Rino Levi: conheça a história do arquiteto que pensou São Paulo como metrópole

Entre os protagonistas da arquitetura moderna brasileira, Rino Levi (1901–1965) ocupa um lugar singular. Seu nome nem sempre aparece com o mesmo destaque de outros contemporâneos, mas sua atuação foi decisiva na construção da São Paulo que se consolidava como metrópole ao longo do século 20.
Ao lado de nomes como Lúcio Costa (1902-1998) e Oscar Niemeyer (1907–2012), Rino integra a primeira geração de arquitetos modernos no país, sendo representante da chamada Escola Paulista de Arquitetura Moderna. Além disso, fundou o escritório Rino Levi Arquitetos Associados em 1927.
“Ele forma, com esses nomes, o rol dos principais protagonistas da arquitetura moderna brasileira”, afirma Abilio Guerra, arquiteto e urbanista, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Ele é co-autor do livro Rino Levi, arquitetura e cidade (2019), da Editora Romano Guerra, feito em parceria com o também arquiteto Renato Anelli e o fotógrafo Nelson Kon.
Os edifícios Porchat, à esquerda, e Guarani, à direita, estão entre os trabalhos de Rino Levi que permanecem de pé no centro da capital paulista
Flickr/Monica Kaneko/Creative Commons; Flickr/Gabriel de Andrade Fernandes/Creative Commons | Montagem: Casa e Jardim
Nos anos 1920, o arquiteto já se posicionava no debate disciplinar do setor. “Sua carta, Arquitetura e estética das cidades, de 1925, enviada ao jornal O Estado de S. Paulo, é considerada um dos primeiros manifestos brasileiros em defesa da arquitetura moderna, antecedendo em quase uma década a conversão de Lúcio Costa ao ideário moderno”, ressalta Abilio.
Especialmente entre 1930 e 1960, quando a capital paulista passou por transformações profundas, Rino desenvolveu significativo número de projetos, os quais dialogavam com a expansão das avenidas, a verticalização e o surgimento de novos programas arquitetônicos ligados à vida moderna, como cinemas, escritórios e conjuntos residenciais.
Leia mais
Ao longo de sua trajetória, o arquiteto construiu uma produção diversa e consistente, marcada pela atenção ao uso, à técnica e ao contexto, com uma preocupação constante com a experiência dos espaços e sua relação com o entorno — olhar que ajuda a explicar por que sua obra permanece atual.
“É uma arquitetura que está e sempre esteve pensando a cidade”, diz Renato Anelli, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, co-autor do livro Rino Levi, arquitetura e cidade (2019).
Rino Levi durante a construção do Edifício Columbus (1930-1934), na Avenida Brigadeiro Luís Antônio, em São Paulo, SP
Acervo Digital Rino Levi/Divulgação
Formação e primeiros anos
Nascido em São Paulo em 1901, filho de imigrantes italianos, Rino teve uma formação marcada pela forte conexão com o exterior. Estudou no Colégio Dante Alighieri antes de seguir para a Itália, onde cursou Arquitetura em Milão, em uma formação vinculada ao Politécnico de Milão e à Academia de Belas Artes de Brera, e depois em Roma, na Escola Superior de Arquitetura.
Em Milão, teve contato com um ensino que buscava articular técnica e arte, enquanto em Roma se aproximou da ideia do arquiteto integral. “A formação combinava competência técnica e capacitação artística”, explica Abilio. Esse percurso ajuda a entender seu interesse precoce em articular arquitetura e urbanismo. “O arquiteto já falava da importância de uma arquitetura com alma brasileira, ligada ao clima, à cultura e à vegetação”, destaca Renato.
O Cine Ufa-Palácio na esquina da Rua do Sol com a Rua do Cajú e a Rua de Santo Amaro (atual Praça Duarte Coelho) no Recife, PE
Acervo da Biblioteca da FAU-USP/Divulgação
De volta ao Brasil, em 1926, Rino inicia a carreira de forma gradual, atuando como projetista, construtor e empreiteiro. Em um primeiro momento, desenvolve pequenas residências para aluguel, voltadas sobretudo à comunidade italiana de São Paulo, ainda com linguagem tradicional. No ano seguinte, ele funda seu escritório.
