Macela: aprenda a cultivar esse remédio digestivo natural em casa

Conhecida pela tradicional colheita na sexta-feira santa, as propriedades medicinais da macela (Achyrocline satureioides) transcendem o calendário religioso. O cultivo da planta em casa, além de trazer frescor à decoração, permite aliviar desconfortos digestivos ao longo de todo o ano.
“A macela, ou marcela, é uma espécie de grande importância no Brasil, especialmente na região sul, onde possui forte valor cultural, medicinal e econômico. Além de seu uso tradicional em chás e preparações caseiras, ela vem ganhando destaque também no setor fitoterápico e na indústria de produtos naturais. É uma planta que une tradição popular e interesse científico crescente”, afirma Thulio Mariotto, engenheiro-agrônomo e especialista em Fitotecnia.
Afinal, o correto é macela ou marcela?
Essa duplicidade de nomes reflete a evolução da linguagem popular. Enquanto “macela” é o termo mais difundido nacionalmente, a variante com “r” é predominante no sul e no Cerrado, moldando-se aos sotaques regionais ao longo das gerações.
Tanto macela como marcela referem-se à planta medicinal ‘Achyrocline satureoides’
Maurício Fanfa/Wikimedia Commons
“Não existe diferença taxonômica entre “macela” e “marcela”: ambas as denominações referem-se à mesma espécie, Achyrocline satureioides, da família Asteraceae. A diferença está apenas na forma regional de nomeá-la”, esclarece Thulio.
Embora os nomes se refiram à mesma planta, o uso de termos populares pode gerar equívocos no campo. “A confusão pode surgir quando o nome popular é aplicado a outras espécies semelhantes da mesma família, o que reforça a importância da identificação pelo nome científico, especialmente em cultivos comerciais ou uso medicinal”, explica.
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Características da macela
De porte herbáceo ou subarbustivo, a macela possui folhas finas e pontiagudas que crescem presas ao caule, sem haste própria, distribuindo-se de forma alternada pelo galho
Alex Popovkin/Wikimedia Commons
Visualmente, a macela se destaca por seu tom prateado e toque aveludado. Essa coloração característica, que por vezes puxa para o cinza, é resultado de uma cobertura de pelos minúsculos que protegem tanto o caule quanto a folhagem da planta.
“A macela é uma planta herbácea de porte médio, que fica entre 40 e 70 centímetros de altura, com caule fino, ereto e bastante ramificado. Suas folhas são estreitas, alongadas, de coloração verde-acinzentada e recobertas por fina pilosidade, o que ajuda a reduzir a perda de água. Seu crescimento é rápido e adaptado a ambientes abertos, ensolarados e com boa ventilação”, descreve Thulio.
Como cuidar da macela
O cultivo da macela é considerado fácil, pois trata-se de uma planta espontânea que se adapta bem a solos pobres e locais ensolarados, preferindo o clima seco para a floração
Evaldo Resende/Wikimedia Commons
Uma das principais vantagens da espécie é a sua rusticidade. “A macela exige poucos cuidados e adapta-se tanto ao cultivo doméstico quanto ornamental em jardins. É uma planta de baixa manutenção, ideal para quem busca espécies medicinais resistentes”, garante Thulio.
Confira as condições ideais de cultivo:
Solo: leve, bem drenado, preferencialmente arenoso ou franco-arenoso, sem excesso de matéria orgânica;
Luz: sol pleno e necessita de, no mínimo, 6 horas de luz solar direta por dia para se desenvolver bem;
Temperatura: adapta-se melhor em temperaturas amenas a quentes, típicas de clima subtropical;
Adubação: simples, com composto orgânico leve no preparo do solo, sem exageros;
Rega: moderada, pois o excesso de umidade favorece doenças radiculares;
Poda: regular para manter o vigor da planta.
Vaso ideal para a macela
Por ser uma planta rústica, com raízes pouco profundas, a macela se adapta muito bem a vasos, desde que algumas condições básicas sejam respeitadas.
“Recomendam-se recipientes com no mínimo 20 a 25 centímetros de profundidade, preferencialmente de barro ou cerâmica, que favorecem a drenagem e evitam superaquecimento das raízes. Vasos plásticos também podem ser usados, desde que tenham furos adequados no fundo”, indica o engenheiro-agrônomo.
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Floração e frutos para uma colheita perfeita
As flores são a parte mais valorizada da espécie, e seu aroma característico a torna uma das plantas mais reconhecidas pelo público. “A floração ocorre normalmente entre o final do verão e o início do outono, especialmente entre março e abril. Elas são pequenas, agrupadas em inflorescências amarelo-douradas e muito aromáticas”, ele detalha.
A macela apresenta flores minúsculas e amareladas, densamente reunidas em capítulos globosos que, com sua aparência aveludada, proporcionam uma textura macia e sedosa
Flickr/João Medeiros/Creative Commons
Para garantir a qualidade, o manejo exige atenção ao relógio. “A colheita deve ser feita preferencialmente no início da manhã, quando os compostos aromáticos estão mais concentrados. Após a coleta, as flores precisam ser secas à sombra, em ambiente ventilado, para manter suas propriedades medicinais”, ressalta Thulio.
