Vale do Anhangabaú: projeto, transformação e memória urbana em São Paulo

Caminhar pelo Vale do Anhangabaú, para mim, é também observar um dos casos mais emblemáticos da história urbana paulistana. Localizado entre o Viaduto do Chá e a região da Praça da Bandeira, ao longo do século 20, o vale foi objeto de sucessivas intervenções que refletem diferentes visões sobre mobilidade, espaço público e paisagem.
Como arquiteto, eu leio esse espaço como um campo de decisões acumuladas, onde cada projeto revela não apenas uma solução técnica, mas uma determinada ideia de cidade.
A configuração que marcou o Anhangabaú por décadas foi resultado de um concurso público realizado em 1981, vencido pela equipe liderada por Jorge Wilheim, com projeto arquitetônico de Rosa Grena Kliass e colaboração de Jamil Kfouri.
O Vale do Anhangabaú é considerado um dos principais espaços públicos da cidade de São Paulo pelo seu caráter multifuncional e pela localização privilegiada
Picryl/Werner Haberkorn/Creative Commons
Inaugurado em 1991, o projeto partia de uma premissa que eu considero particularmente consistente: reorganizar o sistema viário sem abrir mão da qualificação do espaço público. A solução de rebaixar as pistas e liberar uma grande esplanada para pedestres, articulada por áreas verdes, espelhos d’água e percursos amplos, demonstrava uma leitura cuidadosa da topografia e da centralidade do lugar.
Do meu ponto de vista, tratava-se de uma operação urbanística sofisticada. Reconheço ali um esforço claro de conciliar infraestrutura pesada com desenho paisagístico, algo que nem sempre é alcançado com sucesso em cidades como São Paulo. Ao longo dos anos 1990 e 2000, acompanhei a consolidação do vale como espaço de uso coletivo intenso, palco de manifestações, eventos e encontros, reforçando sua dimensão simbólica.
A partir de 2013, passei a observar com mais atenção o início de um novo ciclo de discussões sobre o Anhangabaú. Em 2017, a prefeitura lançou o edital de concessão e requalificação que resultaria na contratação do projeto que foi executado. As obras começaram em 2019 e foram concluídas em 2021, com a proposta de ampliar a flexibilidade de uso do espaço e atualizar sua infraestrutura.
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Ao analisar a intervenção recente, identifico mudanças significativas. A substituição de áreas ajardinadas por superfícies mais extensas de pavimentação, a redução dos espelhos d’água e a introdução de novos equipamentos alteraram de maneira relevante a configuração anterior. Houve avanços técnicos importantes, especialmente em drenagem, acessibilidade e infraestrutura para grandes eventos. No entanto, também observo que essas transformações implicaram uma reinterpretação profunda do projeto original.
É justamente nesse ponto que ganha mais relevância. Ao conversar com colegas, clientes e usuários da cidade, percebo leituras distintas sobre o novo Anhangabaú. Alguns valorizam a versatilidade do espaço e sua adaptação a usos contemporâneos. Outros, entre os quais me incluo, questionam a perda de elementos que contribuíam para a qualidade ambiental e para a identidade do lugar, especialmente no que diz respeito à arborização e ao desenho paisagístico concebido por Kliass.
Ao redor do Vale do Anhangabau, é possível avistar prédios emblemáticos como o Edifício Matarazzo, o Edifício Martinelli, o Farol Santander (Banespa), o Theatro Municipal e o antigo prédio dos Correios
Dornicke/Creative Commons
Essa situação me leva a uma reflexão mais ampla sobre como lidamos com a paisagem urbana em São Paulo. Tenho a impressão de que ainda operamos com instrumentos insuficientes para proteger espaços que não são apenas objetos arquitetônicos isolados, mas composições complexas de infraestrutura, topografia e uso social. Órgãos como o CONDEPHAAT e o CONPRESP desempenham um papel fundamental, mas nem sempre conseguem abarcar esse tipo de situação, em que a transformação ocorre sob a justificativa de requalificação.
No caso do Anhangabaú, o que observo é a substituição de uma solução consolidada por outra que responde a demandas contemporâneas, mas que nem sempre dialoga de forma equilibrada com as camadas anteriores. Para mim, esse é um ponto crítico. Não se trata de defender a permanência integral do que foi feito nos anos 1980, mas de reconhecer que projetos como o de Wilheim e Kliass estabelecem referências que poderiam ser incorporadas de maneira mais consistente nas intervenções atuais.
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Hoje, ao percorrer o Vale do Anhangabaú, continuo vendo um espaço central, ativo e relevante. Ao mesmo tempo, não deixo de perceber que sua transformação recente segue em disputa no campo das ideias e das avaliações críticas. Mais do que uma questão formal, entendo esse debate como um indicativo das dificuldades que ainda temos em equilibrar renovação, uso intensivo e preservação da memória urbana.
A partir dessa experiência, reforço uma convicção pessoal: intervir na cidade exige mais do que responder a demandas imediatas, exige construir continuidade. E, no caso de São Paulo, talvez esse seja um dos nossos maiores desafios.

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