A afirmação de uma linguagem moderna
A inflexão ocorre no início dos anos 1930, após o contato com a casa modernista de Gregori Warchavchik (1896–1972) na Vila Mariana, São Paulo. A partir daí, seus projetos passam a incorporar referências modernas e Rino consolida uma linguagem própria, sempre com atenção à cidade.
Edifício Columbus para o Sr. Lamberto Ramenzoni na Rua da Paz, esquina com Avenida Brigadeiro Luiz Antônio, em São Paulo, SP
Acervo da Biblioteca da FAU-USP/Divulgação
Exemplos são o Cinema UFA-Palácio (1936) no Recife, PE; o Edifício Columbus (1932) — considerado um de seus primeiros prédios residenciais —, o Edifício Guarani (1940) e o Edifício Porchat (1942), os três na capital paulista. Esses projetos evidenciam a transição para a linguagem alinhada ao moderno, ainda com influências do art déco europeu, e marcam a ampliação de escala de sua produção.
“Da organização das pranchas de executivo ao trabalho colaborativo da equipe do escritório, Rino Levi constrói ao longo do tempo uma cultura projetual de refinamento baseada na escolha de materiais e elementos arquitetônicos, bem como no controle elevado dos detalhes construtivos dos projetos, cultura que garante para si e seu escritório o reconhecimento do meio profissional”, destaca Abilio.
Projeto do Teatro Cultura Artística na Rua Nestor Pestana, 230, em São Paulo, SP, feito por Rino Levi
Acervo da Biblioteca da FAU-USP/Divulgação
Arquitetura como construção da cidade
Um dos aspectos marcantes da obra de Rino Levi é a forma como seus projetos dialogam com o espaço urbano, sempre concebidos a partir de uma reflexão sobre a implantação e o impacto da nova construção. “Cada projeto era também uma reflexão sobre como a cidade deveria crescer”, afirma Renato
Na década de 1940, essa postura se evidencia no Edifício Prudência (1948), localizado em Higienópolis. O projeto, desenvolvido em parceria com Roberto Burle Marx no paisagismo, combina a verticalização com amplas áreas livres e jardins.
Sob o aspecto artístico, um marco decisivo na trajetória de Rino Levi é o Edifício Prudência (1944–1948). Com apartamentos amplos e confortos inovadores, como ar-condicionado central, o projeto se destacava pelo térreo revestido em azulejaria e pelo jardim assinado por Roberto Burle Marx. Localizado no requintado bairro de Higienópolis, o Prudência buscava seduzir uma elite acostumada até então a habitar palacetes luxuosos, oferecendo uma nova forma de morar em edifícios
Acervo Digital Rino Levi/Divulgação
Outros destaques são o Instituto Sedes Sapientiae (1941), em Perdizes, o Edifício Sulacap (1948), localizado no centro de São Paulo, que reforça a atuação de Rino Levi em áreas já consolidadas da cidade e evidencia seu diálogo com a verticalização do tecido urbano.
O Cine Universo chamava a atenção pela sua grandiosidade, tanto no projeto quanto na execução. Assinado pelo arquiteto Rino Levi, o edifício se tornou um marco da arquitetura de cinemas em São Paulo
Acervo Digital Rino Levi/Divulgação
O arquiteto também foi pioneiro na incorporação de programas que definiriam a vida urbana moderna. Projetos como o Teatro Cultura Artística (1947), o Cine Ipiranga (1943) e o Cine Universo (1939) judaram a estruturar circuitos culturais na cidade.
O Cine Universo, inclusive, foi anunciado como o “maior cinema da América Latina” na véspera de sua inauguração, em 8 de abril de 1939, devido à sua magnitude.
