Conhecido pelo baixo teor calórico, o konjac é um tubérculo rico em glucomanano, uma fibra solúvel viscosa que chega ao consumidor em forma de farinha, arroz ou macarrão.
Popular na Ásia e cada vez mais presente no Brasil — impulsionado por influenciadores fitness —, o alimento chama atenção pelo valor calórico: apenas 10 kcal a cada 100 gramas.
O que pouca gente sabe é que ele vem de uma planta de floração incomum e desenvolvimento lento: a Amorphophallus konjac, conhecida como língua-do-diabo.
Por trás do ingrediente de poucas calorias, uma planta incomum: a ‘Amorphophallus konjac’
C T Johansson/Wikimedia Commons
Conheça a língua-do-diabo
Nativa do sudeste asiático, a língua-do-diabo é parente da Amorphophallus titanum, popularmente conhecida como flor-cadáver.
Leia também
“O cheiro da flor-cadáver se assemelha ao de carne podre e sua floração pode levar mais de uma década para acontecer e durar apenas três dias”, diz o engenheiro-agrônomo Eduardo Funari. O seu tamanho também é característico, podendo chegar até 3 metros e sendo uma grande atração quando floresce.
A ‘Amorphophallus konjac’, planta de origem asiática que dá origem ao konjac, é cultivada pelo tubérculo e tem desenvolvimento lento
Hinnerk11/Wikimedia Commons
Do mesmo gênero, a língua-do-diabo apresenta características mais discretas — com menor porte e odor menos intenso. “Em ambas as espécies, o cheiro se espalha e atrai insetos que procuram matéria em decomposição, como as moscas e besouros. É uma característica essencial para atrair polinizadores”, explica Eduardo.
O seu desenvolvimento também é mais acelerado, mas ainda assim reduzido em comparação a outros tubérculos, como batata ou beterraba. “São necessários de dois a três anos para um bom tubérculo do konjac”, aponta o engenheiro-agrônomo.
A ‘Amorphophallus titanum’ e a ‘Amorphophallus konjac’ compartilham a mesma base botânica, mas diferem na escala: uma impressiona pelo tamanho e raridade, a outra pelo uso alimentar
Montagem: User:BotBln/Wikimedia Commons | Needpix.com/Creative Commons
A planta solta uma única folha grande, que parece uma mini árvore, cresce durante meses e depois seca naturalmente e entra em dormência.
Além de ser usado para a indústria de alimentos, o tubérculo é a forma mais comum de plantar a espécie, que deve ser cultivada em locais de clima quente e úmido.
É do tubérculo da ‘Amorphophallus konjac’ que nasce o konjac, ingrediente conhecido pelo baixo teor calórico
Sebastian Stabinger/Wikimedia Commons
As duas variedades compartilham a mesma estrutura básica — com um tubérculo subterrâneo, uma única folha grande e uma inflorescência formada por um eixo central cercado por uma espécie de “folha” que o envolve —, mas diferem na escala.
“A Amorphophallus konjac tem ciclo mais curto: floresce antes do surgimento da folha anual e apresenta porte menor, geralmente entre 60 cm e 1 metro”, descreve Eduardo.
‘Amorphophallus konjac’ em fase de desenvolvimento, com a estrutura foliar ainda em abertura — estágio que ocorre antes da floração
Sebastian Stabinger/Wikimedia Commons
Como cultivar a Amorphophallus konjac
Apesar do tempo de desenvolvimento e origem asiática, a planta pode ser cultivada no Brasil, em especial em regiões de clima quente e úmido.
“A espécie não se adapta a todas as regiões. No Sul, por exemplo, o clima é um limitador. A planta exige calor, meia-sombra, solo rico e bem drenado, além de paciência, já que tem crescimento lento”, pontua o especialista.
Confira o passo a passo para plantar konjac:
O plantio da Amorphophallus konjac é feito a partir do tubérculo, conhecido como “batata” de konjac.
Use uma mistura equilibrada de terra comum, matéria orgânica e areia, garantindo um solo fértil e bem drenado.
Cultive em vasos grandes, com pelo menos 30 a 40 cm de profundidade, ou diretamente no canteiro.
Mantenha em local de meia-sombra, protegida de ventos fortes. O desenvolvimento é favorecido por temperaturas entre 20 ºC e 30 ºC. Evite exposição ao frio intenso, especialmente abaixo de 10 ºC e geadas.
Mantenha o solo sempre úmido, mas nunca encharcado. Em geral, duas a três regas por semana são suficientes.
Após meses de crescimento, a planta seca naturalmente e entra em dormência — um processo normal. Quando a parte aérea secar, interrompa a rega e deixe o tubérculo descansar no solo.
O ciclo completo até a formação de um bom tubérculo leva de dois a três anos.
O tubérculo da ‘Amorphophallus’ konjac concentra glucomanano, fibra que dá origem à farinha e aos alimentos derivados do konjac
Susan Slater/Wikimedia Commons
Da raiz ao prato
Apesar de originar um tubérculo, o konjac é comumente consumido em sua forma processada. “Após dois a três anos, o tubérculo é colhido e passa por processamento industrial que transforma sua fibra, o glucomanano, em farinha e alimentos”, diz Eduardo.
