Sempre me chamou atenção como algumas matérias carregam mais do que forma. Elas carregam tempo. A tapeçaria é uma delas. Antes de ser objeto decorativo, o tecido foi linguagem. Em culturas como a dos Kente, no Gana, ou dos Kuba, na República Democrática do Congo, os padrões tecidos comunicavam status, pertencimento, passagem. Não eram feitos para a parede, eram feitos para o corpo, para o ritual, para o registro.
Quando a colonização reorganizou essas culturas, parte do que se perdeu foi exatamente isso: o entendimento de que fazer é também uma forma de saber. O artesanato foi separado da arte, a arte foi separada do sagrado, e o que restou foi só a superfície. A tapeçaria virou decoração. Mas o gesto que a originou nunca foi só isso.
Foi essa sensação quando conheci o trabalho de Alex Rocca. Existe uma construção silenciosa nas peças dele que não tenta se explicar de imediato. Um trabalho que pede pausa, que pede aproximação. Quando fala sobre o próprio processo, ele revela que sua pesquisa é, na verdade, um mergulho em sua própria história. Mais do que criação, trata-se de um exercício de escuta: um caminho para encontrar sua herança, refletindo sobre aquilo que recebemos antes mesmo de pensar no que deixamos.
Mando JeJe” é uma das obras do artista e designer têxtil Alex Rocca, inserida em sua pesquisa sobre tapeçarias e memória
Alex Rocca/Divulgação
Essa escuta aparece também na forma como ele trabalha a matéria. Seu trabalho explora manualidades e materiais milenares, que carregam a história de sua raiz e permanência.
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Ele não está criando sozinho. Está lidando com materiais que já chegam carregados. Ao repetir gestos, ao construir padrões, ele se insere numa continuidade. Não é sobre começar algo, é sobre dar sequência.
O artista e designer têxtil Alex Rocca participou de importantes exposições em São Paulo, como a SP-Arte, e também levou suas obras para Miami, na The House of Arts, consolidando sua presença no circuito internacional de arte contemporânea
Henrique S. Francisco/Divulgação
Essa conexão se revela também no campo conceitual: Alex Rocca integra sua pesquisa às cosmologias afrodescendentes, que tratam da relação entre corpo, território e espiritualidade.
O manto, o totem, não são objetos neutros. Eles se aproximam de símbolos, de elementos de proteção, de presença. E é aqui que o trabalho do Alex toca numa questão mais ampla: decolonizar o design não é só incluir referências não-europeias numa prateleira. É questionar o que foi silenciado quando decidimos que objeto é objeto, e nada mais. O corpo como território. O território como memória. O fazer como ato espiritual.
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O trabalho do Alex não tenta ser imediato. E talvez seja isso que mais me interessa. A gente toma decisões o tempo todo sobre o que quer ter perto, o que quer olhar, o que quer que permaneça. Escolher objetos que carregam história de verdade, que vêm de uma pesquisa, de um corpo, de uma raiz, é também uma forma de fazer essas perguntas. Às vezes, é só parar diante de uma peça e sentir que ela te devolve algo que você não sabia que tinha perdido.
Quando a colonização reorganizou essas culturas, parte do que se perdeu foi exatamente isso: o entendimento de que fazer é também uma forma de saber. O artesanato foi separado da arte, a arte foi separada do sagrado, e o que restou foi só a superfície. A tapeçaria virou decoração. Mas o gesto que a originou nunca foi só isso.
Foi essa sensação quando conheci o trabalho de Alex Rocca. Existe uma construção silenciosa nas peças dele que não tenta se explicar de imediato. Um trabalho que pede pausa, que pede aproximação. Quando fala sobre o próprio processo, ele revela que sua pesquisa é, na verdade, um mergulho em sua própria história. Mais do que criação, trata-se de um exercício de escuta: um caminho para encontrar sua herança, refletindo sobre aquilo que recebemos antes mesmo de pensar no que deixamos.
Mando JeJe” é uma das obras do artista e designer têxtil Alex Rocca, inserida em sua pesquisa sobre tapeçarias e memória
Alex Rocca/Divulgação
Essa escuta aparece também na forma como ele trabalha a matéria. Seu trabalho explora manualidades e materiais milenares, que carregam a história de sua raiz e permanência.
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Ele não está criando sozinho. Está lidando com materiais que já chegam carregados. Ao repetir gestos, ao construir padrões, ele se insere numa continuidade. Não é sobre começar algo, é sobre dar sequência.
O artista e designer têxtil Alex Rocca participou de importantes exposições em São Paulo, como a SP-Arte, e também levou suas obras para Miami, na The House of Arts, consolidando sua presença no circuito internacional de arte contemporânea
Henrique S. Francisco/Divulgação
Essa conexão se revela também no campo conceitual: Alex Rocca integra sua pesquisa às cosmologias afrodescendentes, que tratam da relação entre corpo, território e espiritualidade.
O manto, o totem, não são objetos neutros. Eles se aproximam de símbolos, de elementos de proteção, de presença. E é aqui que o trabalho do Alex toca numa questão mais ampla: decolonizar o design não é só incluir referências não-europeias numa prateleira. É questionar o que foi silenciado quando decidimos que objeto é objeto, e nada mais. O corpo como território. O território como memória. O fazer como ato espiritual.
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O trabalho do Alex não tenta ser imediato. E talvez seja isso que mais me interessa. A gente toma decisões o tempo todo sobre o que quer ter perto, o que quer olhar, o que quer que permaneça. Escolher objetos que carregam história de verdade, que vêm de uma pesquisa, de um corpo, de uma raiz, é também uma forma de fazer essas perguntas. Às vezes, é só parar diante de uma peça e sentir que ela te devolve algo que você não sabia que tinha perdido.