Projeto da Residência Olivio Gomes, na cidade de São José dos Campos, SP, com autoria do arquiteto Rino Levi
Acervo da Biblioteca da FAU-USP/Divulgação
Casas como refúgio e conexão com a paisagem
Enquanto nos edifícios Rino Levi dialogava diretamente com a cidade, em suas casas o arquiteto desenvolveu uma abordagem distinta. Voltadas para o interior, elas se organizam em torno de pátios e jardins, criando espaços de recolhimento e convivência.
Essa lógica aparece na Residência Olívio Gomes (1951), em São José dos Campos, SP; na Residência Castor Delgado Perez (1958), no Pacaembu, e na Residência Paulo Nogueira Neto (1958), no Jardim América, ambas na capital paulista. “São casas introvertidas, fechadas para a rua e abertas para o jardim”, diz Renato. “Essa tipologia responde à crescente complexidade urbana”, complementa Abilio.
O projeto da Residência Castor Delgado Perez, localizado na Bela Vista, em São Paulo, remonta aos anos de 1958/1959 e integra uma série de propostas introspectivas concebidas por Rino Levi. A obra reflete a busca do arquiteto por soluções que equilibrassem modernidade e privacidade
José Moscardi/Cedida por Luciana Brito Galeria
Especialização e reconhecimento internacional
Ao longo da carreira, Rino Levi também se destacou por sua atuação em áreas técnicas específicas, tornando-se referência em acústica arquitetônica e em projetos hospitalares. No caso dos hospitais, suas propostas incorporavam estudos avançados sobre circulação e organização de fluxos, como exemplifica o Hospital do Câncer — atual A.C. Camargo — no bairro da Liberdade, em São Paulo.
“O arquiteto propunha espaços de modo a evitar cruzamentos de diferentes tipos de pacientes e demandas, além da redução dos riscos de contaminação. São temáticas que permanecem atuais, mas já se faziam presentes naquele momento”, salienta Renato.
Croquis feitos por Rino Levi para o projeto do Hospital Albert Einstein (unidade Morumbi) que se destacava pelo o uso dos vãos
Acervo Digital Rino Levi/Divulgação
Essa expertise levou Rino Levi a atuar também fora do Brasil. Entre 1959 e 1961, ele permaneceu por longos períodos em Caracas, na Venezuela, onde desenvolveu projetos e estudos na área hospitalar.
“Ele faz um conjunto de estudos para hospitais venezuelanos com equipes de jovens arquitetos. Parte dessas propostas chegaram a ser construídas, enquanto outras foram adaptadas ao longo do tempo”, conta Renato.
A arquitetura hospitalar foi uma frente importante de atuação de Rino Levi, no Brasil e no exterior. Na foto, projeto do Hospital Albert Einstei no Morumbi, São Paulo
Acervo da Biblioteca da FAU-USP/Divulgação
Outro campo em que se destacou foi o da acústica arquitetônica — atuação que dialoga com a formação ampla que recebeu na Itália, ao articular conhecimento técnico e desenho do espaço. Nos projetos de cinemas e teatros, essa base se traduz em uma abordagem precisa e experimental.
“Ele dimensiona, calcula e cria formas adequadas para a melhor difusão do som. A acústica não era unicamente um detalhe técnico, era parte fundamental do projeto, capaz de influenciar a forma arquitetônica”, destaca Renato. “Essa atenção é parte de uma cultura projetual muito rigorosa”, complementa Abilio.
A questão acústica era fundamental e um ponto de destaque dos projetos de Rino Levi para espaços culturais e de uso misto, como os cinemas e teatros que projetou. Na foto, Teatro de Cultura Artística
Acervo Digital Rino Levi/Divulgação
Últimos anos e projetos de Rino Levi
Nos anos finais da carreira, Rino amplia sua atuação e consolida uma produção marcada pela escala urbana. É um momento em que seus projetos evidenciam a articulação entre espaço público e vida cotidiana, ao mesmo tempo em que revelam uma inflexão em sua linguagem. “Os últimos projetos demonstram a disposição do arquiteto em redirecionar mais uma vez sua obra”, coloca Abilio.