O alimento já faz parte da cultura japonesa, em especial por meio do shirataki, macarrão de textura elástica, sabor neutro, livre de glúten e baixo em calorias.
Leve e rico em fibras, o macarrão de konjac pode ser combinado com carnes e vegetais
PxHere/Creative Commons
“Na culinária contemporânea ocidental, tem sido amplamente utilizado como substituto de massas de trigo ou arroz, reduzindo drasticamente a oferta de carboidratos desses pratos e, consequentemente, as calorias”, coloca Manuela Dolinsky, professora do Departamento de Nutrição e Dietética da Faculdade de Nutrição da Universidade Federal Fluminense (UFF).
Segundo ela, o konjac, rico em fibras, pode regular o pico de glicose no sangue após a alimentação, além de influenciar a microbiota do intestino, atuando como prebiótico.
Leia também
Apesar disso, o alimento é baixo em proteínas, gorduras, vitaminas ou minerais. “É usado mais para aumentar a saciedade do que como fonte de nutrientes”, aponta Manuela. “Por ser uma fibra, ele pode ocupar espaço no estômago e retardar a digestão, dando a sensação de ‘estar satisfeito’ com o consumo de poucas calorias.”
Porém, o ingrediente sozinho não é responsável pelo emagrecimento – processo que depende de um contexto maior, incluindo um estilo de vida saudável, com alimentação equilibrada e atividades físicas. “O konjac entra como coadjuvante que pode ou não ser útil, dependendo da resposta individual e de como o restante da dieta é estruturado”, fala a professora.
O konjac é extremamente versátil na cozinha, principalmente na forma de massas e arroz de baixa caloria. Ele tem sabor neutro, o que permite combinar com diferentes molhos e ingredientes
GettyImages
Boas maneiras de incluir produtos feitos de konjac são associá-los a uma porção menor de arroz ou outro tipo de carboidrato, ou como base de um refogado com carnes e legumes. “O ideal é que seja integrado a preparações ricas em especiarias e vegetais, respeitando o paladar e as tradições locais para que a refeição não perca seu caráter de prazer e cultura”, ela omenta.
O uso do ingrediente deve ser feito com moderação, visto que “o consumo excessivo de fibras altamente viscosas pode causar desconforto abdominal em algumas pessoas, como produção de gases e, em casos extremos, interferir na absorção de medicamentos e vitaminas”, pontua Manuela.
Popular na Ásia e cada vez mais presente no Brasil — impulsionado por influenciadores fitness —, o alimento chama atenção pelo valor calórico: apenas 10 kcal a cada 100 gramas.
O que pouca gente sabe é que ele vem de uma planta de floração incomum e desenvolvimento lento: a Amorphophallus konjac, conhecida como língua-do-diabo.
Por trás do ingrediente de poucas calorias, uma planta incomum: a ‘Amorphophallus konjac’
C T Johansson/Wikimedia Commons
Conheça a língua-do-diabo
Nativa do sudeste asiático, a língua-do-diabo é parente da Amorphophallus titanum, popularmente conhecida como flor-cadáver.
Leia também
“O cheiro da flor-cadáver se assemelha ao de carne podre e sua floração pode levar mais de uma década para acontecer e durar apenas três dias”, diz o engenheiro-agrônomo Eduardo Funari. O seu tamanho também é característico, podendo chegar até 3 metros e sendo uma grande atração quando floresce.
A ‘Amorphophallus konjac’, planta de origem asiática que dá origem ao konjac, é cultivada pelo tubérculo e tem desenvolvimento lento
Hinnerk11/Wikimedia Commons
Do mesmo gênero, a língua-do-diabo apresenta características mais discretas — com menor porte e odor menos intenso. “Em ambas as espécies, o cheiro se espalha e atrai insetos que procuram matéria em decomposição, como as moscas e besouros. É uma característica essencial para atrair polinizadores”, explica Eduardo.
O seu desenvolvimento também é mais acelerado, mas ainda assim reduzido em comparação a outros tubérculos, como batata ou beterraba. “São necessários de dois a três anos para um bom tubérculo do konjac”, aponta o engenheiro-agrônomo.
A ‘Amorphophallus titanum’ e a ‘Amorphophallus konjac’ compartilham a mesma base botânica, mas diferem na escala: uma impressiona pelo tamanho e raridade, a outra pelo uso alimentar
Montagem: User:BotBln/Wikimedia Commons | Needpix.com/Creative Commons
A planta solta uma única folha grande, que parece uma mini árvore, cresce durante meses e depois seca naturalmente e entra em dormência.
Além de ser usado para a indústria de alimentos, o tubérculo é a forma mais comum de plantar a espécie, que deve ser cultivada em locais de clima quente e úmido.
