O avanço das mudanças climáticas impõe novos desafios às cidades, especialmente em contextos marcados pela escassez de áreas verdes e pela intensificação das ilhas de calor. Em São Paulo, onde a urbanização moldou uma paisagem predominantemente impermeável, iniciativas que reposicionam o paisagismo como infraestrutura ambiental ganham relevância crescente.
É nesse cenário que surge o trabalho da formigas-de-embaúba, uma organização não-governamental (ONG) e sem fins lucrativos, que atua na criação de miniflorestas em espaços públicos da capital e do interior do estado. O projeto articula propostas de restauração ecológica, educação ambiental e engajamento comunitário para enfrentar, de forma integrada, desafios climáticos e sociais.
A organização é formada por mais de 40 pessoas de origens diversas, conectadas com os territórios onde o grupo atua. Dentro da equipe, há coordenadores, educadores ambientais, agrônomos, lideranças comunitárias, gestores de projetos e de operações, além dos setores de comunicação e de gestão financeira.
O grupo foi criado em 2019 e hoje tem uma equipe com mais de 40 pessoas, incluindo profissionais de múltiplas áreas
formigas-de-embaúba/Divulgação
O grupo foi cofundado por Rafael Ribeiro, diretor de parcerias e plantios, graduado em direito e hoje doutorando em Ecologia Aplicada pela Universidade de São Paulo (USP); e por Sheila Ceccon, diretora pedagógica e engenheira-agrônoma.
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“A temperatura média da cidade subiu cerca de 3 °C entre 1919 e 2019, com o aumento na frequência de ondas de calor e de chuvas extremas”, afirma Rafael. Em um país como o Brasil, onde a maior parte da população vive em áreas urbanas, soluções baseadas na natureza deixam de ser complementares e passam a ocupar o centro das estratégias de adaptação.
O início do projeto
Em 2019, Rafael coordenou o primeiro plantio coletivo com uma escola pública e percebeu o potencial de escalar isso. “São Paulo tem quase cinco mil escolas públicas distribuídas por todos os bairros, inclusive nas periferias com maior déficit de áreas verdes. Plantar miniflorestas nativas nesses espaços não transforma apenas o pátio: resfria o entorno, traz biodiversidade de volta e abre um canal concreto de educação ambiental”, destaca o co-fundador.
Sheila, que desde a década de 1980 trabalha com formação de professores e educação ambiental, cruzou com o caminho de Rafael e, a partir daí, ambos se dedicaram à elaboração de um projeto que unisse a restauração com a educação e o cuidado comunitário.
Essa combinação, na visão dos fundadores da organização, ainda é escassa e vem acompanhada de uma lacuna importante no currículo escolar, que pouco aborda a emergência climática de modo a mobilizar os estudantes. Por outro lado, instituições como a Sociedade Brasileira de Pediatria, tem destacado a importância do contato com a natureza para as diferentes infâncias.
Além do plantio, o projeto tem uma frente importante de educação ambiental voltada para toda a comunidade do entorno onde são plantadas as miniflorestas
formigas-de-embaúba/Divulgação
O nome formigas-de-embaúba, escrito em letras minúsculas, faz parte da construção dessa identidade. As formigas-de-embaúba são as formigas do gênero Azteca que vivem em simbiose com a embaúba, uma árvore pioneira da Mata Atlântica. A árvore oferece abrigo e alimento às formigas, e as formigas protegem a árvore de pragas e trepadeiras.
“É uma relação de cooperação e interdependência que traduz bem o que fazemos: plantar florestas junto com as comunidades que vão cuidar delas”, diz Rafael.
O nome do projeto, formigas-de-embaúba, se inspira no próprio modo de atuar da organização e no envolvimento das comunidades onde as miniflorestas são instaladas
formigas-de-embaúba/Divulgação
A metodologia do projeto formigas-de-embaúba
No plantio de novas miniflorestas, a metodologia adotada se afasta das práticas convencionais, e não por acaso. “Ao contrário da arborização urbana convencional, as miniflorestas seguem princípios da sucessão ecológica: combinam espécies de diferentes grupos funcionais e estágios de crescimento em alta densidade, acelerando a formação de estrutura florestal em pequenas áreas”, ressalta Rafael.