Entre as propostas desse período está um plano de Brasília. “O projeto dele é muito diferente do que foi realizado depois”, afirma Renato. Em vez de uma cidade monumental e rigidamente setorizada, Rino propunha uma organização integrada e com atenção ao cotidiano. Sua proposta, no entanto, não foi a escolhida no concurso, que teve como vencedor Lúcio Costa.
O Plano Piloto que Rino Levi apresentou para o concurso de Brasília em 1957 ficou em 3º lugar e se destacou por propor uma cidade polinuclear, com habitação como protagonista absoluta
Acervo da Biblioteca da FAU-USP/Divulgação
Essa mudança de direção também se manifesta em projetos como a Usina de Leite Paraíba (1963) e o hangar da Tecelagem Paraíba (1965), ambos em São José dos Campos, SP, nos quais o uso do concreto aparente e a ênfase estrutural evidenciam o diálogo com o chamado brutalismo paulista.
Essa mesma lógica aparece em seu último projeto, o Centro Cívico de Santo André (1965), na região do ABC Paulista. Nele, dois volumes expressivos se destacam em meio a uma organização rigorosa dos edifícios, reforçando a relação entre estrutura e forma. “É um projeto que mostra a preocupação com o conjunto e com a cidade”, destaca Renato.
Croquis do Paço Municipal e Centro Cívico de Santo André, SP. Projeto do escritório Rino Levi Arquitetos Associados e de Roberto Burle Marx
Acervo da Biblioteca da FAU-/Divulgação
Nos últimos anos, mais do que apenas projetar, Rino ainda reforça sua atuação como pensador. “Há uma defesa clara do arquiteto como alguém que deve refletir sobre o destino urbano”, afirma Abilio.
Legado e permanência de Rino Levi
Rino Levi faleceu em 1965, durante uma viagem pena Bahia, na qual estava acompanhado de Roberto Burle Marx. Deixou uma produção extensa, marcada tanto pela prática profissional quanto pelo debate acadêmico. Parte significativa desse legado, no entanto, foi perdida ao longo das décadas. “Muitos edifícios foram demolidos ou descaracterizados”, conta Renato.
Alguns projetos do arquiteto Rino Levi, como a Residência Castor Delgado Perez, foram preservados e inclusive tombados pelo poder público. Hoje, o imóvel paulistano abriga a Luciana Brito Galeria
Ruy Teixeira/Divulgação/Cedida por Luciana Brito Galeria
Assim, iniciativas recentes vêm contribuindo para reavaliar e difundir a importância de Rino Levi. Um exemplo é a exposição realizada em 2024, no Museu da Cidade de São Paulo (MCSP) – Chácara Lane, no bairro da Consolação, que reuniu desenhos, documentos e projetos do arquiteto. A mostra ajudou a reposicionar sua obra no panorama da arquitetura moderna brasileira e a aproximá-la de novas gerações. “Encontramos um personagem muito mais complexo e influente do que se imaginava”, afirma Abilio.”
Leia mais
Para além dos projetos e ideias, ele teve papel fundamental na regulamentação da profissão. Defendia que o projeto arquitetônico fosse reconhecido como atividade exclusiva do arquiteto e, nesse sentido, exerceu intensa atuação no Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB). Além disso, contribuiu para a formação acadêmica de novas gerações ao lecionar na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP)
A exposição Rino Levi: história e utopia, realizada em 2024 no Museu da Cidade, na capital paulista, recuperou a trajetória e o legado do arquiteto
Nelson Kon/Museu da Cidade de São Paulo – Chácara Lane/Divulgação
O percurso de Rino Levi evidencia uma atuação que ultrapassa qualquer tentativa de redução a uma única imagem profissional, afirmando-se pela amplitude de suas frentes de trabalho e de pensamento na arquitetura brasileira.
Para Abilio, a ideia de que o profissional teria sido apenas um “arquiteto da prancheta” não é apenas imprecisa, mas falsa. “A abrangência do seu pensamento, de suas preocupações e de sua múltipla atuação aponta o contrário: Rino Levi se transformou naquilo que ambicionava desde os tempos de estudante e que expressou em sua longínqua carta de 1925: um ‘arquiteto integral'”, reflete o professor.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima