo no setor imobiliário.
Mais do que uma tendência, os professores acreditam esses projetos devem continuar se concretizando pelo mundo. “Observa-se um movimento em busca de diversificação e fortalecimento de marca, cada vez mais presente nos planejamentos estratégicos do setor. Não é algo novo: parcerias entre segmentos como beleza e moda, aviação e moda, e moda e automobilismo já se consolidaram”, reforça Katherine.
Leia mais
Mais um exemplo é a italiana Lamborghini, que investiu em três empreendimentos luxuosos no Brasil: em São Paulo, Balneário Camboriú e Goiânia — em novembro de 2025, antes mesmo do início das obras na capital goiana, a empresa afirmou ter comercializado 60% das unidades. Segundo o g1, os preços variam de R$ 619 mil a R$ 5,3 milhões.
“Há um aumento da percepção do valor de mercado imediato, emprestado pela marca de luxo”, comenta a professora Katherine. “A venda é veloz, há casos em que uma torre inteira é comercializada em poucos dias. O público reconhece o valor da arquitetura e da exclusividade, com preços que já ultrapassam R$ 20 mil por m² e chegam a mais de R$ 50 mil por m²”, adiciona Giovanni.
Em janeiro de 2024, a alemã Mercedes-Benz revelou que iria investir cerca de US$ 8,2 bilhões (R$ 43,7 bilhões na cotação atual) em um distrito residencial de 930 mil m² em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. O projeto prevê 13 mil apartamentos distribuídos em 12 torres, cada uma batizada em homenagem a um modelo da fabricante.
O empreendimento, com conclusão prevista para 2029, terá apartamentos de três dormitórios com valores que podem chegar a US$ 5 milhões (R$ 26,65 milhões).
O complexo assinado pela Mercedes-Benz, em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, contará com 12 torres e 13 mil apartamentos
Binghatti for Mercedes-Benz/Divulgação
Outras montadoras de luxo também têm investido em prédios residenciais. A alemã Porsche foi pioneira ao inaugurar, em 2017, a Design Tower em Miami, Estados Unidos, com projeto de arquitetura do escritório Sieger Suarez Architects. Na mesma cidade, a britânica Aston Martin lançou em 2024 seu primeiro empreendimento imobiliário: uma torre de 66 andares, 249 metros de altura e 391 apartamentos, cujo projeto foi conduzido pelo escritório Bodas Miani Anger.
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Já a francesa Bugatti prevê concluir, até 2027, um arranha-céu de 42 andares em Dubai, marcado por uma arquitetura de curvas sinuosas — incluindo uma unidade já vendida ao jogador Neymar Jr. por cerca de R$ 314 milhões.
O empreendimento assinado pela Porsche em Miami, Estados Unidos, aposta em design de alto padrão, tecnologia e exclusividade como diferenciais no mercado imobiliário de luxo
Porsche Lifestyle Group/Divulgação
Essa onda também acontece no Brasil. O estúdio de design Pininfarina, que assina os carros da italiana Ferrari, é o nome por trás de um empreendimentos São Paulo, SP, ainda em desenvolvimento, e dois em Balneário Camboriú, SC — um já entregue em dezembro de 2025 e outro em construção. Em João Pessoa, PB, a Setai Residences contará com um condomínio assinado pela Aston Martin, com projeto do escritório Baggio Pereira e Schiavon Arquitetura.
E isso pode ser só o começo. As residências assinadas se multiplicam pelo mundo e devem chegar a mil projetos até 2030, segundo o relatório The Residence Report 2025/26, da consultoria internacional Knight Frank.
Com três torres assinadas pela Pininfarina, uma ainda em construção, a GT Home aposta em tecnologia e design para atrair investidores de alta renda e consolidar seus empreendimentos como reserva de valor em Balneário Camboriú, SC
GT Home/Divulgação
Imagem e valor para o consumo
No caso das construções assinadas por automotivas, há uma combinação entre design, serviços de requinte e uma boa estratégia de marketing. “As montadoras já entendem que o carro deixa de ser essencial e passa a ser opcional, diante do avanço da economia compartilhada — com aplicativos, táxis e transporte público. Nesse cenário, torna-se um item mais restrito a quem pode e deseja tê-lo”, analisa Giovanni Campari, professor do curso de Arquitetura e Urbanismo do Centro Universitário Belas Artes.
A aposta dessas fabricantes, então, mira-se na diversificação de produtos, mas sem deixar de lado o DNA ligado ao glamour. “É uma combinação ideal: incorporadoras se diferenciam no mercado de luxo, onde há disposição para pagar valores elevados, ao apostar na inovação e na criatividade”, opina o professor.
Projetos como o da Porsche, nos Estados Unidos, mostram como montadoras expandem sua atuação para além dos carros, apostando no mercado imobiliário de luxo
Porsche Lifestyle Group/Divulgação
Segundo Katherine Sresnewsky, coordenadora do Hub de Luxo da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), há um interesse mútuo nessa associação. “As marcas ‘emprestam’ prestígio, ampliam sua atuação e aumentam o valor percebido pelo cliente, desde que essa parceria não comprometa o posicionamento de nenhuma delas”, explica.
