O Cerrado armazena até seis vezes mais carbono do que a Amazônia, diz estudo

O Cerrado guarda carbono milenar e pode armazenar até seis vezes mais do que a Floresta Amazônica. É o que indica um estudo realizado por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e publicado pela revista New Phytologist. A descoberta joga luz sobre a importância da preservação desse bioma, que pode passar a emitir carbono se degradado.
A motivação da pesquisa veio justamente do interesse em reforçar a urgência de conservação do bioma:
“Já havia indícios de que áreas úmidas do Cerrado acumulam grandes quantidades de carbono. No entanto, ainda não sabíamos a magnitude desse acúmulo nem sua importância em escala nacional”, conta Larissa Verona, primeira autora do artigo.
Na Chapada dos Veadeiros, pesquisadores coletaram amostras de solo que ajudam a explicar o acúmulo de carbono no Cerrado
Aline Fortuna/Wikimedia Commons
Para entender de que forma esse carbono estava presente, os pesquisadores coletaram amostras de solo na região da Chapada dos Veadeiros, em profundidades de até quatro metros em veredas e campos úmidos – formações presentes no Cerrado que contam com grande presença de água.
Em laboratório, foram calculadas a porcentagem e a idade do carbono presente nas amostras. “Também medimos quanto desse carbono é liberado ao longo do ano. Ao se decompor no solo, ele é convertido em dióxido de carbono (CO₂) e metano (CH₄), dois importantes gases de efeito estufa. Por isso, monitoramos esses fluxos nas estações úmida e seca”, explica Larissa.
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Para mapear a distribuição das áreas úmidas pelo Brasil, os pesquisadores utilizaram dados de satélite e machine learning.
O resultado surpreende: o carbono está distribuído por uma área de 160 mil km² de Cerrado, com uma concentração de 1,2 mil toneladas por hectare. “Isso equivale a aproximadamente seis vezes o carbono armazenado na vegetação da floresta amazônica na mesma área”, reforça Larissa.
Este carbono pode atingir idades de até 20 mil anos. “É um processo muito lento em que o Cerrado tem mantido condições favoráveis ao longo de dezenas de milhares de anos”, esclarece a pesquisadora.
No Cerrado úmido, a falta de oxigênio faz com que folhas e raízes se decomponham lentamente, acumulando carbono no solo
Liu Idárraga Orozco/Wikimedia Commons
O armazenamento do carbono acontece por uma combinação de fatores das áreas de veredas e dos campos úmidos: muita água, solo exposto e pouco oxigênio. O cenário reduz a ação de microrganismos que fazem a decomposição da matéria orgânica, composta por carbono e demais elementos.
“Como resultado, folhas, raízes e madeira decompõem muito lentamente, acumulando-se no solo ao longo do tempo”, aponta Larissa. “Encontramos, por exemplo, um pedaço de madeira a cerca de 3 metros com uma idade estimada de 7,6 mil anos. Isso ilustra como a matéria orgânica pode permanecer preservada por milhares de anos”, complementa.
Apesar do volume, a presença do carbono é instável, já que pode se decompor rapidamente em momentos de seca.
Com a intensificação das secas, áreas do Cerrado podem deixar de armazenar carbono e passar a emitir gases de efeito estufa
Marcelo Camargo/Agência Brasil
“Esses sistemas são altamente sensíveis a alterações no regime hídrico. Drenagem, rebaixamento do lençol freático, expansão agrícola e irrigação podem expor esses solos ao oxigênio, acelerando a decomposição da matéria orgânica e liberando grandes quantidades de CO₂ e metano para a atmosfera”, aponta o orientador Rafael Oliveira.
Assim, o carbono armazenado é sensível às ações humanas e às mudanças climáticas, que alteram a sazonalidade das chuvas. “Uma vez degradados, esses sistemas podem passar de sumidouros de carbono a fontes de emissões, além de perder sua capacidade de regular a água”, explica Rafael.
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O principal caminho é fazer cumprir a legislação já existente. Embora protegidos pela lei brasileira como Áreas de Preservação Permanente (APPs), esses ambientes ainda carecem de reconhecimento e mapeamento adequados no território.
“O desafio não é criar novas regras, mas tornar visível o que hoje é invisível, reconhecer essas áreas como sistemas associados ao afloramento do lençol freático e incorporá-las de forma efetiva no planejamento ambiental, e territorial”, opina o orientador.

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