A criação das miniflorestas parte da adaptação do Método Miyawaki ao contexto brasileiro. Trata-se de um reflorestamento com espécies nativas para a criação de ecossistemas de rápido crescimento e de alta biodiversidade. O nome é uma homenagem ao seu criador, o botânico japonês Akira Miyawaki (1928-2021). As florestas urbanas cultivadas assim tornam-se ecossistemas complexos, replicando os remanescentes de vegetação nativa próximos ao local de plantio.
O projeto se desenvolve em duas frentes principais: o plantio das miniflorestas e a atuação pedagógica com diferentes atores locais dos territórios
formigas-de-embaúba/Divulgação
Atrelado ao desenvolvimento das miniflorestas, a organização desenvolve um percurso pedagógico com as crianças dos territórios participantes. Cada grupo passa por um percurso de seis encontros ao ar livre: Leitura de Mundo (diagnóstico do território), A Floresta e o Clima, Descobrir o Solo, Despertar o Olhar para as Sementes, Plantio da Minifloresta e Cuidados com a Minifloresta.
As vivências acontecem fora da sala de aula, e a metodologia também varia em função dos contextos onde estão as miniflorestas. Enquanto nas unidades básicas de saúde (UBS), destaca-se a importância do contato com as árvores e o solo para a saúde física e emocional; nas escolas, as miniflorestas funcionam como espaços de aprendizagem. O percurso também é adaptado a cada faixa etária, da educação infantil ao ensino fundamental, sempre prezando pelo contato constante das crianças com a terra.
A proposta do percurso pedagógico feito pelas formigas-de-embaúba é que as crianças tenham contato constante com a natureza e com a terra
formigas-de-embaúba/Divulgação
O programa pedagógico é liderado por Sheila, junto às coordenadoras pedagógicas Juliana Mangaba e Evellyn Nascimento. “São mulheres negras, vindas das periferias, que estão em papéis de decisão e definem junto com a Sheila o desenho do trabalho pedagógico. Essa composição importa: a perspectiva é de uma educação ambiental crítica, emancipadora e antirracista, em que o objetivo é desenvolver a autonomia dos estudantes para que possam agir como agentes transformadores nas suas comunidades diante da crise climática”, ressalta o co-fundador.
Do plantio à consolidação de novas miniflorestas
O projeto atua com dois módulos de miniflorestas em parelelo. Um primeiro voltado para a introdução de plantas da Mata Atlântica nativa e outra focada no desenvolvimento de miniflorestas de comida, com espécies frutíferas diversas. “Essa diversidade funcional reproduz a complexidade dos ecossistemas originais e cria corredores de biodiversidade que conectam fragmentos de vegetação na cidade”, ressalta Rafael.
Antes de qualquer intervenção, há um processo de escuta e construção coletiva, garantindo que a minifloresta surja de um desejo compartilhado da comunidade dos arredores.
A primeira fase do plantio das miniflorestas da formigas-de-embaúba é escutar ativamente a comunidade e entender as demandas do território, para depois preparar a terra e selecionar as espécies de plantas a serem cultivadas
formigas-de-embaúba/Divulgação
Depois, vem a segunda etapa: a escolha do local. Áreas com pelo menos 150 m², planas ou quase planas, ensolaradas, não-pavimentadas e com poucas ou nenhuma árvore adulta são priorizadas. O processo segue para a preparação da área selecionada, com a descompactação e o enriquecmento do solo. Em seguida, vem a seleção das espécies e o plantio de fato.
A organização trabalha com 136 espécies de árvores nativas, divididas conforme a função que cumprem no ecossistema. A seleção de cada minifloresta pode incluir cerca de 100 espécies de árvores nativas, combinando diferentes funções ecológicas. Também são semeadas, em menor número, plantas de adubação verde, isto é, que melhoram a qualidade e a composição dos solos.
O projeto formigas-de-embaúba trabalha com mais de 100 espécies nativasm selecionadas conforme as funções complementares que cada uma delas pode exercer no ecossistema construído ali
formigas-de-embaúba/Divulgação
Há espécies pioneiras de crescimento rápido, como o capixingui, a embaúba e o sangra-d’água, e não-pioneiras, como o jatobá, a peroba-rosa e o pau-brasil, que compõem o dossel a longo prazo. Enquanto as adubadeiras fixam nitrogênio no solo, as espécies de sombreamento aceleram a cobertura do terreno. Espécies que alimentam aves e polinizadores também são inseridas para atrair a fauna ao local.
As espécies escolhidas oferecem possibilidades diferentes para as miniflorestas
formigas-de-embaúba/Divulgação
O plantio é adensado, com cerca de duas mudas por metro quadrado, buscando replicar a densidade do bioma nativo de referência e criando camadas que se complementam no tempo e no espaço. Entre as árvores, são semeadas as plantas de adubação verde. Depois, é feita a cobertura com palha, criando condições para o retorno da microvida e a infiltração de água.
Após o plantio, a equipe de campo da formigas-de-embaúba acompanha cada minifloresta por pelo menos dois a três anos, realizando a poda das plantas de adubação verde, mantendo a cobertura de solo e o controle manual de gramíneas até que ela se torne autossustentável.
O plantio é feito de modo adensado para aproveitar as potencialidades e o cooperativismo entre as espécies ali plantadas
formigas-de-embaúba/Divulgação
Os primeiros plantios foram realizados em CEUs (Centros Educacionais Unificados) na periferia da cidade de São Paulo, espaços públicos de educação, cultura e lazer abertos à comunidade. A experiência foi cheia de aprendizados.
“Vimos crianças que nunca tinham colocado as mãos na terra participando com entusiasmo do plantio. Mas também aprendemos que o dia do plantio é apenas o começo: uma minifloresta é um processo vivo de longo prazo. Uma floresta só se mantém viva quando as pessoas que a cercam se tornam parte dela. Isso moldou toda a nossa abordagem posterior”, ressalta Rafael.
Os primeiros plantios do projeto formigas-de-embaúba foram realizados em CEUs tendo em vista à abertura e a participação da comunidade nesses espaços
formigas-de-embaúba/Divulgação
O vínculo da comunidade com as miniflorestas, essencial para a manutenção das mesmas, também envolve desafios. Mudanças de gestão do espaço, alterações de prioridades ou cortes acidentais já fizeram parte da história das áreas verdes plantadas pelo projeto. Nesses momentos, é ativado o que a organização chama de protocolo de floresta destruída. “Reabrimos o diálogo, reconstruímos a confiança e restauramos o espaço juntos. São momentos difíceis, mas potentes”, pontua Rafael.
Por se tratar de uma organização sem fins lucrativos, os recursos também são um desafio. “Assegurar recursos estáveis de longo prazo e aprofundar parcerias duradouras com o poder público exige negociação e cuidado permanentes, o que demanda tempo, presença e respeito às singularidades de cada território, nem sempre compatíveis com a lógica de financiamento”, destaca Rafael.
As miniflorestas criam ecossistemas nos territórios, que demandam cuidados da comunidade e acompanhamento da equipe da organização da formigas-de-embaúba
formigas-de-embaúba/Divulgação
A luta possível pela justiça climática nas cidades
Com o passar dos anos, o projeto escalou de um piloto para uma organização estruturada. Hoje, são 52 miniflorestas plantadas, com cerca de 30 mil árvores de 136 espécies nativas, em escolas, UBSs, conjuntos habitacionais, parques e outros equipamentos públicos de São Paulo e do interior paulista. Cerca de 13 mil pessoas estão envolvidas em atividades pedagógicas, e estima-se que cerca de 60 mil pessoas se beneficiam cotidianamente das miniflorestas.
A formigas-de-embaúba tem como um dos motes centrais a luta pela justiça ambiental e o combate à desigualdade climática vivenciada nas cidades
formigas-de-embaúba/Divulgação
Outro avanço foi do ponto de vista tecnológico. A organização passou a utilizar leitura automatizada de imagens de satélite para mapear áreas aptas ao plantio em escolas e outros espaços urbanos. Atualmente, a formigas-de-embaúba integra a rede global de miniflorestas da SUGi, organização sem fins lucrativos suíça, e é parceira oficial da Década da ONU para Restauração de Ecossistemas.
Pensando na floresta que vai enfrentar o clima dos próximos 50 anos, não apenas o de hoje, o projeto também tem investido na incorporação de novas espécies adaptadas a essas diferentes condições. Isso porque São Paulo, predominantemente sob domínio da Mata Atlântica, também tem uma vegetação nativa do Cerrado e de outras formações em áreas de transição. “Com o aumento da temperatura, da insolação e da sazonalidade hídrica no ambiente urbano, as condições em muitas áreas da cidade já se aproximam das de formações savânicas”, explica Rafael.
O projeto formigas-de-embaúba está em fase de expansão e tem investido na incorporação de novas espécies adaptadas às diferentes condições ambientais perante as mudanças climáticas
formigas-de-embaúba/Divulgação
A motivação central da organização segue sendo a justiça climática. Segundo pesquisa recente realizada na Universidade de São Paulo, na capital paulista, a diferença de temperatura entre áreas arborizadas e regiões densamente construídas pode ultrapassar 8°C. Nesse cenário, as periferias concentram os impactos mais severos do calor, da escassez de áreas verdes e das enchentes, e são também os territórios onde vivem as populações de baixa renda.
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Em fase de expansão, as apostas da organização são em tecnologia, articulação com o poder público e engajamento comunitário para escalar o plantio de miniflorestas em cidades brasileiras, com potencial de centenas de milhares de novas árvores apenas em São Paulo.
“Restaurar a Mata Atlântica, hoje reduzida a cerca de 12% de sua cobertura original, dentro do contexto urbano, sobretudo nas periferias, é urgente, e cada minifloresta é um lembrete de que a adaptação climática começa com um gesto coletivo: plantar o futuro com as próprias mãos”, reflete o co-fundador.
É nesse cenário que surge o trabalho da formigas-de-embaúba, uma organização não-governamental (ONG) e sem fins lucrativos, que atua na criação de miniflorestas em espaços públicos da capital e do interior do estado. O projeto articula propostas de restauração ecológica, educação ambiental e engajamento comunitário para enfrentar, de forma integrada, desafios climáticos e sociais.
A organização é formada por mais de 40 pessoas de origens diversas, conectadas com os territórios onde o grupo atua. Dentro da equipe, há coordenadores, educadores ambientais, agrônomos, lideranças comunitárias, gestores de projetos e de operações, além dos setores de comunicação e de gestão financeira.
O grupo foi criado em 2019 e hoje tem uma equipe com mais de 40 pessoas, incluindo profissionais de múltiplas áreas
formigas-de-embaúba/Divulgação
O grupo foi cofundado por Rafael Ribeiro, diretor de parcerias e plantios, graduado em direito e hoje doutorando em Ecologia Aplicada pela Universidade de São Paulo (USP); e por Sheila Ceccon, diretora pedagógica e engenheira-agrônoma.
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“A temperatura média da cidade subiu cerca de 3 °C entre 1919 e 2019, com o aumento na frequência de ondas de calor e de chuvas extremas”, afirma Rafael. Em um país como o Brasil, onde a maior parte da população vive em áreas urbanas, soluções baseadas na natureza deixam de ser complementares e passam a ocupar o centro das estratégias de adaptação.
O início do projeto
Em 2019, Rafael coordenou o primeiro plantio coletivo com uma escola pública e percebeu o potencial de escalar isso. “São Paulo tem quase cinco mil escolas públicas distribuídas por todos os bairros, inclusive nas periferias com maior déficit de áreas verdes. Plantar miniflorestas nativas nesses espaços não transforma apenas o pátio: resfria o entorno, traz biodiversidade de volta e abre um canal concreto de educação ambiental”, destaca o co-fundador.
Sheila, que desde a década de 1980 trabalha com formação de professores e educação ambiental, cruzou com o caminho de Rafael e, a partir daí, ambos se dedicaram à elaboração de um projeto que unisse a restauração com a educação e o cuidado comunitário.
Essa combinação, na visão dos fundadores da organização, ainda é escassa e vem acompanhada de uma lacuna importante no currículo escolar, que pouco aborda a emergência climática de modo a mobilizar os estudantes. Por outro lado, instituições como a Sociedade Brasileira de Pediatria, tem destacado a importância do contato com a natureza para as diferentes infâncias.
Além do plantio, o projeto tem uma frente importante de educação ambiental voltada para toda a comunidade do entorno onde são plantadas as miniflorestas
formigas-de-embaúba/Divulgação
O nome formigas-de-embaúba, escrito em letras minúsculas, faz parte da construção dessa identidade. As formigas-de-embaúba são as formigas do gênero Azteca que vivem em simbiose com a embaúba, uma árvore pioneira da Mata Atlântica. A árvore oferece abrigo e alimento às formigas, e as formigas protegem a árvore de pragas e trepadeiras.
“É uma relação de cooperação e interdependência que traduz bem o que fazemos: plantar florestas junto com as comunidades que vão cuidar delas”, diz Rafael.
O nome do projeto, formigas-de-embaúba, se inspira no próprio modo de atuar da organização e no envolvimento das comunidades onde as miniflorestas são instaladas
formigas-de-embaúba/Divulgação
A metodologia do projeto formigas-de-embaúba
No plantio de novas miniflorestas, a metodologia adotada se afasta das práticas convencionais, e não por acaso. “Ao contrário da arborização urbana convencional, as miniflorestas seguem princípios da sucessão ecológica: combinam espécies de diferentes grupos funcionais e estágios de crescimento em alta densidade, acelerando a formação de estrutura florestal em pequenas áreas”, ressalta Rafael.
A criação das miniflorestas parte da adaptação do Método Miyawaki ao contexto brasileiro. Trata-se de um reflorestamento com espécies nativas para a criação de ecossistemas de rápido crescimento e de alta biodiversidade. O nome é uma homenagem ao seu criador, o botânico japonês Akira Miyawaki (1928-2021). As florestas urbanas cultivadas assim tornam-se ecossistemas complexos, replicando os remanescentes de vegetação nativa próximos ao local de plantio.
O projeto se desenvolve em duas frentes principais: o plantio das miniflorestas e a atuação pedagógica com diferentes atores locais dos territórios
formigas-de-embaúba/Divulgação
Atrelado ao desenvolvimento das miniflorestas, a organização desenvolve um percurso pedagógico com as crianças dos territórios participantes. Cada grupo passa por um percurso de seis encontros ao ar livre: Leitura de Mundo (diagnóstico do território), A Floresta e o Clima, Descobrir o Solo, Despertar o Olhar para as Sementes, Plantio da Minifloresta e Cuidados com a Minifloresta.
As vivências acontecem fora da sala de aula, e a metodologia também varia em função dos contextos onde estão as miniflorestas. Enquanto nas unidades básicas de saúde (UBS), destaca-se a importância do contato com as árvores e o solo para a saúde física e emocional; nas escolas, as miniflorestas funcionam como espaços de aprendizagem. O percurso também é adaptado a cada faixa etária, da educação infantil ao ensino fundamental, sempre prezando pelo contato constante das crianças com a terra.
A proposta do percurso pedagógico feito pelas formigas-de-embaúba é que as crianças tenham contato constante com a natureza e com a terra
formigas-de-embaúba/Divulgação
O programa pedagógico é liderado por Sheila, junto às coordenadoras pedagógicas Juliana Mangaba e Evellyn Nascimento. “São mulheres negras, vindas das periferias, que estão em papéis de decisão e definem junto com a Sheila o desenho do trabalho pedagógico. Essa composição importa: a perspectiva é de uma educação ambiental crítica, emancipadora e antirracista, em que o objetivo é desenvolver a autonomia dos estudantes para que possam agir como agentes transformadores nas suas comunidades diante da crise climática”, ressalta o co-fundador.
Do plantio à consolidação de novas miniflorestas
O projeto atua com dois módulos de miniflorestas em parelelo. Um primeiro voltado para a introdução de plantas da Mata Atlântica nativa e outra focada no desenvolvimento de miniflorestas de comida, com espécies frutíferas diversas. “Essa diversidade funcional reproduz a complexidade dos ecossistemas originais e cria corredores de biodiversidade que conectam fragmentos de vegetação na cidade”, ressalta Rafael.
Antes de qualquer intervenção, há um processo de escuta e construção coletiva, garantindo que a minifloresta surja de um desejo compartilhado da comunidade dos arredores.
A primeira fase do plantio das miniflorestas da formigas-de-embaúba é escutar ativamente a comunidade e entender as demandas do território, para depois preparar a terra e selecionar as espécies de plantas a serem cultivadas
formigas-de-embaúba/Divulgação
Depois, vem a segunda etapa: a escolha do local. Áreas com pelo menos 150 m², planas ou quase planas, ensolaradas, não-pavimentadas e com poucas ou nenhuma árvore adulta são priorizadas. O processo segue para a preparação da área selecionada, com a descompactação e o enriquecmento do solo. Em seguida, vem a seleção das espécies e o plantio de fato.
A organização trabalha com 136 espécies de árvores nativas, divididas conforme a função que cumprem no ecossistema. A seleção de cada minifloresta pode incluir cerca de 100 espécies de árvores nativas, combinando diferentes funções ecológicas. Também são semeadas, em menor número, plantas de adubação verde, isto é, que melhoram a qualidade e a composição dos solos.
O projeto formigas-de-embaúba trabalha com mais de 100 espécies nativasm selecionadas conforme as funções complementares que cada uma delas pode exercer no ecossistema construído ali
formigas-de-embaúba/Divulgação
Há espécies pioneiras de crescimento rápido, como o capixingui, a embaúba e o sangra-d’água, e não-pioneiras, como o jatobá, a peroba-rosa e o pau-brasil, que compõem o dossel a longo prazo. Enquanto as adubadeiras fixam nitrogênio no solo, as espécies de sombreamento aceleram a cobertura do terreno. Espécies que alimentam aves e polinizadores também são inseridas para atrair a fauna ao local.
As espécies escolhidas oferecem possibilidades diferentes para as miniflorestas
formigas-de-embaúba/Divulgação
O plantio é adensado, com cerca de duas mudas por metro quadrado, buscando replicar a densidade do bioma nativo de referência e criando camadas que se complementam no tempo e no espaço. Entre as árvores, são semeadas as plantas de adubação verde. Depois, é feita a cobertura com palha, criando condições para o retorno da microvida e a infiltração de água.
Após o plantio, a equipe de campo da formigas-de-embaúba acompanha cada minifloresta por pelo menos dois a três anos, realizando a poda das plantas de adubação verde, mantendo a cobertura de solo e o controle manual de gramíneas até que ela se torne autossustentável.
O plantio é feito de modo adensado para aproveitar as potencialidades e o cooperativismo entre as espécies ali plantadas
formigas-de-embaúba/Divulgação
Os primeiros plantios foram realizados em CEUs (Centros Educacionais Unificados) na periferia da cidade de São Paulo, espaços públicos de educação, cultura e lazer abertos à comunidade. A experiência foi cheia de aprendizados.
“Vimos crianças que nunca tinham colocado as mãos na terra participando com entusiasmo do plantio. Mas também aprendemos que o dia do plantio é apenas o começo: uma minifloresta é um processo vivo de longo prazo. Uma floresta só se mantém viva quando as pessoas que a cercam se tornam parte dela. Isso moldou toda a nossa abordagem posterior”, ressalta Rafael.
Os primeiros plantios do projeto formigas-de-embaúba foram realizados em CEUs tendo em vista à abertura e a participação da comunidade nesses espaços
formigas-de-embaúba/Divulgação
O vínculo da comunidade com as miniflorestas, essencial para a manutenção das mesmas, também envolve desafios. Mudanças de gestão do espaço, alterações de prioridades ou cortes acidentais já fizeram parte da história das áreas verdes plantadas pelo projeto. Nesses momentos, é ativado o que a organização chama de protocolo de floresta destruída. “Reabrimos o diálogo, reconstruímos a confiança e restauramos o espaço juntos. São momentos difíceis, mas potentes”, pontua Rafael.
Por se tratar de uma organização sem fins lucrativos, os recursos também são um desafio. “Assegurar recursos estáveis de longo prazo e aprofundar parcerias duradouras com o poder público exige negociação e cuidado permanentes, o que demanda tempo, presença e respeito às singularidades de cada território, nem sempre compatíveis com a lógica de financiamento”, destaca Rafael.
As miniflorestas criam ecossistemas nos territórios, que demandam cuidados da comunidade e acompanhamento da equipe da organização da formigas-de-embaúba
formigas-de-embaúba/Divulgação
A luta possível pela justiça climática nas cidades
Com o passar dos anos, o projeto escalou de um piloto para uma organização estruturada. Hoje, são 52 miniflorestas plantadas, com cerca de 30 mil árvores de 136 espécies nativas, em escolas, UBSs, conjuntos habitacionais, parques e outros equipamentos públicos de São Paulo e do interior paulista. Cerca de 13 mil pessoas estão envolvidas em atividades pedagógicas, e estima-se que cerca de 60 mil pessoas se beneficiam cotidianamente das miniflorestas.
A formigas-de-embaúba tem como um dos motes centrais a luta pela justiça ambiental e o combate à desigualdade climática vivenciada nas cidades
formigas-de-embaúba/Divulgação
Outro avanço foi do ponto de vista tecnológico. A organização passou a utilizar leitura automatizada de imagens de satélite para mapear áreas aptas ao plantio em escolas e outros espaços urbanos. Atualmente, a formigas-de-embaúba integra a rede global de miniflorestas da SUGi, organização sem fins lucrativos suíça, e é parceira oficial da Década da ONU para Restauração de Ecossistemas.
Pensando na floresta que vai enfrentar o clima dos próximos 50 anos, não apenas o de hoje, o projeto também tem investido na incorporação de novas espécies adaptadas a essas diferentes condições. Isso porque São Paulo, predominantemente sob domínio da Mata Atlântica, também tem uma vegetação nativa do Cerrado e de outras formações em áreas de transição. “Com o aumento da temperatura, da insolação e da sazonalidade hídrica no ambiente urbano, as condições em muitas áreas da cidade já se aproximam das de formações savânicas”, explica Rafael.
O projeto formigas-de-embaúba está em fase de expansão e tem investido na incorporação de novas espécies adaptadas às diferentes condições ambientais perante as mudanças climáticas
formigas-de-embaúba/Divulgação
A motivação central da organização segue sendo a justiça climática. Segundo pesquisa recente realizada na Universidade de São Paulo, na capital paulista, a diferença de temperatura entre áreas arborizadas e regiões densamente construídas pode ultrapassar 8°C. Nesse cenário, as periferias concentram os impactos mais severos do calor, da escassez de áreas verdes e das enchentes, e são também os territórios onde vivem as populações de baixa renda.
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Em fase de expansão, as apostas da organização são em tecnologia, articulação com o poder público e engajamento comunitário para escalar o plantio de miniflorestas em cidades brasileiras, com potencial de centenas de milhares de novas árvores apenas em São Paulo.
“Restaurar a Mata Atlântica, hoje reduzida a cerca de 12% de sua cobertura original, dentro do contexto urbano, sobretudo nas periferias, é urgente, e cada minifloresta é um lembrete de que a adaptação climática começa com um gesto coletivo: plantar o futuro com as próprias mãos”, reflete o co-fundador.