Do ponto de vista urbano, alguns especialistas analisam a chegada desses empreendimentos prestigiados como ícones para as cidades que se instalam. Entre elementos que esses condomínios carregam está a ousadia técnica, arquitetônica, tecnológica, o estilo contemporâneo e a presença de uma ampla estrutura de bem-estar e lazer. “Esses grandes empreendimentos apontam caminhos para o futuro das cidades, com soluções cada vez mais autônomas de iluminação, ventilação e climatização, controladas por celular”, diz Giovanni.
O Bentley Residences, em Miami, EUA, leva o universo da marca britânica para o mercado imobiliário, com apartamentos de alto padrão e soluções exclusivas, como elevadores para carros
Bentley Residences/Divulgação
Estética futurista
Esse movimento também dialoga com uma mudança no perfil do consumidor brasileiro de alto padrão. Se nas décadas de 1980 e 1990 predominava uma estética neoclássica nas construções, hoje há uma busca por arquitetura contemporânea, tecnologia e referências internacionais — reflexo de um público mais globalizado.
O prédio em desenvolvimento assinado pela Pininfarina em São Paulo, por exemplo, tem a proposta de ser o mais alto da cidade, com 210 metros de altura. Já em Dubai, a visão da Mercedes-Benz é criar uma cidade inteira, com parques, áreas culturais, instalações esportivas e restaurantes.
Enquanto isso, em Miami, o Bentley Residences — da construtora Dezer Development, do escritório Sieger Suarez Architects e assinado pela fabricante britânica Bentley — terá 62 andares e será a torre residencial mais alta à beira-mar dos Estados Unidos. Cada um dos 216 apartamentos contará com varanda, piscina, sauna privativa e um elevador exclusivo para carros, eliminando a necessidade de garagens coletivas.
Elevadores exclusivos para carros levam os veículos diretamente aos apartamentos no Bentley Residences, eliminando garagens coletivas e reforçando a proposta de privacidade e conveniência
Bentley Residences/Divulgação
Impacto urbanístico
“Por outro lado, esses edifícios tendem a atrair moradores de alto poder aquisitivo, com unidades amplas, geralmente acima de 300 m²”, aponta Giovanni. De acordo com um estudo da consultoria Savills, residênciais assinadas tem um valor de imóvel 30% mais alto no mundo. A média de valorização na América Latina é ainda maior, chegando a 63%.
Segundo ele, essas construções também reforçam processos de gentrificação — fenômeno que valoriza uma região e estimula a chegada de novas infraestruturas, mas também intensifica a especulação imobiliária e transforma o espaço em reduto das classes mais altas.
Para Katherine, o impacto no entorno também envolve mudanças no perfil de circulação e no uso da região, podendo reforçar dinâmicas de exclusividade, ainda que responda a uma demanda real do mercado.
Áreas privativas com piscina, sauna e espaços de bem-estar reforçam a proposta de exclusividade e conforto nos apartamentos do Bentley Residences
Bentley Residences/Divulgação
A exclusividade da proposta deixa de lado elementos que valorizam a conexão entre moradia e cidade. “Os empreendimentos tendem a priorizar o que é exclusivo, sem incorporar contrapartidas urbanas como fachadas ativas ou habitação de interesse social. O público-alvo busca privacidade, o que se traduz em térreos controlados por guarita e áreas de lazer de uso restrito, que poderão ser patrocinadas, como um spa assinado por uma empresa de beleza”, esclarece o professor.
Com 66 andares, o Aston Martin Residences, em Miami, marcou a estreia da marca britânica no mercado imobiliário
Phillip Pessar/Wikimedia Commons
O lar do amanhã em voga
Vale citar que o movimento não se restringe ao setor automotivo. As grifes Armani e Versace, e redes hoteleiras, como Four Seasons e Aman, também já assinam residenciais em países como Estados Unidos, Inglaterra, Japão e Emirados Árabes Unidos, ampliando a presença do luxo no setor imobiliário.
Mais do que uma tendência, os professores acreditam esses projetos devem continuar se concretizando pelo mundo. “Observa-se um movimento em busca de diversificação e fortalecimento de marca, cada vez mais presente nos planejamentos estratégicos do setor. Não é algo novo: parcerias entre segmentos como beleza e moda, aviação e moda, e moda e automobilismo já se consolidaram”, reforça Katherine.
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Mais um exemplo é a italiana Lamborghini, que investiu em três empreendimentos luxuosos no Brasil: em São Paulo, Balneário Camboriú e Goiânia — em novembro de 2025, antes mesmo do início das obras na capital goiana, a empresa afirmou ter comercializado 60% das unidades. Segundo o g1, os preços variam de R$ 619 mil a R$ 5,3 milhões.
“Há um aumento da percepção do valor de mercado imediato, emprestado pela marca de luxo”, comenta a professora Katherine. “A venda é veloz, há casos em que uma torre inteira é comercializada em poucos dias. O público reconhece o valor da arquitetura e da exclusividade, com preços que já ultrapassam R$ 20 mil por m² e chegam a mais de R$ 50 mil por m²”, adiciona Giovanni.