Encerrando o ciclo, surgem os frutos do tipo aquênio, que são secos e minúsculos. “Esses frutos contêm sementes leves com estruturas adaptadas à dispersão pelo vento, o que explica sua facilidade de propagação natural. A frutificação ocorre logo após o pico floral, ainda no outono, fechando o ciclo reprodutivo anual da espécie”.
Como fazer mudas de macela e controlar o comportamento invasor
A propagação é feita principalmente por sementes. “Elas germinam com facilidade quando semeadas superficialmente, sem necessidade de enterrio (técnica agrícola) profundo. Como a planta produz abundância de sementes leves, dispersas facilmente pelo vento, ela pode se espalhar espontaneamente”, justifica Thulio.
Embora seja uma planta nativa, a macela é vista por agricultores como invasora ou erva-daninha devido à sua facilidade em infestar pastagens e terrenos baldios
Andrés González/Wikimedia Commons
Embora essa característica facilite o cultivo inicial, é preciso adotar algumas estratégias de contenção para garantir que a espécie não ultrapasse os limites desejados. “Para evitar que se torne invasiva em canteiros ou hortas, o ideal é colher as flores antes da completa maturação dos frutos e monitorar mudas espontâneas”, ele orienta.
O poder medicinal da macela
Reconhecida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a macela integra o Formulário de Fitoterápicos, o que classifica suas preparações como fórmulas oficiais no Brasil. O potencial terapêutico da planta reside em suas inflorescências, que apresentam uma composição química rica e complexa.
A parte da macela predominantemente utilizada para fins medicinais são as inflorescências, especialmente quando secas, incluindo ocasionalmente os talos que sustentam as flores
Marcos César Campis/Wikimedia Commons
De acordo com Silvia Cristina Heredia Vieira, farmacêutica e doutora em Ciências Farmacêuticas, as propriedades da planta derivam de substâncias específicas. “Os compostos bioativos da macela são os flavonoides, principalmente a quercetina e 3-O-metilquercetina”, ela revela.
Sobre o impacto direto desses componentes no organismo, a especialista destaca o alívio de desconfortos digestivos. “Quanto aos benefícios, ela é indicada principalmente para problemas gastrointestinais, como má digestão e gases intestinais”.
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Formas de consumir a macela
Tomar o chá de macela antes de dormir pode contribuir com um sono de melhor qualidade
Freepik/Creative Commons
Abaixo, a farmacêutica apresenta as duas principais formas de aproveitar os benefícios da planta:
Chá (infusão)
Proporção: 1 g a 1,5 g de inflorescências para 150 ml de água previamente fervida.
Preparo: despeje a água fervida em uma xícara, adicione a planta, tampe com um pires e deixe descansar por 10 minutos antes de consumir.
Como consumir: recomenda-se ingerir 150 ml do chá de 2 a 3 vezes ao dia.
Tintura e extrato
Proporção: 10 g de inflorescências para 100 ml de álcool 70% (preferencialmente álcool de cereais).
Preparo: mantenha a planta em contato com o álcool por cerca de 10 dias em um frasco escuro (âmbar). Depois, filtre e armazene em um frasco conta-gotas.
Como consumir: de 3 a 9 ml diluídos em 50 ml de água, 3 vezes ao dia.
“É muito importante consultar um profissional da saúde antes de fazer uso de qualquer planta medicinal ou fitoterápico. Siga exatamente o prescrito, tanto em relação à quantidade quanto ao tempo de uso. Não é porque é natural que não faz mal”, recomenda Silvia.
Contraindicações de consumo e interações medicamentosas
Antes de iniciar o uso, é preciso atenção ao perfil de segurança da planta. “A macela não deve ser consumida por pessoas que tenham hipersensibilidade aos componentes presentes no chá ou na tintura. A tintura, por conter álcool, não deve ser consumida por alcoolistas ou ex-alcoolistas. Também não é recomendado o uso por gestantes e lactantes”, alerta a farmacêutica.
Além dessas restrições, o cuidado se estende à combinação com tratamentos já em curso. “O Formulário de Fitoterápicos traz a informação de se ter cautela no uso por diabéticos. Ela pode potencializar o efeito da insulina, de barbitúricos e de alguns outros sedativos. Nestes casos, siga a orientação do profissional da saúde”, ela reforça.
Dicas para um consumo seguro
A segurança no uso começa pela procedência da planta. “Minha dica é adquirir a matéria-prima em farmácias de manipulação ou farmácias vivas certificadas, ou utilizar fitoterápicos industrializados”, aconselha Silvia.
Já no armazenamento, a atenção precisa ser redobrada para preservar as suas propriedades. “É importante que a embalagem seja mantida bem fechada, em local sem muita incidência de luz e que tenha circulação de ar. Evite locais úmidos”, finaliza a farmacêutica.

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