É do tubérculo da ‘Amorphophallus konjac’ que nasce o konjac, ingrediente conhecido pelo baixo teor calórico
Sebastian Stabinger/Wikimedia Commons
As duas variedades compartilham a mesma estrutura básica — com um tubérculo subterrâneo, uma única folha grande e uma inflorescência formada por um eixo central cercado por uma espécie de “folha” que o envolve —, mas diferem na escala.
“A Amorphophallus konjac tem ciclo mais curto: floresce antes do surgimento da folha anual e apresenta porte menor, geralmente entre 60 cm e 1 metro”, descreve Eduardo.
‘Amorphophallus konjac’ em fase de desenvolvimento, com a estrutura foliar ainda em abertura — estágio que ocorre antes da floração
Sebastian Stabinger/Wikimedia Commons
Como cultivar a Amorphophallus konjac
Apesar do tempo de desenvolvimento e origem asiática, a planta pode ser cultivada no Brasil, em especial em regiões de clima quente e úmido.
“A espécie não se adapta a todas as regiões. No Sul, por exemplo, o clima é um limitador. A planta exige calor, meia-sombra, solo rico e bem drenado, além de paciência, já que tem crescimento lento”, pontua o especialista.
Confira o passo a passo para plantar konjac:
O plantio da Amorphophallus konjac é feito a partir do tubérculo, conhecido como “batata” de konjac.
Use uma mistura equilibrada de terra comum, matéria orgânica e areia, garantindo um solo fértil e bem drenado.
Cultive em vasos grandes, com pelo menos 30 a 40 cm de profundidade, ou diretamente no canteiro.
Mantenha em local de meia-sombra, protegida de ventos fortes. O desenvolvimento é favorecido por temperaturas entre 20 ºC e 30 ºC. Evite exposição ao frio intenso, especialmente abaixo de 10 ºC e geadas.
Mantenha o solo sempre úmido, mas nunca encharcado. Em geral, duas a três regas por semana são suficientes.
Após meses de crescimento, a planta seca naturalmente e entra em dormência — um processo normal. Quando a parte aérea secar, interrompa a rega e deixe o tubérculo descansar no solo.
O ciclo completo até a formação de um bom tubérculo leva de dois a três anos.
O tubérculo da ‘Amorphophallus’ konjac concentra glucomanano, fibra que dá origem à farinha e aos alimentos derivados do konjac
Susan Slater/Wikimedia Commons
Da raiz ao prato
Apesar de originar um tubérculo, o konjac é comumente consumido em sua forma processada. “Após dois a três anos, o tubérculo é colhido e passa por processamento industrial que transforma sua fibra, o glucomanano, em farinha e alimentos”, diz Eduardo.
O alimento já faz parte da cultura japonesa, em especial por meio do shirataki, macarrão de textura elástica, sabor neutro, livre de glúten e baixo em calorias.
Leve e rico em fibras, o macarrão de konjac pode ser combinado com carnes e vegetais
PxHere/Creative Commons
“Na culinária contemporânea ocidental, tem sido amplamente utilizado como substituto de massas de trigo ou arroz, reduzindo drasticamente a oferta de carboidratos desses pratos e, consequentemente, as calorias”, coloca Manuela Dolinsky, professora do Departamento de Nutrição e Dietética da Faculdade de Nutrição da Universidade Federal Fluminense (UFF).
Segundo ela, o konjac, rico em fibras, pode regular o pico de glicose no sangue após a alimentação, além de influenciar a microbiota do intestino, atuando como prebiótico.
Leia também
Apesar disso, o alimento é baixo em proteínas, gorduras, vitaminas ou minerais. “É usado mais para aumentar a saciedade do que como fonte de nutrientes”, aponta Manuela. “Por ser uma fibra, ele pode ocupar espaço no estômago e retardar a digestão, dando a sensação de ‘estar satisfeito’ com o consumo de poucas calorias.”
Porém, o ingrediente sozinho não é responsável pelo emagrecimento – processo que depende de um contexto maior, incluindo um estilo de vida saudável, com alimentação equilibrada e atividades físicas. “O konjac entra como coadjuvante que pode ou não ser útil, dependendo da resposta individual e de como o restante da dieta é estruturado”, fala a professora.
O konjac é extremamente versátil na cozinha, principalmente na forma de massas e arroz de baixa caloria. Ele tem sabor neutro, o que permite combinar com diferentes molhos e ingredientes
GettyImages
Boas maneiras de incluir produtos feitos de konjac são associá-los a uma porção menor de arroz ou outro tipo de carboidrato, ou como base de um refogado com carnes e legumes. “O ideal é que seja integrado a preparações ricas em especiarias e vegetais, respeitando o paladar e as tradições locais para que a refeição não perca seu caráter de prazer e cultura”, ela omenta.
O uso do ingrediente deve ser feito com moderação, visto que “o consumo excessivo de fibras altamente viscosas pode causar desconforto abdominal em algumas pessoas, como produção de gases e, em casos extremos, interferir na absorção de medicamentos e vitaminas”, pontua Manuela.



